Em um universo onde a precisão é silenciosa e a excelência não admite concessões, Björn Frantzén construiu algo que ultrapassa o conceito de sucesso. O chef sueco de 49 anos tornou-se o único nome no mundo a comandar simultaneamente três restaurantes com três estrelas Michelin, o mais alto reconhecimento da gastronomia global. Estocolmo, Singapura e Dubai formam o eixo geográfico dessa conquista extraordinária, que posiciona Frantzén em um território reservado a pouquíssimos. Não se trata apenas de reconhecimento, mas de consistência em sua forma mais rigorosa.

O Frantzén, em Estocolmo, foi o primeiro a alcançar o ápice em 2018, estabelecendo uma nova referência para a culinária nórdica contemporânea. Três anos depois, o Zén, em Singapura, repetiu o feito, consolidando a expansão internacional de sua visão. Em 2025, foi a vez do FZN, em Dubai, conquistar três estrelas poucos meses após sua inauguração, um intervalo de tempo quase sem precedentes na história recente do guia. Ao atingir esse marco, Frantzén passou a liderar três dos apenas 157 restaurantes no mundo com essa distinção máxima, um feito que redefine a escala do que é possível dentro da alta gastronomia.
Curiosamente, a motivação que sustenta essa trajetória não está centrada no reconhecimento institucional. Frantzén construiu sua filosofia a partir de um princípio mais íntimo, orientado pela responsabilidade com cada cliente que atravessa suas portas. Para ele, a experiência deve ser impecável independentemente de quem a observa, seja um inspetor Michelin ou um visitante que aguardou anos para viver aquele momento. Essa perspectiva transforma o restaurante em algo além de um palco de performance culinária. Torna-se um organismo vivo, onde cada detalhe é calibrado com precisão emocional e técnica.

Sua cozinha traduz essa sensibilidade em forma e sabor. Influenciada pela herança escandinava, sua gastronomia explora técnicas como fermentação, cura e conservação, práticas ancestrais reinterpretadas sob uma lente contemporânea. Ao mesmo tempo, sua formação clássica francesa oferece a base estrutural, enquanto influências japonesas adicionam refinamento e clareza. O resultado é uma linguagem própria, marcada por equilíbrio, pureza e uma compreensão profunda da matéria-prima.
A trajetória que o levou até esse ponto, no entanto, não começou na cozinha. Durante a juventude, o futebol ocupava o centro de sua vida, e Frantzén chegou a jogar profissionalmente. Uma condição cardíaca congênita interrompeu sua carreira esportiva e o obrigou a redefinir seu futuro. A gastronomia, que até então existia como interesse secundário, tornou-se o novo caminho. Um prato de steak frites provado ainda na adolescência permanece em sua memória como o momento decisivo, uma revelação que transformou curiosidade em vocação.

Sua formação seguiu o rigor das cozinhas europeias mais exigentes. Passou por instituições como o Pied à Terre, em Londres, e o lendário L’Arpège, em Paris, onde absorveu os fundamentos que sustentariam sua identidade culinária. Em 2008, abriu seu primeiro restaurante autoral em parceria com Daniel Lindeberg, conquistando rapidamente duas estrelas Michelin. Anos depois, ao assumir integralmente o projeto e rebatizá-lo apenas com seu sobrenome, Frantzén consolidou sua autonomia criativa e iniciou uma expansão que hoje se traduz em um grupo com presença global.
O Frantzén Group atualmente opera nove restaurantes em cidades como Bangkok, Marbella e Singapura, todos conectados por uma visão comum que une precisão técnica e sensibilidade cultural. Novos projetos estão em desenvolvimento, incluindo o Emberlin, em Estocolmo, uma interpretação contemporânea da clássica steakhouse, além de uma nova unidade da Brasserie Astoria em Londres. Cada abertura é conduzida com cautela, preservando o controle criativo que se tornou uma de suas marcas registradas.

Apesar da dimensão global de sua carreira, Frantzén mantém uma relação íntima com a rotina. Em casa, prefere cozinhar pratos simples, frequentemente inspirados na tradição sueca. Divide seu tempo com suas duas filhas e encontra no esporte e na música um equilíbrio silencioso. Existe uma consciência clara de que a longevidade na gastronomia depende não apenas de ambição, mas de estabilidade e disciplina emocional.
O que torna sua trajetória singular não é apenas o número de estrelas, mas o caminho que o levou até elas. Frantzén partiu de um subúrbio sueco sem conexões ou privilégios no universo gastronômico internacional. Seu objetivo inicial era conquistar duas estrelas Michelin, um sonho que, à época, já parecia distante. Hoje, ele opera em uma dimensão que transcende expectativas iniciais, redefinindo o que significa liderança criativa na gastronomia contemporânea.
No silêncio coreografado de suas cozinhas, onde cada gesto é deliberado e cada elemento encontra seu lugar preciso, Björn Frantzén construiu algo raro. Não apenas restaurantes premiados, mas uma arquitetura de excelência sustentada por visão, disciplina e uma compreensão profunda do tempo.