Na cadência precisa da bateria e sob a luz intensa da Marquês de Sapucaí, Juliana Paes marcou seu retorno à Unidos da Viradouro com uma presença que sintetizou duas forças culturais de alcance global. Após 17 anos distante do posto de rainha de bateria, a atriz voltou à avenida vestindo uma criação inédita da Dolce & Gabbana, desenvolvida exclusivamente para o Carnaval do Rio de Janeiro. O gesto posicionou o desfile em um território onde o rigor artesanal da alta-costura italiana encontrou a potência simbólica do samba, consolidando um momento de rara convergência entre moda e tradição popular.
O desenvolvimento do figurino começou ainda em 2025, dentro dos ateliês da maison, sob a direção criativa de Domenico Dolce e Stefano Gabbana. Ao longo de 250 horas de trabalho manual, 13 artesãos dedicaram-se à construção de cada componente, seguindo os princípios que definem as criações de Alta Moda da casa. O processo envolveu uma investigação cuidadosa sobre o enredo da escola, que homenageou Mestre Ciça, figura central na história da bateria da Viradouro, e também sobre a presença cênica de Juliana, cuja imagem já faz parte do imaginário contemporâneo do Carnaval carioca.

O sutiã estruturado tornou-se o núcleo visual da composição, com aplicações em formato de coração completamente bordadas com cristais lapidados. A superfície refletia a luz com intensidade variável, criando uma sensação de movimento contínuo. Elementos florais emergiam entre as pedrarias, enquanto correntes metálicas em tons de prata e vermelho introduziam um ritmo visual que acompanhava o deslocamento do corpo. A calcinha, igualmente revestida por cristais, estabelecia uma ligação com o repertório histórico da Dolce & Gabbana, reinterpretando códigos da marca dentro de uma linguagem voltada para o espetáculo.
A construção da parte posterior revelou um exercício sofisticado de engenharia e estética. A capa de veludo de seda vermelho profundo, inspirada nas cortinas dos grandes teatros europeus, surgia apoiada sobre estruturas esculturais nos ombros, criando uma silhueta monumental. Escamas douradas aplicadas manualmente formavam uma superfície orgânica, enquanto pedras pendentes acrescentavam dimensão e profundidade. O grande costeiro de plumas vermelhas, reaproveitado do acervo da Viradouro, estabeleceu uma ligação direta com a memória visual da escola, reforçando a continuidade entre passado e presente.
Os acessórios completaram a narrativa com precisão simbólica. A coroa com três estrelas referenciava os títulos conquistados pela escola de Niterói, transformando o adorno em um emblema de pertencimento e conquista. O leque de penas ampliava a escala visual do figurino, projetando sua presença e intensificando o impacto visual na avenida. Cada elemento foi concebido para coexistir com o movimento, permitindo que o figurino respondesse à dinâmica do desfile.

A escolha dos materiais revelou o compromisso com a excelência técnica. Cristais lapidados, veludo de seda e metais trabalhados manualmente refletiram o domínio artesanal que caracteriza a tradição italiana. Ao mesmo tempo, a incorporação de plumas do acervo da escola introduziu um componente de autenticidade e respeito à história da Viradouro, criando uma síntese entre herança local e sofisticação internacional.
Na avenida, o figurino assumiu uma dimensão viva. A luz incidia sobre as superfícies bordadas e produzia reflexos que acompanhavam cada passo. O veludo absorvia e devolvia a iluminação de forma sutil, enquanto as plumas desenhavam o espaço ao redor do corpo. A composição estabeleceu uma presença visual que dialogava com o ritmo da bateria, criando uma relação direta entre som, movimento e forma.

A estreia dessa criação também sinaliza um novo posicionamento estratégico para o Carnaval dentro do sistema global da moda. A presença de uma maison como Dolce & Gabbana na Sapucaí reconhece o desfile como um espaço legítimo de experimentação estética e relevância cultural. A avenida, tradicionalmente associada à exuberância popular, passa a ocupar também um lugar de interesse para o universo da alta-costura, onde o artesanato, a performance e a identidade cultural coexistem.
Naquela noite, a Sapucaí tornou-se o ponto de encontro entre dois mundos guiados pelo mesmo princípio, o da expressão através da forma. Juliana Paes, ao atravessar a avenida com uma criação concebida com rigor absoluto, reafirmou o poder do Carnaval como território de criação, onde tradição e inovação seguem avançando em perfeita sintonia.