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Paris recebe mostra que celebra oito décadas de O Pequeno Príncipe

Oito décadas após sua publicação na França, O Pequeno Príncipe segue como uma das obras literárias mais universais do século 20. Mais do que um livro, tornou-se um fenômeno cultural capaz de atravessar gerações, idiomas e fronteiras, mantendo intacta sua força simbólica e poética. É justamente esse legado que ganha nova leitura em Paris, na exposição One Rose, A Thousand Worlds, em cartaz na A2Z Art Gallery, no coração de Saint-Germain-des-Prés.

O bairro não poderia ser mais emblemático. Foi ali, entre cafés e círculos intelectuais, que Antoine de Saint-Exupéry viveu parte de sua trajetória criativa. O mesmo território que, nos anos 1940, fervilhava de trocas artísticas e filosóficas volta a servir de cenário para um diálogo contemporâneo, agora mediado pela arte visual. A mostra celebra os 80 anos da primeira edição francesa do livro ao convidar 17 artistas da Ásia e da França a reinterpretarem seus temas centrais a partir de diferentes linguagens.

Pinturas, esculturas, cerâmicas e obras em técnica mista se articulam em uma constelação sensível que reflete questões como amor, responsabilidade, exílio, memória e os laços invisíveis que conectam os seres humanos. O título da exposição já antecipa esse espírito. Uma única rosa pode conter mil mundos, assim como a narrativa de Saint-Exupéry segue abrindo infinitas possibilidades de leitura.

A rosa, aliás, ocupa posição simbólica no conjunto da mostra. Frágil, exigente e insubstituível, ela reaparece como metáfora do afeto e do compromisso. Para o pintor francês Alain Delsalle, trata-se de um elemento profundamente pessoal. Inspirado por décadas de leitura da obra de Saint-Exupéry, ele traduz o imaginário do Pequeno Príncipe em uma pintura abstrata e luminosa, onde memória, contemplação e homenagem se encontram de forma silenciosa e introspectiva.

Entre os destaques da exposição está também a contribuição da artista japonesa Shiori Eda, que apresenta, pela primeira vez em sua carreira, uma figura masculina. Conhecida por suas composições habitadas por personagens femininas em paisagens vastas e quase indomáveis, Eda escolheu preservar a integridade simbólica do Pequeno Príncipe. Sua obra sugere uma presença que transcende o corpo, evocando a ideia de que, mesmo após a morte, o espírito permanece vivo. Executada em tons de branco e preto, a pintura dialoga com significados culturais ligados à passagem e à continuidade.

A dimensão emocional da obra de Saint-Exupéry também se manifesta em relatos profundamente pessoais. O artista vietnamita Bùi Công Khánh compartilha como O Pequeno Príncipe foi um refúgio para sua família durante períodos de guerra e escassez. Sua escultura em cerâmica, que representa um coração humano pintado à mão, materializa a noção do essencial invisível, aquilo que não se vê com os olhos, mas se reconhece pelo afeto e pela memória. Para Khánh, a arte se torna um gesto de preservação da delicadeza humana.

Já o artista japonês Takashi Hara introduz movimento e leveza à exposição com uma instalação que remete ao voo, às estrelas e à travessia entre mundos. Suas figuras híbridas, ao mesmo tempo lúdicas e simbólicas, atravessam o espaço expositivo como se fossem conduzidas pelo vento, convidando o visitante a percorrer a galeria de forma quase narrativa. A referência a mitos orientais amplia o diálogo intercultural proposto pela mostra.

O tema da viagem também se desdobra nas pinturas do artista franco-iraniano Sepand Danesh. Suas figuras fragmentadas e pixeladas do Pequeno Príncipe, da raposa e da serpente constroem paisagens psicológicas que cruzam infância, deslocamento e reconstrução. Ao borrar os limites entre duas e três dimensões, suas obras sugerem um trânsito constante entre passado e presente, memória individual e história coletiva.

Além de seu alcance artístico, One Rose, A Thousand Worlds carrega uma forte dimensão filantrópica. Parte da renda obtida com a venda das obras será destinada à Fundação Antoine de Saint-Exupéry para a Juventude, reforçando o caráter humanista que sempre permeou a obra do autor. O projeto conta ainda com o apoio de parceiros que viabilizam essa ponte entre criação contemporânea e impacto social.

Concebida como uma exposição itinerante, a mostra seguirá para o sul da França em junho de 2026, antes de viajar para Singapura no ano seguinte. Esse percurso amplia o alcance do diálogo entre artistas asiáticos e franceses, permitindo que a mensagem universal do Pequeno Príncipe continue a circular por novos contextos e públicos.

Oitenta anos depois, a história do menino que veio de outro planeta segue provocando perguntas essenciais e inspirando novas imagens. Em Paris, essas leituras contemporâneas reafirmam que O Pequeno Príncipe permanece vivo não apenas como clássico literário, mas como fonte inesgotável de reflexão, sensibilidade e imaginação.

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