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Edu Lyra e o negócio de acabar com a pobreza

Criado num barraco de chão de terra em Guarulhos, Edu Lyra vendeu um livro de porta em porta para fundar a Gerando Falcões. Quinze anos depois, a organização está em milhares de favelas, e o fundador virou o principal tradutor da filantropia brasileira: quem pede, como pede e por que dar deixou de ser caridade para virar método.
Telão na Times Square, em Nova York, exibe Edu Lyra, fundador da Gerando Falcões, e Fábio Fernandes Telão na Times Square, em Nova York, exibe Edu Lyra, fundador da Gerando Falcões, e Fábio Fernandes
Edu Lyra e Fábio Fernandes em telão na Times Square, em Nova York, em 2019. Imagem: Phábrica de Ideias/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

WAYFARER · People

“Não importa de onde você veio, importa para onde você vai.” A frase era de Maria Gorete de Brito Lyra, empregada doméstica, repetida ao filho num barraco de chão de terra em Guarulhos. O filho cresceu, e passou a repetir a mesma frase para presidentes de banco, herdeiros e bilionários. Só que agora, no fim dela, vem um pedido.

Edu Lyra é, hoje, uma das vozes mais influentes da filantropia brasileira. Fundou a Gerando Falcões em 2011, em Poá, na Grande São Paulo, e fez dela uma das organizações sociais mais conhecidas do país, com uma ambição que cabe numa linha e assusta pelo tamanho: levar a pobreza da favela para o museu. Mas a história dele também é a história de como se pede dinheiro no Brasil, e de como dar, aos poucos, deixou de ser gesto para virar método.

Edu Lyra e a Gerando Falcões em 30 segundos

  • Origem: criado num barraco de chão de terra em Guarulhos (SP)
  • Fundação: 2011, em Cidade Kemel, Poá, financiada com a venda de um livro de porta em porta
  • Alcance: mais de 5.500 favelas, 1.100 ONGs e 717 mil pessoas impactadas em 25 estados, segundo o MIT Technology Review (2023)
  • Fundo: R$ 75 milhões reunidos em 2025 por famílias empresariais e pela Fundação Lemann
  • Emprego: mais de 30 mil pessoas colocadas no mercado de trabalho em 2025

I. O chão de terra

A mãe, o pai preso e a decisão de não morrer de tiro

A infância de Edu Lyra cabe em poucos dados duros. A casa tinha chão de terra. A mãe trabalhava como doméstica. O pai passou pela prisão. Amigos e um primo morreram assassinados, e foi aí, contou ele ao Brazil Journal, que decidiu que não morreria de tiro. Em entrevistas, ele costuma dizer que a melhor chefe de RH que já teve foi a mãe: foi Maria Gorete quem lhe deu a autoestima que a periferia raramente oferece de graça.

Ele chegou a entrar na faculdade de jornalismo, na Universidade de Mogi das Cruzes, e desistiu depois de ouvir de um professor que não tinha futuro na profissão. Escreveu então o primeiro livro, Jovens Falcões, sobre 14 jovens brasileiros que saíram do nada, e o vendeu de porta em porta. O dinheiro da venda virou o capital inicial da Gerando Falcões. Antes de pedir a qualquer um, Edu doou o que tinha: o próprio livro.

Terminal de ônibus de Cidade Kemel, em Poá, na Grande São Paulo
Cidade Kemel, em Poá, onde a Gerando Falcões nasceu em 2011. Imagem: João Paulo Chagas/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

II. A escola de fim de semana

De Poá para a mesa de Jorge Paulo Lemann

A Gerando Falcões começou ocupando, aos fins de semana, uma escola municipal subutilizada em Poá. Ali, música, pintura, dança, teatro, tênis, boxe, skate e futsal dividiam espaço com cursos de programação, logística e serviços de aeroporto, feitos com empresas parceiras, e com um programa para devolver ex-presidiários ao mercado de trabalho. Em 2017, eram 800 famílias atendidas.

O salto veio de uma rede que Edu soube construir com a mesma insistência com que vendia livros. Patrícia Villela Marino, do Instituto PDR, entrou com dinheiro semente e com mentoria de gestão, e a organização adotou metas, auditoria externa e conselho. Por meio de Pedro Henrique de Cristo, Edu chegou a Jorge Paulo Lemann, que passou a doar, a mentorar a equipe e a financiar a formação de liderança do fundador em Harvard. Um almoço beneficente com Lemann reuniu 500 pessoas, com convites leiloados a até R$ 150 mil. Consultorias como a Accenture trabalharam de graça, ou quase, para desenhar o modelo. Aos 24 anos, Edu já tinha sido escolhido Global Shaper pelo Fórum Econômico Mundial.

“Estou passando o chapéu para ajudar o Brasil.”

Edu Lyra, ao anunciar o fundo da Gerando Falcões, em 2025

III. O método

Replicar a escola, não o Picasso

Desde cedo, Edu repetiu que não fazia sentido tanto esforço se não fosse para perpetuar. A resposta foi transformar a Gerando Falcões num ecossistema: em vez de crescer abrindo unidades próprias, a organização passou a acelerar líderes e ONGs que já trabalham dentro das favelas, oferecendo tecnologia social, formação e acesso a doadores. Em 2020, nasceu a Falcons University, braço de educação para formar essas lideranças. Em 2023, quando o MIT Technology Review incluiu Edu na lista Innovators Under 35, a rede somava mais de 5.500 favelas, 1.100 ONGs e 717 mil pessoas impactadas em 25 estados.

O método também se mede. Uma avaliação feita com o Idis, o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, apontou R$ 3,50 de benefício social para cada R$ 1 investido nas iniciativas analisadas, com retorno social já no segundo ano. É o tipo de número que muda a conversa com o doador: não se pede mais por compaixão, mas por resultado.

Casas de tijolo aparente da favela de Paraisópolis, em São Paulo, vistas do alto
Paraisópolis, em São Paulo: o Brasil tem quase 14 mil favelas e mais de 17 milhões de moradores, nas contas citadas por Edu Lyra. Imagem: Roberto Rocco/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

IV. A favela que vira laboratório

Favela 3D, games e o emprego como saída

O projeto mais ambicioso tem nome de tecnologia: Favela 3D, de digna, digital e desenvolvida. O piloto começou na Vila Itália, em São José do Rio Preto, no interior paulista, juntando moradia, regularização fundiária, infraestrutura, educação e geração de renda num mesmo território, com governo, empresas e startups de logística e de CEP digital. Segundo Edu, a experiência reduziu o analfabetismo, zerou a fila de creche e derrubou o desemprego local de 70% para menos de 5%.

A aposta mais recente olha para quem tem um celular na mão. Lançado em 2023 com a Final Level e o YouTube Gaming, o Favela Gaming já alcançou mais de 30 mil jovens, segundo a Exame, com campeonatos, aulas e bolsas de estudo para formar jogadores, criadores e desenvolvedores. E o fio que amarra tudo é o trabalho: em 2025, a Gerando Falcões colocou mais de 30 mil pessoas no mercado, e o Conecta Trampo, que liga empresas a candidatos das favelas, tem mais de 20 mil cadastrados. Para Edu, a favela é a grande startup do Brasil, com um milhão de oportunidades de negócio esperando conexão.

V. A cultura de doação

Um fundo para que a doação não acabe quando o jantar termina

Em março de 2025, Edu deu o passo que mais diz sobre a filantropia brasileira de hoje. A Gerando Falcões criou um fundo de renda fixa, administrado por uma associação de apoiadores, que destina 10% do patrimônio por ano ao trabalho nas favelas. A Fundação Lemann entrou com R$ 50 milhões e prometeu repetir o valor em 2026. Outros R$ 25 milhões vieram de famílias e executivos como os Setubal, os Marinho, Olímpio Matarazzo, Gabrielle e José Zitelmann, Denise Aguiar e Guilherme Benchimol. A meta anunciada na época por Edu era chegar a R$ 250 milhões até 2026.

A lógica é de quem aprendeu, na prática, que o maior inimigo de uma ONG é o calendário. Doação de jantar acaba quando o jantar termina; um fundo permanente transforma generosidade em orçamento. Edu defende que a filantropia é uma das ferramentas mais importantes para corrigir injustiças no país e que a agenda precisa ser aquecida por uma elite comprometida em doar. Dito por quem cresceu sem piso, o argumento tem outro peso.

VI. O que fica

De Marte à favela

Edu já falou em Harvard, no Babson College, no Google e na Ambev, e lançou com a jornalista Aline Midlej o livro De Marte à Favela, pela Planeta, que trata a pobreza como um sistema complexo e o empreendedorismo social como resposta. Evita a política partidária, mas na comunidade é tratado como liderança pública. E segue repetindo que o próximo grande empreendedor do Brasil pode sair de uma favela.

O mérito de Edu Lyra não está só no que construiu, mas no que ensinou a quem está do outro lado da mesa: que doar é parte de um projeto de país, que exige método, prestação de contas e permanência. É uma cultura de doação ainda em formação no Brasil. Ele é, hoje, um dos seus melhores professores.


“Não importa de onde você veio, importa para onde você vai.” Maria Gorete dizia isso para um menino num barraco de chão de terra. O menino levou a frase para os salões onde se decide o dinheiro do país, e acrescentou o que faltava: para ir longe, é preciso que alguém estenda a mão. E que alguém, do outro lado, aceite estendê-la.

Como apoiar

Gerando Falcões: doações, voluntariado e parcerias com empresas em gerandofalcoes.com. Empresas que querem contratar moradores de favelas podem anunciar vagas pelo Conecta Trampo.

Para ler: De Marte à Favela, de Aline Midlej e Edu Lyra (Planeta), e Jovens Falcões, o primeiro livro do fundador.

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
Fontes: Brazil Journal, Folha de S.Paulo/Poder360, Exame, Idis, StartSe, Startups, MIT Technology Review Innovators Under 35. Imagens: Wikimedia Commons (Phábrica de Ideias, João Paulo Chagas, Roberto Rocco)

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