A coleção de outono inverno 2026 2027 da Valentino apresentada em Roma propõe uma reflexão estética sobre as tensões e interferências que moldam a pluralidade da vida. Em um desfile realizado no histórico Palazzo Barberini, roupas e acessórios surgem como metáforas visuais das contradições e coexistências que definem a experiência contemporânea. Elegância e sensualidade se entrelaçam em uma narrativa que atravessa épocas, estilos e referências culturais, reafirmando a moda como um campo aberto de diálogo.

Roma, cidade de múltiplas camadas, serviu como cenário ideal para essa proposta. Na capital italiana convivem simultaneamente beleza e desordem, tradição e modernidade, virtudes e excessos. Antiga, renascentista, barroca e contemporânea ao mesmo tempo, Roma sintetiza diferentes temporalidades. Essa mesma multiplicidade orienta a coleção concebida por Alessandro Michele para a Valentino, capaz de reunir em um único desfile referências que atravessam séculos de história.


Como destacou o diretor criativo na nota oficial do desfile, todo gesto criativo dialoga inevitavelmente com uma tradição que o precede. No caso da Valentino, essa tradição começa com seu fundador, Valentino Garavani, que faleceu em 19 de janeiro deste ano. Assim como a última coleção de alta-costura abriu com um vestido no icônico Rosso Valentino, esta apresentação encerra com um longo vestido vermelho de costas abertas em formato de V e cauda dramática, um tributo à cor que se tornou símbolo da maison.


Antes desse momento final, porém, o desfile percorre um amplo território de contrastes e combinações. Intitulada Interferenze, a coleção foi apresentada fora do calendário tradicional da marca, que costuma desfilar durante a Paris Fashion Week. Em Roma, entre os afrescos e salões monumentais do Palazzo Barberini, a coleção encontrou um ambiente em que ordem e movimento convivem em tensão permanente.


A arquitetura do palácio impõe simetria, proporção e estrutura. Ao mesmo tempo, as obras de arte e a presença humana introduzem dinamismo e imprevisibilidade. Nesse diálogo entre forças opostas, Alessandro Michele constrói uma coleção que evoca o encontro entre o dionisíaco e o apolíneo, conceitos fundamentais da filosofia de Friedrich Nietzsche que descrevem impulsos contrários, porém complementares. A coleção transforma essa dualidade em linguagem visual.


No desfile, elegância e sensualidade caminham lado a lado. Decotes profundos surgem acompanhados de joias preciosas que parecem envolver o corpo como esculturas. Tempestades de paetês evocam o brilho exuberante das noites dos anos 1980, enquanto jeans extremamente ajustados combinados com saltos altos remetem à estética mais recente da década passada.


O vocabulário visual da Valentino também acolhe contrastes entre estilos aparentemente inconciliáveis. Sandálias Rockstud com salto alto dividem espaço com tênis e botas robustas. O color blocking convive com tecidos estampados. Transparências e tecidos leves encontram saias compostas por múltiplas camadas. Em vez de buscar uma síntese perfeita, a coleção abraça a coexistência dessas diferenças.


Essa lógica se repete na construção das peças. Calças estruturadas em camadas encontram tecidos lisos e rigorosos. Os comprimentos dos casacos, e por vezes das próprias mangas, parecem ultrapassar limites convencionais. Óculos de inspiração tecnológica, com formato de máscara, sugerem uma nova forma de observar essa realidade múltipla e vibrante, como se o espectador estivesse imerso em uma pista de dança.


O desfile reúne simultaneamente peças de womenswear e menswear, colocando em diálogo universos tradicionalmente separados sem tentar dissolver suas distinções. Nesse espaço de pluralidade, a moda se afirma não apenas como expressão estética, mas também como linguagem simbólica e social. Ela se torna capaz de representar diferentes identidades, imaginar novas possibilidades e refletir sobre a complexidade do mundo contemporâneo.


Ao apresentar essa coleção no coração de Roma, Alessandro Michele reforça a ideia de que a moda pode funcionar como um sistema aberto de interferências. Um território onde contrastes não precisam ser resolvidos, mas podem coexistir, criando novas formas de significado. Em uma cidade onde múltiplas histórias se sobrepõem há milênios, a Valentino transforma essa multiplicidade em espetáculo visual e reflexão cultural.