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Casa Bola de Eduardo Longo recebe a edição 2026 da Aberto

No alto de uma residência discreta no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo, ergue-se uma das experiências arquitetônicas mais singulares do modernismo brasileiro. A Casa Bola, criada pelo arquiteto paulista Eduardo Longo nos anos 1970, abre suas portas ao público pela primeira vez como parte da quinta edição da Aberto5, plataforma dedicada à arte e ao design contemporâneo. A exposição acontece entre 7 de março e 31 de maio de 2026 e transforma a casa esférica em cenário para obras concebidas em diálogo direto com sua arquitetura radical.

A história da Casa Bola começa décadas antes. Durante os anos 1970, Longo imaginou uma comunidade urbana utópica formada por cápsulas esféricas metálicas suspensas acima das ruas. Embora esse projeto visionário nunca tenha se concretizado, o arquiteto decidiu construir um protótipo para si e sua família. O resultado foi uma residência suspensa de oito metros de diâmetro, moldada manualmente em ferrocimento sobre uma malha de tubos de aço reciclados. A estrutura curva não apenas sustenta a casa, mas também define paredes, mobiliário embutido, luminárias e até sanitários.

Hoje com 83 anos, Longo relembra que sua fascinação pela forma esférica surgiu da busca por uma unidade habitacional leve e industrialmente replicável. Para ele, a esfera representa o volume mais eficiente possível. Seu sonho era desenvolver moradias modulares extremamente leves, capazes até de serem transportadas pelo ar. A proposta respondia também a uma transformação que ele já previa no modo de viver nas cidades, com pessoas possuindo menos objetos e adotando um estilo de vida mais simples e compartilhado.

Apesar da aparência experimental, a Casa Bola funcionou durante décadas como uma residência plenamente habitável. Longo viveu ali com a esposa e os dois filhos até recentemente. Os quartos e áreas de armazenamento ocupam a parte inferior da esfera, enquanto o nível intermediário abriga entrada, cozinha e sala de jantar. No topo ficam os espaços de convivência, iluminados por grandes janelas que revelam a paisagem urbana de São Paulo.

A casa também desafia muitos dos princípios que marcaram o modernismo brasileiro, como a transparência estrutural e o racionalismo geométrico. Essa postura experimental foi justamente o que atraiu o curador Filipe Assis, fundador da plataforma Aberto, que já realizou edições anteriores em residências projetadas por nomes como Oscar Niemeyer, João Batista Vilanova Artigas, Tomie Ohtake e Chu Ming Silveira. Para Assis, a Casa Bola representa um raro exemplo de arquitetura experimental de contracultura.

A quinta edição da exposição reúne cerca de 50 artistas brasileiros e internacionais, muitos deles convidados a criar obras especialmente para o projeto. Entre os destaques está o pintor Luiz Zerbini, que apresenta a tela A fantástica viagem de Eduardo Longo, inspirada nas formas e no espírito visionário do arquiteto. Também participam artistas como Laís Amaral, Paloma Bosquê e Tatiana Chalhoub, cujas pinturas dialogam com as curvas e ângulos da construção.

Dentro da própria casa, visitantes encontram ainda assemblages criadas pelo próprio Longo ao longo dos anos. Entre elas estão uma luminária feita com óculos 3D vintage e um vaso do qual brota uma “flor” formada por uma luva que faz o gesto de positivo. Esses objetos improvisados revelam um lado lúdico e inventivo do arquiteto, frequentemente descrito como um mestre da improvisação.

Enquanto o público explora a esfera suspensa, grande parte das obras da exposição ocupa os espaços expositivos nos edifícios projetados por Longo logo abaixo da Casa Bola. Ali também são apresentados desenhos, maquetes e projetos que ajudam a compreender o pensamento do arquiteto, reunidos em uma curadoria assinada por Fernando Serapião.

Ao visitar a Casa Bola durante a Aberto5, o público tem a oportunidade de entrar em contato com uma visão arquitetônica radical que atravessa décadas sem perder sua força imaginativa. A casa permanece como um manifesto construído, uma reflexão sobre novos modos de habitar e sobre a possibilidade de cidades mais leves, abertas e experimentais.

Aberto5 acontece na Casa Bola, em São Paulo, entre 7 de março e 31 de maio de 2026.

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