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Chanel e a elegância de um menswear não oficial

A ideia de um “homem Chanel” nunca se consolidou de maneira oficial. E talvez seja justamente essa ausência que sustente uma das narrativas mais sofisticadas da moda contemporânea. Em um mercado onde quase tudo é rapidamente traduzido em produto, a Chanel construiu, ao longo de décadas, um território ambíguo e extremamente potente, no qual o menswear existe como sugestão, aparição e desejo, mas raramente como oferta concreta.

Esse imaginário ganha força sobretudo por meio de figuras públicas que orbitam a maison. Harry Styles, Pedro Pascal e Jacob Elordi são exemplos recentes de uma linhagem de homens que vestem Chanel fora das convenções comerciais. São peças frequentemente sob medida, adaptações de coleções femininas ou criações que simplesmente não chegam às lojas. Ao aparecerem nesses contextos, esses nomes não apenas vestem roupas, mas ativam um desejo coletivo baseado naquilo que não pode ser plenamente alcançado.

Existe, nesse movimento, uma lógica quase emocional. Amor e desejo não operam da mesma forma, e a moda, quando mais sofisticada, entende essa diferença. O que não se concretiza, o que permanece em estado de promessa, tende a provocar um fascínio mais duradouro. A Chanel parece trabalhar precisamente nessa camada, onde o produto deixa de ser apenas objeto e passa a ser narrativa, expectativa e construção simbólica.

Essa estratégia encontra raízes profundas na própria fundadora. Coco Chanel foi uma das primeiras a compreender que o desejo pode ser alimentado por deslocamentos. Ao incorporar elementos do guarda-roupa masculino no vestuário feminino, ela não apenas revolucionou a moda dos anos 1920, mas instaurou uma tensão criativa que atravessa o século. O uso do jersey, até então associado ao vestuário masculino, os cortes mais soltos e a introdução de peças como as calças femininas foram gestos que romperam códigos estabelecidos e redefiniram a ideia de elegância.

Essa herança foi reinterpretada com inteligência por Karl Lagerfeld, que ao longo de sua longa direção criativa manteve o masculino como um território de experimentação. Mais do que lançar uma linha formal, Lagerfeld preferiu tratar o menswear como um exercício criativo, quase um jogo interno da maison. Modelos e figuras próximas a ele, como Baptiste Giabiconi e Brad Kroenig, tornaram-se veículos dessa estética, desfilando looks que coexistiam com o prêt-à-porter feminino, mas que nunca se institucionalizavam como uma coleção independente.

Essa abordagem revela uma camada mais íntima da criação. Em vez de responder diretamente à demanda de mercado, Lagerfeld parecia interessado em explorar seus próprios desejos dentro da Chanel. O resultado era uma presença masculina constante, porém difusa, que reforçava o caráter quase mítico desse “homem Chanel”. Ele existia nas passarelas, nos bastidores e na cultura visual da marca, mas escapava de qualquer definição fechada.

Ao longo dos anos, outras figuras contribuíram para ampliar esse imaginário. Pharrell Williams foi um dos primeiros a incorporar peças da maison de forma consistente em sua vida cotidiana, muito antes de se tornar um nome central na moda contemporânea. Nomes como Prince, Usher, Justin Timberlake, Timothée Chalamet e Kendrick Lamar também ajudaram a consolidar essa presença, cada um à sua maneira, reforçando a ideia de que o masculino na Chanel não é uma linha, mas um gesto contínuo.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa construção ao longo do tempo é o caso das Pirate Boots. Criadas por Lagerfeld nos anos 1970 para uso pessoal, essas botas só foram oficialmente apresentadas décadas depois, sob a direção de Virginie Viard. Quando finalmente chegaram à passarela, esgotaram rapidamente, impulsionadas por anos de expectativa silenciosa. O episódio ilustra com precisão como o tempo, quando aliado à escassez e ao desejo, pode transformar um objeto em símbolo.

Atualmente, sob a direção de Matthieu Blazy, a Chanel segue sem anunciar qualquer estrutura formal de menswear. Ainda assim, o diálogo permanece vivo. Aparições pontuais, peças sob medida e interpretações unissex continuam a alimentar essa narrativa, mantendo o masculino como um território aberto, sem fronteiras rígidas.

Há, nessa escolha, uma sofisticação estratégica. Em vez de atender a uma demanda evidente, a maison opta por preservar o enigma. Em um cenário onde a moda frequentemente se orienta pela imediata disponibilidade, a Chanel aposta na construção lenta do desejo, naquilo que se insinua mais do que se entrega.

Talvez seja justamente aí que reside a força desse “homem Chanel”. Ele não precisa existir como produto para ser relevante. Ao contrário, sua ausência controlada sustenta um tipo de fascínio que poucas marcas conseguem alcançar. Trata-se de um luxo que não se mede apenas pela posse, mas pela capacidade de imaginar, projetar e desejar. E, nesse território, a Chanel continua operando com uma precisão rara, transformando o invisível em uma das suas expressões mais consistentes.

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