Um encontro com um espaço renascentista de Florença, durante uma viagem formativa à Itália em 1950, permaneceria na imaginação de Mark Rothko por muitos anos. O vestíbulo da Biblioteca Laurenciana, projetado por Michelangelo, é uma câmara compacta e ao mesmo tempo monumental, dominada por uma dramática escadaria em pedra cinza fria. Íntima e imponente ao mesmo tempo, a arquitetura transforma a experiência do visitante em uma espécie de confronto emocional. Rothko explicaria mais tarde que o impacto psicológico do espaço refletia exatamente o efeito que buscava em suas pinturas. Segundo ele, Michelangelo havia alcançado o tipo de sensação que procurava provocar, a ideia de estar aprisionado em um lugar onde só resta confrontar o espaço ao redor.
Essa relação entre arte, arquitetura e experiência sensorial é o ponto de partida de Rothko in Florence, grande retrospectiva dedicada ao artista, com curadoria de Christopher Rothko e Elena Geuna. A exposição se estende além do espaço principal no Palazzo Strozzi e ocupa também locais historicamente significativos para a trajetória intelectual e espiritual do pintor.

Na Biblioteca Laurenciana, duas pinturas em vermelho e preto estão instaladas à altura dos olhos na base da escadaria. As obras são estudos para os Seagram Murals, encomendados em 1958 para o restaurante Four Seasons em Nova York, concebido pelos arquitetos Philip Johnson e Ludwig Mies van der Rohe. Nesse momento, Rothko já trabalhava plenamente em sua linguagem madura de campos de cor. Ele imaginava essas pinturas como experiências imersivas e contemplativas.
Durante uma segunda viagem à Itália, em 1959, ao visitar Pompeia, Rothko comentou que havia passado a vida inteira pintando templos sem saber. Pouco depois, porém, retirou-se da encomenda para o restaurante ao perceber que o ambiente social da casa não seria compatível com a intensidade solene das obras. Devolveu o pagamento e, posteriormente, doou os murais à Tate Gallery. Em 1970, no mesmo dia em que as obras chegaram ao museu londrino, Rothko tirou a própria vida em seu estúdio.

Nascido Marcus Rothkowitz em 1903, na cidade de Daugavpils, na atual Letônia, então parte do Império Russo, o artista adotou o nome Mark Rothko nos anos 1940, buscando afastar uma identificação imediatamente judaica em um contexto marcado por forte antissemitismo social e político. Ele chegou aos Estados Unidos aos dez anos de idade. Demonstrou talento precoce para as artes e para os estudos e conquistou uma bolsa na Universidade de Yale, embora tenha abandonado o curso antes da conclusão, sentindo-se alienado por um ambiente social hostil aos judeus. Décadas mais tarde, em 1969, Yale concederia a ele um doutorado honorário.
O contexto familiar também foi decisivo para sua formação espiritual. Como o filho mais novo, Rothko foi o único a receber uma educação judaica ortodoxa rigorosa na Letônia, decisão tomada pelos pais diante da crescente violência antissemita da época. Após a morte do pai, em 1914, ele se afastou da prática religiosa formal, embora tenha permanecido culturalmente ligado à identidade judaica ao longo da vida. A consciência do Holocausto aprofundou sua sensibilidade diante do sofrimento humano e intensificou sua busca por significado. Essa procura espiritual se tornaria um elemento central de sua obra, manifestando-se nas qualidades transcendentes, silenciosas e quase místicas de suas pinturas abstratas.
Outra seção da exposição ocupa o Museo di San Marco, onde várias obras não figurativas de Rothko são apresentadas dentro das antigas celas monásticas decoradas com afrescos de Fra Angelico. Nesse ambiente contemplativo, o diálogo entre arquitetura e espiritualidade revela afinidades inesperadas entre a tradição religiosa do Renascimento e a pintura abstrata do século XX. Rothko ficou profundamente impactado por esse tipo de espaço e passou a imaginar pequenas capelas à beira de estradas, cada uma contendo uma única pintura meditativa.

Esse pensamento culminaria em um projeto monumental. Em 1964, os filantropos John e Dominique de Menil encomendaram ao artista um conjunto de pinturas para a futura Rothko Chapel, em Houston. Embora inicialmente concebida como uma capela católica, Rothko participou ativamente da concepção do espaço e de suas pinturas murais, criando um ambiente espiritual não denominacional. O caráter imersivo e não figurativo das obras tornou-se uma síntese de sua investigação existencial e espiritual.
No Palazzo Strozzi, a exposição principal está organizada em dez salas que acompanham cronologicamente a trajetória do artista. O percurso começa com suas primeiras obras figurativas, incluindo um autorretrato que surpreende muitos visitantes pela simplicidade técnica e estilística. Em seguida, a mostra acompanha sua aproximação com o surrealismo e a transição gradual para a linguagem abstrata que se tornaria sua assinatura.
Ao longo das galerias dedicadas às pinturas de campos de cor, surgem também desenhos e estudos relacionados a encomendas célebres, como os murais Seagram e Harvard, além das obras associadas à capela em Houston. A sequência das salas não reflete apenas a evolução formal da pintura de Rothko, mas também mudanças emocionais profundas. As últimas galerias tornam-se mais sombrias e introspectivas, refletindo o impacto do Holocausto e das tensões políticas e culturais do século XX.

Após concluir a série da capela, e já com a saúde fragilizada, Rothko passou a trabalhar quase exclusivamente sobre papel. Em 1969, retornou brevemente à tela para um projeto destinado à UNESCO que nunca seria finalizado. Nesse período produziu dezoito pinturas em preto e cinza, algumas das quais aparecem na penúltima sala da exposição. São obras inquietantes, marcadas por campos turbulentos de cor, pinceladas mais visíveis e, pela primeira vez, bordas brancas que delimitam claramente o espaço pictórico.
Nos meses finais de sua vida, Rothko criou três séries de grandes trabalhos em papel. Algumas retomam a atmosfera das pinturas em preto e cinza, enquanto outras se aproximam de tonalidades quase imperceptivelmente escuras. Há também composições com delicadas camadas de azul suave, terras rosadas e tons de terracota. Essas obras tardias revelam um artista voltado para dentro, profundamente introspectivo e ainda assim capaz de alcançar uma beleza silenciosa.
Christopher Rothko, psicólogo de formação e dedicado à preservação do legado do pai, descreve essa sala final como se fosse uma única obra e afirma que é seu espaço favorito da exposição. Segundo ele, embora Mark Rothko fosse conhecido por seu intelecto e por seu gosto pelo debate, era acima de tudo um homem profundamente caloroso. Um homem de grande sensibilidade, cuja presença, afirma o filho, ainda pode ser sentida nas pinturas.