Londres reafirmou sua posição como o epicentro mais narrativo e experimental do calendário internacional durante a temporada outono-inverno 2026 da London Fashion Week. Com uma sucessão de desfiles, a semana revelou uma cidade em constante reinvenção, onde tradição e ruptura coexistem com naturalidade e onde cada coleção parece responder a uma pergunta maior sobre identidade, memória e futuro.
A abertura foi marcada por um gesto simbólico que transcendeu o próprio universo da moda. A presença do rei Charles III no desfile da designer britânico-nigeriana Tolu Coker sinalizou não apenas reconhecimento institucional, mas também a consolidação de uma nova geração de criadores que redefinem o que significa produzir moda no Reino Unido hoje. O momento foi acompanhado por algumas das figuras mais influentes da indústria, refletindo o papel estratégico de Londres como incubadora de inovação estética e cultural.
Esse espírito coletivo foi reforçado no discurso de Laura Weir, CEO do British Fashion Council, que destacou a necessidade de um ecossistema sustentável e centrado nos designers. Sua mensagem apontou para um futuro construído sobre colaboração e resiliência, características que há décadas definem a cena londrina. Em nenhuma outra capital da moda a coexistência entre jovens recém-formados e nomes consagrados é tão orgânica e vital.

Coube à Burberry encerrar a semana com um desfile que sintetizou esse momento de transição. Sob direção criativa de Daniel Lee, a coleção apresentou uma visão mais sensual e refinada da identidade da maison. O cenário reproduzia uma Tower Bridge em reconstrução, metáfora precisa para uma cidade e uma marca em transformação. O trench coat, elemento central do vocabulário Burberry, surgiu reinterpretado com fluidez, texturas inesperadas e uma abordagem mais emocional. A paleta escura evocava a atmosfera noturna londrina, enquanto couro, shearling e tecidos luminosos construíam uma narrativa de elegância contemporânea. O desfile terminou sob luzes cintilantes, como um convite implícito para continuar a noite em movimento, característica inseparável da própria cidade.

Se Burberry representou a consolidação, nomes emergentes como Oscar Ouyang demonstraram o poder da reinvenção. Sua coleção explorou a ideia de juventude, memória e despedida por meio de uma encenação carregada de simbolismo. O cenário evocava uma mansão abandonada após sua última celebração, traduzida em peças que combinavam rigor técnico e sensibilidade emocional. Tecidos reaproveitados, detalhes encontrados e referências ao universo clubber londrino criaram uma estética simultaneamente nostálgica e atual, reafirmando a importância da sustentabilidade como linguagem criativa e não apenas como conceito.

Simone Rocha apresentou uma coleção que equilibrou delicadeza e força com precisão singular. Inspirada pelo folclore irlandês e pela cultura urbana contemporânea, a designer construiu silhuetas que alternavam transparência e estrutura, fragilidade e proteção. Vestidos etéreos coexistiam com casacos robustos e volumes esculturais, enquanto sua colaboração com a Adidas revelou uma leitura sensível do sportswear, inserindo o universo atlético em uma narrativa profundamente feminina.

A celebração dos 20 anos da Erdem trouxe à passarela uma reflexão sobre o tempo e a permanência. Apresentada na Tate Britain, a coleção imaginou diálogos entre mulheres de diferentes épocas, transformando a roupa em veículo de memória e continuidade. O resultado foi uma sequência de peças que atravessavam décadas sem perder coerência, reafirmando a assinatura narrativa do designer e sua habilidade de transformar história em linguagem contemporânea.

Outros nomes contribuíram para expandir os limites do formato tradicional. Chopova Lowena abandonou o desfile convencional em favor de uma instalação imersiva, permitindo uma observação mais íntima das peças. Selasi explorou a resistência física e emocional como metáfora para a prática criativa, enquanto Fashion East reafirmou seu papel como plataforma essencial para novos talentos, revelando designers que já demonstram potencial para moldar o futuro da indústria.


A KNWLS, por sua vez, optou por uma abordagem híbrida, combinando loja efêmera e apresentação visual. Sua nova coleção aprofundou uma estética que equilibra sensualidade, força e autonomia, refletindo a complexidade da mulher contemporânea e consolidando a marca como uma das vozes mais consistentes da nova geração londrina.


No conjunto, a London Fashion Week outono-inverno 2026 revelou uma cidade que continua a desafiar definições fixas. Entre herança e inovação, emoção e precisão, Londres permanece como um território onde a moda não é apenas vestida, mas vivida. Cada coleção reforçou a ideia de que as tendências, e o verdadeiro legado da capital britânica é sua capacidade de transformar experiências em linguagem estética e de projetar, a cada temporada, uma nova visão do presente.