Há cidades que se deixam compreender de imediato e outras que exigem tempo, escuta e um olhar mais atento. Buenos Aires pertence a essa segunda categoria. A capital argentina não se entrega nos primeiros passos nem se resume aos seus ícones mais fotografados. Ela se revela aos poucos, nos detalhes quase imperceptíveis, na cadência dos bairros, na forma como o passado e o presente coexistem com naturalidade. Existe uma Buenos Aires que pulsa longe dos roteiros previsíveis, feita de contrastes sutis, de criatividade silenciosa e de uma elegância singular.
Nossa curadoria nasce exatamente desse desejo de atravessar a cidade com outro olhar. Um olhar que busca o que está em movimento, o que ainda não foi completamente traduzido em tendência, o que pertence mais ao cotidiano de quem vive ali do que ao imaginário turístico. Aqui, gastronomia autoral, arte contemporânea, música e design se encontram de maneira orgânica, criando experiências que vão além do consumo e se aproximam da vivência. São endereços que refletem uma cidade inquieta, sofisticada e em constante reinvenção, onde o luxo aparece na curadoria, na atmosfera e na autenticidade de cada escolha.

Conheça a capital porteña sob uma nova perspectiva. Bares de hotel que desafiam convenções, restaurantes que operam no limite entre técnica e sensibilidade, espaços culturais que funcionam como pontos de encontro criativo e casas onde o tempo parece desacelerar para que a experiência aconteça por inteiro. São lugares frequentados por quem entende a cidade de dentro para fora, viajantes atentos, criativos locais e uma geração que valoriza narrativa, identidade e profundidade.
Pony Line
Instalado no térreo do Four Seasons Buenos Aires, o Pony Line se consolidou como um dos endereços mais interessantes da cena gastronômica portenha ao unir atmosfera sofisticada, serviço impecável e um espírito surpreendentemente descontraído. Inspirado no universo do polo e dos esportes hípicos, o bar aposta em madeira clara, couro e detalhes metálicos que equilibram elegância e modernidade, atraindo tanto viajantes internacionais quanto um público local antenado. A trilha sonora contemporânea, o balcão imponente e a carta de drinks autorais com ingredientes argentinos reforçam a identidade cosmopolita do espaço, sem perder o senso de acolhimento típico de um bom bar.

Mas é na cozinha que o Pony Line conquista de vez. O hambúrguer da casa, especialmente a versão clássica, tornou-se quase lendário em Buenos Aires graças à carne alta e suculenta, ao ponto preciso escolhido pelo cliente e ao pão finalizado com uma crosta de queijo marcante. Servido com apresentação cuidadosa e acompanhado por coquetéis bem executados, o prato transforma uma experiência casual em algo memorável. Embora os preços sejam mais elevados do que os de endereços tradicionais da cidade, o conjunto de sabor, ambiente e atendimento justifica a escolha, tornando o Pony Line uma pedida certeira tanto para ocasiões especiais quanto para quem busca, sem concessões, um dos melhores hambúrgueres da capital argentina.

Elena
O Elena, localizado no Four Seasons Hotel Buenos Aires, ocupa posição de destaque entre os restaurantes de hotel da capital argentina. Inspirado na elegância das antigas residências de San Telmo, o espaço combina arquitetura sofisticada e atmosfera acolhedora, com salão iluminado por uma grande cúpula de vidro, escada helicoidal escultural e cozinha aberta que revela os armários de maturação das carnes. A experiência é marcada por serviço atento, ambiente cosmopolita e um cuidado estético que reforça o caráter refinado da casa, presença recorrente na lista do Latin America’s 50 Best Restaurants.


Na cozinha, Elena aposta em uma leitura contemporânea da tradição portenha, com carnes Angus e Wagyu maturadas, preparadas na grelha Josper, além de charcutaria feita na casa, peixes do dia e pratos pontuais de massa. Sob o comando do chef executivo Juan Gaffuri e do chef Nicolás Díaz Rosáenz, o menu valoriza técnica, produto e equilíbrio, do início ao fim da refeição. O café da manhã também é um dos grandes atrativos, com buffet amplo, ingredientes frescos e estações bem executadas. Trata-se de uma experiência gastronômica sofisticada, de padrão elevado, que justifica seu posicionamento premium dentro do cenário de luxo de Buenos Aires.

Be Jardin Escondido
Escondido em uma rua tranquila de Palermo Soho, o Be Jardin Escondido é um daqueles endereços que não se anunciam, mas se revelam a quem sabe observar. Antiga residência de Francis Ford Coppola durante as filmagens de O Segredo dos Seus Olhos, o hotel boutique preserva até hoje uma atmosfera quase cinematográfica, onde o tempo parece desacelerar assim que se atravessa o portão. A arquitetura discreta, o número reduzido de quartos e a presença constante do verde criam uma sensação rara de intimidade em meio à efervescência do bairro. Longe da estética padronizada dos grandes hotéis, o Be Jardin aposta em personalidade, silêncio e autenticidade, oferecendo uma experiência que se constrói nos detalhes, no ritmo lento e na sensação de estar vivendo a cidade por dentro, como um morador temporário de Buenos Aires.


A experiência se completa no jardim interno, verdadeiro coração da casa, onde o café da manhã é servido entre plantas, luz natural e uma atmosfera quase contemplativa. Os interiores mesclam móveis vintage, texturas naturais e iluminação suave, criando um ambiente acolhedor, elegante e sem excessos. O serviço é atento, próximo e discreto, respeitando o tempo do hóspede e reforçando a ideia de exclusividade sem ostentação. Frequentado por artistas, viajantes sensíveis e amantes da estética, o Be Jardin Escondido representa uma Buenos Aires sofisticada, silenciosa e profundamente charmosa, onde o luxo não está na grandiosidade, mas na curadoria, na história e na sensação de descobrir um segredo bem guardado da cidade.


Galeria Barrakesh
Instalada hoje em uma antiga casona em Retiro, a Galería Barrakesh mantém viva a essência com que nasceu no bairro de Barracas, em Buenos Aires, onde se consolidou como um espaço cultural alternativo guiado por um espírito colaborativo e experimental. Idealizada por Sara Stewart Brown, a galeria opera como um verdadeiro clube de amigos, aberto à arte independente, a projetos de artistas emergentes, a galerias itinerantes e a encontros criativos que escapam das lógicas tradicionais do mercado. A proposta é clara: criar um ambiente onde tudo pode acontecer, favorecendo a troca, a liberdade estética e a construção coletiva de novas narrativas artísticas.


Essa vocação encontra raízes no próprio contexto de Barracas, bairro histórico vizinho de San Telmo e La Boca, que combina passado industrial, forte presença de arte urbana e um processo contínuo de renovação cultural. Conhecido por marcos como a Calle Lanín, com suas fachadas coloridas, e murais icônicos ligados ao futebol e à identidade popular argentina, Barracas tornou-se um polo vibrante de arte, design e gastronomia, especialmente ao longo da Avenida Caseros. Nesse cenário, Barrakesh se afirma como uma das protagonistas da cena contemporânea local, ampliando o circuito arty da cidade e oferecendo uma experiência cultural autêntica, voltada a quem busca ir além dos roteiros turísticos convencionais.

Gioia Cocina Botánica
Localizado no coração do Palacio Duhau – Park Hyatt Buenos Aires, na sofisticada Recoleta, o Gioia Cocina Botánica se apresenta como um dos endereços mais singulares da cena gastronômica portenha. Voltado para o imponente edifício clássico do palácio, com vista privilegiada para seus jardins históricos, o restaurante ocupa uma posição estratégica dentro do hotel, combinando arquitetura contemporânea, atmosfera serena e um serviço discreto e impecável. Reconhecido pelo Guia Michelin, o Gioia se destaca por sua proposta autoral e consciente, com um menu inteiramente vegetariano e vegano, pautado pela rastreabilidade dos ingredientes, pelo respeito aos pequenos produtores e por práticas sustentáveis que norteiam toda a operação.

Sob o comando do chef Juan Simonte, a casa apresenta uma interpretação refinada da culinária italiana, traduzida em criações 100% vegetais que preservam técnica, profundidade de sabor e identidade. As massas frescas são o grande destaque do menu, preparadas artesanalmente e tratadas como protagonistas da experiência, acompanhadas por molhos delicados, combinações precisas e ingredientes sazonais. O resultado é uma cozinha elegante e contemporânea, que transforma clássicos italianos em composições leves, sofisticadas e cheias de personalidade, reafirmando o Gioia Cocina Botánica como um dos endereços mais interessantes e coerentes de Buenos Aires para quem busca alta gastronomia com consciência e estética apurada.

Victor Audio Bar
Victor Áudio Bar surge como um dos endereços mais interessantes da noite portenha ao apresentar o conceito de listening bar no coração de Palermo. Inspirado no legado da gravadora RCA Victor e na tradição japonesa dos bares dedicados à escuta atenta de vinil, o espaço aposta em acústica meticulosamente desenhada, iluminação quente e uma estética mid-century que convida a desacelerar. O som analógico dita o ritmo da casa, com discos de vinil, cabine de DJ integrada ao bar e uma jukebox operada por fones de ouvido, criando uma experiência sensorial íntima e personalizável, rara na cena de Buenos Aires.

A proposta gastronômica acompanha esse refinamento, com cozinha americana elegante assinada por Pedro Peña e Germán Sitz, do Niño Gordo, enquanto a carta de coquetéis leva a assinatura do time do Três Monos, presença constante entre os melhores bares do mundo. O Martini é o fio condutor da experiência, reinterpretado com precisão e personalidade, dialogando com pratos pensados para harmonizar com cada momento musical. Mais do que um bar, Victor Áudio Bar se consolida como um espaço de culto para quem valoriza boa música, coquetelaria clássica e atmosfera, oferecendo a sensação de estar em Nova York sem sair de Palermo.


Casa Cavia
Instalada em um casarão histórico de 1927 no elegante Palermo Chico, Casa Cavia construiu ao longo de uma década um universo próprio onde gastronomia, arquitetura, literatura e natureza convivem com rara harmonia. Sob o comando da chef Julieta Caruso, a cozinha contemporânea aposta na fidelidade aos ingredientes locais e no diálogo entre o clássico e o atual, com vegetais em papel central e preparos de aparente simplicidade que revelam profundidade e precisão. A inspiração literária atravessa o menu como um fio condutor, enquanto a horta própria garante frescor absoluto aos pratos, colhidos e servidos quase no mesmo instante, reforçando uma filosofia que valoriza tempo, cuidado e origem.

Essa mesma sensibilidade se estende ao bar, onde Flavia Arroyo assina uma coquetelaria elegante e autoral inspirada no jardim interno, com criações botânicas e ingredientes feitos na casa, e à impressionante cava que reúne mais de 300 rótulos argentinos e internacionais, curados sob os conceitos de guarda e fineza. O espaço se completa com ambientes que convidam à contemplação e à privacidade, como o salão El Privado para jantares intimistas, a floricultura Blumm Flower Co., a editora Ampersand e a loja que traduz a estética da casa em objetos e perfumes. Frequentada por nomes como Mick Jagger e Michelle Obama, Casa Cavia afirma-se como um refúgio sensorial em Buenos Aires, onde cada detalhe parece pensado para transformar o cotidiano em experiência.


Arte Amália
Localizada em Puerto Madero, a Colección de Arte Amalia Lacroze de Fortabat, conhecida como Coleção Amalita, se impõe como um dos museus mais instigantes de Buenos Aires ao unir arte de alto nível a um cenário urbano em constante renovação. Instalado em um edifício de linhas contemporâneas assinado por Rafael Viñoly, o espaço de vidro com teto móvel dialoga com o dique e o skyline da cidade, reforçando a vocação pública do bairro. A presença de um café com acesso independente amplia essa integraçãoҫo de abertura, convidando moradores e visitantes a integrar a visita ao ritmo cotidiano de Puerto Madero.

O acervo reúne mais de 150 obras de arte moderna e contemporânea, refletindo o olhar cosmopolita e pessoal da colecionadora Amalia Lacroze de Fortabat. Entre os destaques estão trabalhos de Andy Warhol, Salvador Dalí e Marc Chagall, ao lado de nomes fundamentais da arte argentina como Antonio Berni. O resultado é uma experiência acessível e sofisticada, que combina grandes mestres internacionais e produção nacional em um ambiente luminoso, tornando o museu uma parada essencial para quem deseja compreender Buenos Aires além de seus circuitos mais óbvios.
Ultramarinos
Escondido na borda da Chinatown portenha, o Ultramarinos se revela como um refúgio marítimo em meio ao ritmo acelerado da cidade. Comandado pelo chef Maximiliano Rossi e recomendado pelo Guia MICHELIN 2025, o restaurante convida a uma experiência que privilegia o tempo, a conversa e o detalhe. Após a grande porta se fechar, o ambiente de pé direito alto, marcado por pedra, madeira e iluminação quente, cria uma atmosfera contemporânea e acolhedora, com bar integrado e cozinha aberta que acrescenta ritmo sem interferir na intimidade da sala.

A proposta gastronômica é inteiramente dedicada aos peixes e frutos do mar da costa argentina, tratados com rigor técnico e respeito absoluto ao produto. Ostras, navalhas, mexilhões, pacú, surubí, lisa e bonito aparecem em preparações cruas, curadas ou na brasa, além de pratos que valorizam vegetais e acompanhamentos precisos. É possível percorrer o menu em porções de estilo snack ou optar pelo Paseo Marino, que organiza a experiência em sequência. A carta de coquetéis é afiada e criativa, enquanto os vinhos, cuidadosamente selecionados, surpreendem sem excessos. Tudo no Ultramarinos parece desenhado para quem aprecia o mar à mesa e entende o jantar como um encontro sem pressa.

Julia Restaurante
No coração de Villa Crespo, o restaurante Julia Restaurante transformou a ideia de “menos é mais” em uma assinatura autoral que explica sem esforço a longa lista de espera. À frente da casa está Julio Martín Báez, chef nascido em Chacabuco, nos arredores de Buenos Aires, que define sua cozinha como indie para se permitir liberdade total de criação. Com o apoio da chef Sol Peretti, Báez construiu um modelo culinário de forte personalidade, baseado no trabalho coletivo e em uma carta enxuta, complementada por um menu degustação que revela frescor, precisão técnica e um olhar atento à micro-sazonalidade. Pratos como mexilhões em escabeche de açafrão, ramen de cordyceps com caldo de berinjela e onigiri, ou sorvete de leite com creme de chocolate mostram uma cozinha contemporânea, marcada por acidez, leve picância e protagonismo absoluto dos vegetais, das ervas, sementes e brotos.

Com apenas 22 lugares, o ambiente equilibra aconchego e modernidade por meio do piso de cimento queimado e das paredes em verde-pinho, atraindo desde 2019 um público fiel e exigente. Batizado com o nome da filha de Báez e aberto sem investidores, o Julia serve o que chama de indie food: pratos confiantes e coloridos, elaborados com no máximo cinco ingredientes sazonais, apresentados com dinamismo e elegância. Embora o discurso seja de uma cozinha sem influências externas, a técnica refinada do chef revela ecos de sua trajetória pela França e pela América Latina, seja nas pinceladas de molhos experimentais, no uso delicado de flores e ervas frescas ou no rigoroso equilíbrio entre sal, doce, ácido e umami, resultado direto de sua formação em bioquímica pela Universidade de La Plata. O conjunto é coerente, autoral e absolutamente vencedor.
