No sexto andar de um edifício discreto no centro de São Paulo, com vista direta para o Minhocão, o Cora se afirma como um dos restaurantes mais instigantes da cidade. O endereço pouco óbvio, quase escondido, faz parte do encanto de uma casa que nasceu em 2021, em pleno período de incertezas da pandemia, e rapidamente se transformou em ponto de encontro de quem busca comida boa, atmosfera arejada e uma relação mais honesta com os ingredientes.

Comandado pelo chef argentino Pablo Inca ao lado do sócio Rafael Capobianco, o Cora parte de uma ideia simples e potente: trazer vivências conectadas à terra para uma experiência urbana. Essa filosofia se reflete em um cardápio enxuto, pensado integralmente para compartilhar, que muda com frequência de acordo com a sazonalidade e a disponibilidade dos produtos. Não há separação rígida entre entradas e principais. A proposta é comer aos poucos, dividir pratos, conversar, beber bem e deixar o tempo passar.
A trajetória de Pablo ajuda a entender essa cozinha direta e sem excessos. Há dez anos no Brasil, o chef passou por casas como o Arturito, da Paola Carosella, e pelo extinto Mangiare, onde consolidou uma abordagem que valoriza o aproveitamento integral dos ingredientes e uma estética rural, quase caseira, mas tecnicamente precisa. No Cora, essa identidade aparece com clareza em pratos como o Queso de Chancho, uma terrine delicada feita a partir da carne suína, servida com mostarda e pão de fermentação natural, ou nas linguicinhas acompanhadas de um vinagrete de feijões variados, simples e profundamente saborosas.

Entre os destaques do menu, a tortilla de lulas se tornou um verdadeiro prato assinatura. Levemente picante, muitas vezes acompanhada de coalhada e ervas frescas, ela traduz bem o espírito da casa: sabores diretos, bem equilibrados e com personalidade. Outros pratos que merecem atenção são o coração de pato com creme de couve-flor e cebolas assadas, a língua de boi com vagens e as preparações vegetais que mudam conforme a estação, sempre tratando legumes e frutas como protagonistas, e não como coadjuvantes.
A experiência vai além da comida. Ao sair do pequeno elevador, o visitante encontra de um lado o bar e o terraço, iluminados por tons rosados ao entardecer, e do outro a cozinha totalmente aberta, onde é possível acompanhar os preparos e entender o ritmo da casa. Há ainda um salão coberto com teto retrátil, que acomoda poucas mesas e reforça o caráter intimista do restaurante.

A carta de drinks autorais, assinada por Gunter Sarfert, e a seleção cuidadosa de vinhos com curadoria da sommelière Gabriela Monteleone reforçam a proposta do Cora como um lugar para ficar, não apenas para comer. São rótulos de pequenos produtores, frescos e vibrantes, que acompanham bem a cozinha e convidam a experimentar sem pressa.
O Cora não busca modismos nem grandes gestos. Seu charme está justamente no equilíbrio entre informalidade e rigor, na atenção ao detalhe e na capacidade de transformar um terraço no centro da cidade em um refúgio gastronômico com identidade própria. Em uma São Paulo acostumada ao excesso, a casa mostra que o improvável, quando bem executado, pode se tornar essencial.