A 83ª edição do Festival de Veneza fechou as cortinas, mas deixou um mapa claro do que vem por aí em matéria de beleza. Primeiro grande red carpet do pós-verão, o evento (um dos Big Five do circuito de cinema) funcionou, como sempre, como termômetro estético para a temporada. Desta vez, o recado veio em tom de contenção: olhos esculpidos com sutileza, peles saudáveis e um afastamento deliberado da perfeição excessiva.
Em conversa por e-mail, Hiromi, maquiadora global da Armani Beauty, resume o espírito da edição como “beleza discreta, fresca e radiante”. “A pele aparece luminosa e saudável, com foco real em deixar a textura natural transparecer, em vez de criar um acabamento pesado e excessivamente corrigido”, descreve.
O movimento acompanha uma virada mais ampla rumo à saúde da pele e à ideia de longevidade em beleza, em que o objetivo deixa de ser a perfeição e passa a ser a melhor versão possível de cada rosto. Hiromi cita ainda definição suave, esculturas discretas nos olhos e lábios, e cor aplicada com leveza. “O efeito geral é muito moderno: elegante e polido, mas ainda parecendo a versão mais bonita de você mesma”, afirma.

Olhos delicadamente emoldurados
Um dos looks mais recorrentes em Veneza trazia olhos definidos, mas sem nada de gráfico. Hiromi explica que o traço é feito com lápis preto, aplicado bem rente à linha dos cílios, com um toque na linha d’água inferior para emoldurar o olhar sem criar um contorno duro. O resultado alonga sutilmente o formato, sem endurecer a expressão.
A técnica costuma vir acompanhada de uma pele fresca e luminosa, o que evita que o conjunto pareça pesado. “A pele ainda mantém luminosidade natural e não parece excessivamente corrigida. Combinada aos olhos e lábios suavemente definidos, cria um equilíbrio bonito, moderno e discreto”, diz Hiromi.
Molly Mcarde, líder global de categoria de maquiagem da Lush, complementa: “Emoldurar o olhar de forma delicada não é sobre pular a sombra, é sobre a intenção de onde você a coloca.”
Individualidade
Diversas celebridades optaram por uma leitura mais natural do glamour de red carpet, e Kendall Jenner ilustrou bem essa escolha. Sua maquiagem manteve o tom baixo, com pele fresca e traços suavemente definidos que preservaram a beleza natural como protagonista.
Em vez de recorrer a cor dramática ou esculturas marcadas, o look pareceu pensado e comedido. O efeito foi de sofisticação sem exagero, prova de que uma abordagem mais natural também tem lugar no tapete vermelho. No caso de Jenner, a maquiagem realça em vez de disfarçar, resultando em algo que soa pessoal.

Glamour moderno: pele radiante e multidimensional
Outra força da edição foi o equilíbrio entre pele, olhos e lábios, sem que nenhum elemento se sobrepusesse ao outro. “A pele, os olhos e os lábios trabalham juntos em harmonia, criando um look que parece polido, elegante e bem equilibrado”, diz Hiromi.
Para ela, a beleza de red carpet caminha cada vez mais para o reforço da beleza natural, e não para a criação de uma fantasia. A ideia é que a maquiagem pareça parte de quem a usa, uma extensão natural da roupa e da presença. “Quando o look de beleza, a pessoa e a roupa se complementam em vez de competir, tudo se junta na atmosfera certa”, explica.
Em looks como o de Madisin Rian, a luminosidade cumpre papel central nesse equilíbrio: uma pele com brilho mantém a maquiagem fresca e contemporânea, sem perder sofisticação. Para reproduzir o efeito, Hiromi recomenda preparar bem a pele e aplicar uma camada fina de primer matificante nas áreas mais propensas ao brilho, construindo as camadas seguintes aos poucos, deixando cada uma assentar antes da próxima. Isso preserva a aparência natural e prolonga a duração da maquiagem.
Cor com inspiração anos 60
Uma estética que remete aos anos 60 também marcou presença forte no red carpet veneziano. A maquiagem de Sydney Sweeney brincou com contrastes sutis: cílios totalmente definidos combinados a um delineado alongado e suavemente esfumado, que se estendia pelo olhar. Os olhos ganharam profundidade sem pesar.
O lábio em rosa pastel trouxe um toque atemporal, equilibrando o olhar mais marcado e mantendo o conjunto leve. Mcarde observa que o revival sessentista tem aparecido com frequência, mas sempre com uma torção contemporânea. “O que torna esse retorno tão interessante é a versatilidade: seja em delineados gráficos com pontos de cor, seja em paletas monocromáticas, a nostalgia atemporal é reinventada para a beleza atual”, afirma.

O resultado parece polido e sofisticado diante das câmeras, mas a aplicação suave evita o excesso. É uma interpretação contemporânea do glamour dos anos 60, unindo estrutura e definição a um acabamento mais fluido.
Para Hiromi, essa tendência reflete um movimento maior em direção a uma maquiagem mais estudada e esculpida, em que luz e sombra valorizam as feições individuais, longe de fórmulas únicas. “Com a Sydney, os olhos foram esculpidos de forma inteligente para trabalhar com a estrutura óssea natural dela, criando profundidade e definição com muito equilíbrio. Essa abordagem personalizada me parece muito atual”, diz. No fim, trata-se de entender o rosto e valorizar sua arquitetura para revelar as proporções mais harmoniosas.

O red carpet de Veneza também confirmou uma virada rumo à individualidade e à personalização. Não houve fórmula única de glamour: a maquiagem se adaptou a cada rosto, suas feições e seu estilo próprio, reforçando que beleza, hoje, é menos sobre transformação e mais sobre precisão no que já existe.


