WAYFARER · Cultura | Nova York
Há noites que existem para ser vistas, e há noites que existem para que outras coisas possam existir. O gala nova-iorquino da BrazilFoundation pertence ao segundo tipo, embora cumpra o primeiro com rigor: na próxima quinta-feira, 17 de setembro, às sete da noite, os salões do The Plaza, na esquina da Quinta Avenida com o Central Park, voltam a receber a comunidade que há mais de vinte anos transforma black tie em recurso para a sociedade civil brasileira. É o encontro filantrópico mais tradicional dedicado ao Brasil fora do país, e a edição de 2026, reunida em torno da ideia de soluções para uma filantropia transformadora, chega com três homenagens que dizem muito sobre o que a fundação entende por legado: Alessandra Ambrósio, o Instituto Burle Marx e a Mubadala Capital.
A BrazilFoundation nasceu em Nova York em 2000, pelas mãos de Leona Forman, e completa agora 26 anos de uma tese simples de enunciar e difícil de sustentar: mobilizar dinheiro, rede e atenção internacional para organizações que trabalham, no Brasil, com equidade, justiça socioambiental e desenvolvimento sustentável. Desde a criação, já investiu mais de US$ 61 milhões em cerca de 1.100 organizações, e o gala de setembro é a peça central dessa engrenagem nos Estados Unidos. No ano passado, na noite que celebrou os 25 anos da instituição e homenageou a própria fundadora, ao lado de Geyze Diniz, Seu Jorge e da organização Filha do Sol, o Plaza reuniu mais de 400 convidados e a arrecadação chegou a US$ 1 milhão, segundo a imprensa americana. Em 2024, a noite foi dedicada ao Rio Grande do Sul, então ainda sob o peso das enchentes, e teve entre os homenageados a família Bündchen e Selena Gomez.
É justamente dessa tragédia que parte a homenagem principal deste ano. Gaúcha, Alessandra Ambrósio criou em 2024, com a BrazilFoundation, o Brazilian Soul Fund, fundo de resposta às enchentes que já mobilizou cerca de US$ 340 mil e levou a causa até Cannes. A relação, porém, é bem mais antiga: são mais de quinze anos de parceria com a fundação, que incluem ações de captação durante os Jogos Olímpicos do Rio. O Philanthropy Leadership Award que ela recebe em Manhattan reconhece menos a celebridade e mais o uso deliberado dela, a projeção internacional convertida em mesas, doações e atenção para projetos que raramente chegariam a este endereço por conta própria.

A projeção internacional, aqui, é matéria-prima: convertida em mesas, doações e atenção para quem raramente chegaria à Quinta Avenida.
A segunda homenagem é uma estreia. Pela primeira vez, a BrazilFoundation entrega o Cultural & Environmental Legacy Award, e o escolhido é o Instituto Burle Marx. Criado em 2019, o instituto guarda mais de 150 mil itens, entre projetos, desenhos, fotografias, documentos e correspondências, que cobrem quase sete décadas de produção de Roberto Burle Marx, o paisagista que viveu de 1909 a 1994 e ensinou o Brasil a enxergar a própria flora como linguagem moderna. Quem já percorreu os mosaicos abstratos da Avenida Atlântica, desenhados por ele no início dos anos 1970, conhece essa caligrafia sem precisar da assinatura. Levar esse arquivo a um salão de Nova York é um gesto de política cultural, porque lembra a uma plateia de doadores que, no caso brasileiro, patrimônio ambiental e patrimônio artístico costumam ser a mesma coisa.
A terceira completa o desenho da noite pelo lado do capital. A Mubadala Capital, gestora ligada ao fundo soberano de Abu Dhabi e presente no Brasil desde 2012, recebe o BrazilFoundation Leadership in Social Impact Award por uma parceria iniciada em 2019, que já passou por municípios de Minas Gerais, com projetos de geração de renda, e pelo Rio de Janeiro, onde a gestora apoia atividades educacionais e culturais ao lado da ONG Maré Top Team. Desde 2025, por meio do Fundo Mubadala RS, a colaboração atua também na retomada econômica do Rio Grande do Sul, com capacitação profissional, apoio à saúde mental e reestruturação de grupos produtivos, o que devolve a noite, por outro caminho, ao mesmo estado que inspirou a homenagem a Alessandra. Quem recebe o prêmio é Oscar Fahlgren, presidente e chief investment officer de private equity da Mubadala Capital, que ajudou a instalar a operação brasileira. A escolha traduz o mote da edição e uma ideia que Monica de Roure, vice-presidente da fundação, faz questão de sublinhar: a BrazilFoundation funciona como ponte entre quem tem recursos e quem já faz o trabalho no território.
À frente da noite está Daniel Urzedo, que assume a função de chair depois de quase duas décadas de proximidade com a fundação. A relação começou em 2006 e, desde então, ele aproximou a instituição de doadores e de casas como Ralph Lauren, Moncler, Chanel e Alexandre Birman, além de apoiar iniciativas como o Ballet Paraisópolis. Foi também um dos articuladores do Brazilian Soul Fund, o que faz da homenagem a Alessandra um capítulo natural de uma amizade antiga; sobre a trajetória dela, Urzedo resume tudo como “filantropia em ação”. O comitê de anfitriões completa o retrato de um Brasil que circula com naturalidade entre capitais, e dos amigos que o adotaram: o estilista Francisco Costa, a joalheira Gaia Repossi, Giulia Be e Conor Kennedy, Jayma Cardoso, Frida Aasen e Tomasso Chiabra, Carolina Mendes e Vladimir Roitfeld, Paula Bezerra de Mello, chair da edição passada, além de Amalia Spinardi, Carolina Doria, Juan Moraes, Livia e Adibe Marques, Mateus Farah, Taciana Veloso e William Tomás Conte.
O formato mantém a gramática que consagrou o evento. Traje black tie, jantar na escala que a noite costuma reunir, em torno de 400 convidados, e mesas de dez lugares que vão de US$ 15 mil a US$ 25 mil, com convites individuais entre US$ 1.500 e US$ 2.500. Os números importam menos pelo valor em si do que pelo destino: cada mesa se transforma, meses depois, em apoio direto a organizações de base espalhadas pelo país, e é esse percurso, do salão da Quinta Avenida a uma associação comunitária no interior do Brasil, que dá sentido ao ritual.
Nova York em setembro tem agenda para todos os gostos, e o Plaza já viu de tudo desde 1907. Ainda assim, poucas noites na cidade carregam tanto do Brasil quanto esta: uma modelo gaúcha que transformou uma enchente em mobilização, um arquivo que guarda o desenho de um país inteiro e uma sala cheia de gente disposta a pagar para que o trabalho continue do outro lado do Equador. Há noites que existem para ser vistas. Esta, no fim, existe para que outras coisas possam existir.
New York Gala 2026 · BrazilFoundation
17 de setembro de 2026, 19h (horário de Nova York)
The Plaza Hotel, 768 Fifth Avenue, Nova York
Traje: black tie
Foto de abertura: gala da BrazilFoundation no The Plaza, edição de 2019 · Ricardo de Mattos
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.


