WAYFARER · DRIVE | Lançamento
Quando a Jaguar apresentou o E-Type, em 1961, o mundo parou para admirar. Quando revelou o XJS, em 1975, o mundo parou para discordar.
O Type 01, apresentado em Nova York, será julgado pelo mesmo critério. A controvérsia já começou, e a marca volta a colocar o próprio futuro em jogo. É o primeiro carro de produção desde a reinvenção da Jaguar, e também o mais potente, o mais aerodinâmico e o mais avançado que ela já construiu.

O carro
O grand tourer de quatro portas reúne até 1.030 cv e 1.365 Nm distribuídos em três motores, dois no eixo traseiro e um no dianteiro, e vai de zero a 100 km/h em 3,2 segundos, segundo a marca. A arquitetura elétrica de 850 volts e a bateria utilizável de 118 kWh prometem até 720 km no ciclo europeu WLTP (estimativa preliminar, ainda sem certificação) e cerca de 643 km no ciclo americano EPA, com até 321 km recuperados em apenas 13 minutos de recarga rápida de 350 kW.
As proporções longas e baixas, incomuns no segmento, exigiram uma plataforma inteiramente nova. “Percebemos que simplesmente não funcionava em nenhuma das nossas arquiteturas”, contou Rawdon Glover, diretor-geral da Jaguar. “Olhamos para as arquiteturas de todo mundo, e também não funcionava nelas.” A Jaguar Electric Architecture entrega distribuição de peso próxima de 50/50 e a estrutura mais rígida já produzida pela marca.

O preço da mudança
“Iterar é fácil”, disse Glover em uma prévia para jornalistas, ao explicar por que a marca precisava de um carro sem precedentes em seu catálogo. Os clientes da Jaguar também envelheciam, e concorrentes como BMW, Mercedes, Lexus e Audi já avançavam para a eletrificação. “Ficou muito claro que não precisávamos de passos incrementais. Era hora de uma mudança de direção bem mais ousada.”
A mudança tem um preço, e ele aparece na etiqueta. O valor médio de transação da Jaguar nos Estados Unidos girava em torno de 60 a 70 mil dólares; o Type 01 parte de 130.500. “Se dobramos o ponto de preço, a expectativa sobre como tratamos esse cliente também dobra”, disse Glover. Na prática, isso significa levar o carro de teste até a porta do comprador, ou até o country club.

O design que quer dividir opiniões
Dezoito modelos em escala real foram construídos durante uma competição interna chamada Project Renaissance, da qual saiu o desenho vencedor. A Jaguar sabia que o resultado seria uma ruptura, e era exatamente isso que buscava, segundo Andy Wheel, responsável pelo design. Ele se lembra de ter visto a estreia do XJS quando criança, e da polêmica em torno dele. “Tente fazer algo que atenda a todos os requisitos e você tende a terminar com algo sem graça”, disse. Citou uma expressão alemã trazida por um de seus designers, o “porco de leite que bota ovos de lã”: uma criatura feita para fazer tudo e que, por isso, não existe.
A marca também coletou avaliações de milhares de potenciais compradores. Segundo Glover, o carro recebeu mais notas um e dois do que o habitual para a empresa, mas também mais notas nove e dez. “Um bom design deve ter a confiança de polarizar. Essas compras não são sobre necessidade, são sobre desejo. Não temos interesse em seis, sete ou oito.” Mais de 50 mil pessoas já registraram interesse no Type 01, e 78% delas são novas na marca.

Uma folha em branco
Para os engenheiros, partir do zero foi privilégio e temor ao mesmo tempo. Jon Darlington, engenheiro-chefe e há décadas na empresa, precisou se fazer uma pergunta desconfortável: “Quero ser eu quem diz a eles que não podem fazer isso?” Decidiu que não. “Este foi, de verdade, um projeto de folha em branco. Em 31 anos, essa foi a primeira vez que isso realmente aconteceu.”
Tom Holden, designer-chefe de interiores, conta que a equipe central começou com pouco mais de uma dúzia de pessoas. Toda sexta-feira, durante um ano, imprimiam uma seção em tamanho real do carro, espalhavam sobre uma mesa e trabalhavam com canetas marcadoras, em reuniões de cinco ou seis horas. A validação veio cerca de dois anos e meio depois, quando Darlington apresentou um protótipo ao conselho. “Recebi um abraço de alguns conselheiros, que me disseram: isso vai ser incrível.”

O projeto sempre pareceu destinado a chegar às concessionárias. “Já trabalhei em projetos que começaram e depois pararam”, disse Mary Crisp, diretora de materialidade. “Este nunca pareceu assim.” O designer de exteriores Alexey Andreev recorda uma reunião no meio da pandemia em que a equipe foi avisada do que estava por vir: “Vocês nunca mais terão essa chance na vida. Nem mesmo na carreira, na vida.”

Jaguar Type 01 em números
Potência: até 1.030 cv e 1.365 Nm, três motores (dois atrás, um na frente)
0 a 100 km/h: 3,2 segundos, segundo a marca
Bateria: 118 kWh utilizáveis, arquitetura de 850 V, até 720 km (WLTP, estimativa) e cerca de 643 km (EPA)
Recarga: até 321 km em 13 minutos, a 350 kW
Preço: a partir de US$ 130.500
Entregas: segundo semestre de 2027, com pedidos abertos no início do ano
O E-Type foi aplaudido, o XJS foi discutido, e as duas reações duraram décadas. Resta saber o que o Type 01 vai provocar. A Jaguar, ao menos, já avisou que apostou a empresa na resposta: “Este foi o momento mais importante desde que o nome Jaguar nasceu, em 1935. A Jaguar está de volta.”


