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De Marrakech a Fès, o Marrocos íntimo de Peter Ydeen

Na série Waiting for Palms, o fotógrafo de rua americano Peter Ydeen atravessa o Marrocos central em busca não dos monumentos, mas das pausas entre eles. Um roteiro de Marrakech a Fès, contado por quem olha devagar.

Viagem · Marrocos

Há viagens que se organizam em torno de monumentos e viagens que se organizam em torno de pausas. Waiting for Palms, a série do fotógrafo americano Peter Ydeen, pertence à segunda espécie: um percurso pelo Marrocos central que recusa a cartografia óbvia do turismo e procura, em vez disso, os intervalos.

Em 30 segundos

  • Peter Ydeen é um fotógrafo de rua americano; Waiting for Palms começou em 2016 e 2017, entre Marrocos e Egito, e segue em andamento
  • O roteiro: Marrakech, Essaouira, Alto Atlas, vale do Dadès, Tafilalet, Merzouga, Médio Atlas e Fès
  • O foco está nos vilarejos, cafés e estradas, não nos cartões-postais
  • A série foi exposta em Roma, na Galleria Bruno Lisi, em dezembro de 2025

Em Marrakech, o primeiro desafio foi doméstico: encontrar o dar, a casa tradicional de pátio interno onde o fotógrafo se hospedaria. A medina murada se revelou um labirinto de vielas e curvas sucessivas, daqueles em que, mesmo depois de dias, ainda é preciso pagar um passante para ser guiado de volta. Scooters cortavam corredores de pedra onde nenhum carro caberia, e os gendarmes, dispersos, exerciam uma presença quase simbólica, como se a cidade cuidasse de si mesma.

A partir de Jemaa el-Fnaa, a grande praça-mercado, as lojas voltadas ao turismo se espalham em círculos concêntricos, sem o excesso teatral que se esperaria. Foi ali, diante de um grupo de gendarmes imóveis enquanto scooters, carroças e pedestres fluíam ao redor, que nasceu uma das poucas fotos da série com o quadro inclinado: uma espécie de movimento browniano em que cada um seguia uma direção, mas todos pareciam presos a uma regra comum.

Rumo ao oceano

Ao deixar a cidade em direção a Essaouira, a instrução ao motorista foi clara: nada de cabras em árvores para a foto perfeita, nada de paradas em fábricas de óleo de argan montadas para ônibus de turismo. O interesse estava nos cafés de quem vive ali e nas praças onde pouco acontece e, por isso mesmo, se vê muito. Em Sidi Mokhtar, um café quase vazio, com xícaras lascadas e a televisão em volume baixo, serviu de cenário para um carro carregado até o teto cruzando a praça. Em Essaouira, perto das muralhas, um operário dormia na caçamba de um caminhão, único ponto de sombra disponível.

Pelo Atlas, até as casas sobre pedestais

De volta ao interior, a estrada sobe pelo Alto Atlas e pelo desfiladeiro de Tizi n’Tichka. O verde cede lugar à rocha nua, aos arbustos e zimbros presos à pedra. Em Ait Benhaddou, o antigo ksar de terra batida à beira de um uádi seco, o que surpreendeu foi o silêncio: poucos turistas, muito mais muralha do que vozes.

No vale do Dadès, casas e kasbahs surgem nas encostas como se estivessem postas sobre pedestais. Habitações simples, vistas em conjunto, resultam monumentais. Um caminhão azul estacionado diante de uma casa modesta virou uma das fotografias mais fortes do trecho: nada de notável e, justamente por isso, estranhamente grandioso. Em Boumalne Dadès, cruzamento de estradas, as pessoas conversando nas esquinas e os bares com mesas na calçada lembravam praças de qualquer outro lugar, só que com outras roupas, outros materiais, outras cores.

A Estrada das Mil Kasbahs

De Boumalne em diante, a rota segue a chamada Estrada das Mil Kasbahs, passando por Tinghir, cidade-oásis debruçada sobre um palmeiral, e Erfoud, porta do Tafilalet, até Rissani, antigo centro de caravanas. A paisagem se abre em colinas baixas, vermelhas e ocres. Os vilarejos têm cores magníficas, porém atenuadas, como se a luz as tivesse polido por décadas. Em Erfoud, a caminhada seguiu sem destino: um motociclista numa rua empoeirada, um carrinho de mão abandonado entre parede e calçada, uma oficina com ferramentas penduradas e manchas de óleo no chão.

Foi em Rissani que a série encontrou seu nome. Numa rua, uma mulher vestida inteiramente de preto, apenas os olhos visíveis. Ao lado dela, num muro, um mural pintava um oásis com palmeiras. Mundo interior e sonho pintado no mesmo espaço, separados por poucos centímetros de reboco. No Marrocos, fotografar pessoas sem pedir licença não é bem visto, e muitas imagens nascem de um único instante, no encontro entre respeito e velocidade.

“Cada imagem é uma negociação entre a minha visão e a vida das pessoas que encontrei.”Peter Ydeen, à Domus

Do deserto a Fès

Merzouga é o ponto onde as dunas do Erg Chebbi se tornam acessíveis, com seus passeios de camelo e jantares ao pôr do sol. Algumas imagens nasceram a poucos metros dessas rotas, onde os turistas já haviam passado. Fora da cidade, um minúsculo salão de barbeiro, pouco mais que um quarto com espelho e cadeira, resumia a vida que segue à margem do cenário.

Rumo ao norte, pelo Médio Atlas, os vilarejos rareiam. Num deles, as ruas estavam completamente vazias, exceto por um burro parado na entrada, como um guardião discreto. Em Fès, o contexto volta a ser complexo: a cidade moderna ao redor, a medina no centro, riads escondidos atrás de portas anônimas. Os curtumes, tão fotografados, seguem funcionando como se as câmeras não existissem. Numa rua, o único elemento vermelho num canto de sombra era um tênis tão gasto quanto as paredes atrás dele.

O Marrocos de Ydeen não se organiza em torno de monumentos, mas de pausas: um café vazio, um caminhão azul, uma mulher diante de palmeiras pintadas. Quem refizer o caminho talvez encontre os mesmos lugares. As pausas, cada um terá de esperar pelas suas.

Ficha: Waiting for Palms, de Peter Ydeen. Série iniciada em 2016 e 2017, entre Marrocos e Egito, ainda em andamento. Exposta na Galleria Bruno Lisi (AOC F58), via Flaminia 58, Roma, de 1º a 19 de dezembro de 2025, com curadoria de Camilla Boemio. Roteiro: Marrakech, Sidi Mokhtar, Essaouira, Ait Benhaddou, vale do Dadès, Tinghir, Erfoud, Rissani, Merzouga e Fès.

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
Fotos: Peter Ydeen, série Waiting for Palms

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