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Santa Resistência leva a Mangueira e Otelo para a SPFW N61

Em Otelo Brasileiro, uma Paixão em Verde e Rosa, Mônica Sampaio cruza Shakespeare, o Morro da Mangueira dos anos 1940 e uma rede de artesãos do Rio e da Bahia. Teve passista na abertura e bateria no final.
Desfile Otelo Brasileiro, uma Paixão em Verde e Rosa, da Santa Resistência, SPFW N61 Desfile Otelo Brasileiro, uma Paixão em Verde e Rosa, da Santa Resistência, SPFW N61
Foto: @agfotosite / SPFW

WAYFARER · Estilo | SPFW N61

Antes da primeira roupa, entrou o samba. Uma passista da Mangueira, de penas verdes na cabeça e franjas de contas sobre o corpo, abriu a passarela no pé. Era o aviso de que, naquela tarde, a semana de moda ia virar avenida.

Na sexta-feira, 16 de outubro, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Ibirapuera, a Santa Resistência apresentou Otelo Brasileiro, uma Paixão em Verde e Rosa. A estilista Mônica Sampaio, que no ano passado levou as deusas das águas para a mesma passarela, desta vez fez uma pergunta mais curiosa: como seria Otelo se ele fosse brasileiro?

O desfile em 30 segundos

  • A coleção: Otelo Brasileiro, uma Paixão em Verde e Rosa, de Mônica Sampaio
  • A referência: o Otelo de Shakespeare e o musical Otelo da Mangueira, ambientado no morro nos anos 1940
  • A paleta: verde e rosa, dos tons apagados aos vibrantes
  • A estreia: as primeiras peças de couro da marca, com Cartola estampado nas costas
  • O fecho: mestre-sala, porta-bandeira e parte da bateria da escola na passarela

I. A tragédia

De Veneza ao Morro da Mangueira

O ponto de partida tem duas camadas. A primeira é a peça original de William Shakespeare, Otelo, o Mouro de Veneza. A segunda é o musical Otelo da Mangueira, de 2006, idealizado por Gustavo Gasparani, que transporta a tragédia para o morro carioca na década de 1940, com samba no lugar das árias.

Mônica tirou das duas fontes o vocabulário da coleção. Da era elisabetana vêm as mangas bufantes e os babados de ar rococó. Dos anos 1940 vêm a jaqueta feminina estruturada, bordada com pedrarias, e a alfaiataria masculina, alinhada como a dos sambistas daquele tempo. Nos pés dos homens, sapatos de couro feitos sob medida pela Gomes Calçados, casa que atende a Velha Guarda há mais de seis décadas.

II. A escola

Verde e rosa em todas as intensidades

Shakespeare deu a estrutura, mas foi a Estação Primeira de Mangueira que deu o tom. As cores da escola guiam a coleção do início ao fim e mudam de intensidade ao longo do desfile: começam apagadas, quase empoeiradas, e terminam vivas e brilhantes. Rosas e folhas de mangueira aparecem em estampas, na padronagem do jacquard, nos botões e nas peças que cobrem a cabeça das modelos. Trechos de sambas históricos da escola foram bordados nos tecidos.

A homenagem mais forte está nas costas de uma camisa. Na estreia da Santa Resistência no couro, a marca estampou o rosto de Cartola, fundador e maior símbolo da Mangueira. A peça faz parte do bloco mais contemporâneo da coleção, que leva o streetwear para dentro do universo do samba.

III. A comunidade

Uma coleção feita em rede

Mais do que uma silhueta ou um material, o que define esta Santa Resistência é a quantidade de mãos envolvidas, um modo de produzir em comunidade que combina com o tema. A artista Marcela Citon pintou em aquarela figuras emblemáticas do samba, como Mussum, Alcione e Nelson Cavaquinho, e as pinturas viraram estampa de camisas, saias, calças e vestidos. No Recôncavo Baiano, o Ateliê Masanga produziu uma regata e um chapéu bucket bordados com miçangas de madeira.

Os acessórios seguem a mesma lógica. Uma bolsa de padronagem floral foi feita em tapeçaria colaço, técnica de Maricá que mistura lã e seda natural num acabamento felpudo. Da mesma cidade, a artesã Dona Benedita assina duas bolsas de taboa trançada. E jovens atendidos pela ONG Spetaculu, no Rio, costuraram um bolero verde de retalhos.

A escolha do Rio como tema também tem uma razão de mercado. Mônica Sampaio, que comanda a marca desde Salvador, notou o aumento da procura pela Santa Resistência depois de Do Rio ao Rio, coleção que desfilou em 2022, na SPFW N54. Com a cidade em evidência, decidiu aprofundar o assunto e montar uma rede de parceiros cariocas para falar do samba com propriedade. A trilha do desfile foi de Pretinho da Serrinha.


No fim, o samba voltou. Mestre-sala e porta-bandeira cruzaram a passarela, a bateria da Mangueira tocou dentro do pavilhão e a plateia de uma semana de moda se viu, por alguns minutos, na Marquês de Sapucaí. Shakespeare escreveu uma tragédia sobre o ciúme. Mônica Sampaio preferiu contar outra história de paixão, aquela que o carioca tem pela sua escola.

Para ver de perto

A galeria completa do desfile está no site da SPFW. A coleção anterior, Águas de Si, também passou pela WAYFARER.

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER. São Paulo.
Fotos: Zé Takahashi / @agfotosite / SPFW

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