WAYFARER · Arte | Frieze Week Londres
Há feiras em que o Brasil comparece. Esta foi uma em que ele estava na porta.
Outubro em Regent’s Park tem a luz baixa e o chão úmido de folhas, e a Frieze London, montada sob a lona branca entre 14 e 18 de outubro, recebia seus visitantes com uma escolha. Antes de qualquer outra coisa, cinco telas de Márcia Falcão: corpos de mulheres negras em violetas e azuis, ocupando o estande A15 da Fortes D’Aloia & Gabriel, bem na entrada do pavilhão. No fim do primeiro dia, as cinco tinham dono. “É incrível. Estou aqui, na frente da porta”, disse a artista carioca, num vídeo gravado pela própria Frieze.
Não foi um gesto isolado. Galerias e artistas brasileiros venderam, esgotaram estandes e entraram nas listas de melhores da feira, cada resultado anotado em separado pela imprensa internacional. Reunidos, eles contam outra história: a de um país que deixou de ser exceção em Londres e passou a ser presença.

De exceção a presença
Os números da semana ajudam a medir a mudança. Frieze London e Frieze Masters receberam juntas cerca de 95 mil visitantes de 108 países, e o balanço oficial listou o Brasil entre os públicos que mais cresceram. As reservas VIP de brasileiros subiram 36% em um ano. Na seção principal da Frieze London, o país passou de uma galeria, em 2022, para quatro, com o apoio do Projeto Latitude, programa da ABACT com a ApexBrasil.
O dado mais eloquente, porém, não está na contagem. Está no preço. Num ano em que consultores descreviam um mercado firme nas pontas e hesitante no meio, a maior parte das vendas brasileiras aconteceu justamente ali, entre dezenas e poucas centenas de milhares de dólares. O Brasil vendeu onde o mercado travou.
E vendeu para quem não era brasileiro. O colecionador do país chegou a Londres em maior número e encontrou, na porta, artistas da própria terra disputados por compradores de outras. Para uma galeria brasileira, a seção principal da Frieze London deixou de ser vitrine. Virou posição.
O placar brasileiro em Regent’s Park
Márcia Falcão, Fortes D’Aloia & Gabriel: cinco telas, todas vendidas no primeiro dia, entre 30 mil e 60 mil dólares
Marina Perez Simão, Pace: cinco grandes telas a 250 mil dólares cada, quase todas vendidas na pré-abertura
Dalton Paula, Lisson: duas pinturas vendidas a 50 mil libras e quatro reservadas, até 150 mil libras
Fernanda Galvão, Casa Triângulo e FOUNDRY SEOUL: estande esgotado, obras entre 7.500 e 30.500 euros
André Griffo e Maria Klabin, Nara Roesler: obras vendidas no primeiro dia, a 56 mil e 55 mil dólares
Thalita Hamaoui, Simões de Assis: obras entre 30 mil e 50 mil dólares
Fontes: Artnet, Artsy, The Art Newspaper, Ocula e balanço oficial da Frieze.
Camufladas: pintar quem não se deixa capturar
A série que Márcia Falcão levou a Londres se chama Camufladas, e nasce de uma lembrança britânica. Na Primeira Guerra, a Marinha Real pintava seus navios com listras e ângulos impossíveis, o chamado dazzle. A pintura não escondia a embarcação. Apenas tornava impossível calcular sua velocidade e sua direção.
Falcão encontrou a referência pesquisando a guerra naval e fez a pergunta que move a série: “E se eu pintasse esses corpos também com alguma camuflagem?” Nascida e criada nos subúrbios do Rio, ela pinta as realidades inscritas nos corpos das mulheres, sobretudo das mulheres negras, das periferias brasileiras. Em Camufladas, apresentada pela primeira vez, um único pigmento terroso se desdobra em violetas e azuis, sombras densas e lampejos que revelam um ombro ou um contorno antes de recuar. A tinta se acumula, rareia, é arrastada. A proteção, como define a galeria, não vem do desaparecimento, mas da recusa a ser lida por inteiro.
Em Londres, a cidade que inventou o disfarce, a ideia ganha outra camada. A série dá sequência às cinco pinturas de grande escala que a artista mostrou na 36ª Bienal de São Paulo, em 2025, e confirma uma trajetória que a Frieze fez questão de sublinhar, dedicando a ela um dos vídeos de sua série oficial de artistas.

Sinto que esses corpos estão no centro da conversa.
Márcia Falcão
Para a Fortes D’Aloia & Gabriel, o estande foi também um retorno. Ausente da feira desde a pandemia, a galeria voltou com uma individual no ponto mais visível do pavilhão. Numa feira de 176 galerias, a entrada é o lugar que dá o tom. Este ano, o tom foi brasileiro.
Os estandes: quatro temperamentos
Casa Triângulo. A galeria paulistana voltou a Regent’s Park depois de alguns anos e dividiu o estande com a coreana FOUNDRY SEOUL, numa apresentação de pinturas novas de Fernanda Galvão. São telas de carvão, pigmento, pastel seco e bastão a óleo sobre linho, algumas com três metros de largura, que a Artsy contou entre os dez melhores estandes das duas feiras. No balanço final, esgotado. Rodrigo Editore, da galeria, deixou na revista da Frieze Week a frase mais lúcida da temporada.
Ao longo do ano, todo mundo admitiu em silêncio que o velho modelo de crescimento não funciona mais.
Rodrigo Editore, Casa Triângulo

Nara Roesler. Uma das galerias brasileiras mais internacionais, com endereços em São Paulo, Rio e Nova York, vendeu no primeiro dia as telas de André Griffo e Maria Klabin, num estande que atravessava gerações da arte do país.
Simões de Assis. No estande A4, a galeria de Curitiba e São Paulo pôs lado a lado o modernista paranaense Miguel Bakun, com suas paisagens pequenas e silenciosas, e a pintura exuberante de Thalita Hamaoui. Um encontro de tempos que resume o momento: o modernismo brasileiro como lastro, a pintura contemporânea como frente.

Martins&Montero. Na seção Artist-to-Artist, em que artistas consagrados indicam colegas que merecem mais atenção, a galeria paulistana, nascida da fusão da Jaqueline Martins com a Sé, apresentou Jota Mombaça, por indicação de Otobong Nkanga. MUD/EMBANKMENT reunia pintura, cerâmicas inéditas e um volume considerável de terra crua, matéria que no trabalho de Mombaça carrega memória, território e resistência. Foi a apresentação brasileira mais radical da feira, e a menos comentada.

A própria seção diz muito. Patrocinada pela Tiffany & Co., a Artist-to-Artist funciona como uma curadoria de afinidades: em vez de um júri, são os artistas que apontam quem querem ver ao seu lado. Que Otobong Nkanga tenha escolhido Jota Mombaça mostra o lugar que a produção brasileira ocupa hoje entre os próprios artistas, antes mesmo do mercado.
Brasileiros nas galerias do mundo
Parte da força brasileira em Londres veio de fora das galerias brasileiras. No estande da Pace, as telas de Marina Perez Simão, camadas de tinta que partem da paisagem até virar quase só ritmo, foram quase todas vendidas no dia da pré-abertura. Nem todos se convenceram, e um crítico pôs o estande na coluna dos fracos. O mercado, no caso, falou mais alto.

Na Lisson, Dalton Paula levou seus retratos de figuras históricas negras brasileiras, como Chico Rei e Zeferina, pintados a óleo e folha de ouro. Chegaram a Londres como aquilo que são: arquivo e reparação em forma de pintura. Quem quiser ver o conjunto não precisa atravessar o Atlântico. A retrospectiva Dupla Cura está no Instituto Inhotim.

Maxwell Alexandre apareceu no estande da Carlos/Ishikawa e segue em Londres com uma individual na sede da galeria, em Mile End, até 28 de novembro: óleo sobre papel pardo, o suporte que virou assinatura.
O modernismo que a Europa está descobrindo
Na Frieze Masters, o Brasil apareceu pelo caminho da história. Na seção Queering Modernism, com curadoria de Anke Kempkes, a Danielian apresentou Ismael Nery, o pintor e poeta que, nos anos 1920, fez do corpo e da ambiguidade um território que o modernismo brasileiro levou décadas para reconhecer. Na Spotlight, a Galeria MaPa mostrou Bernard Bouts, numa edição que voltou o olhar para o Sul Global e que a imprensa especializada leu como uma mudança de eixo da feira.
A poucos minutos dali, em Savile Row, a Luxembourg + Co abriu Journey to the End of Language, dedicada a Mira Schendel, com o espólio da artista e a paulistana Gomide&Co. É o tipo de exposição que, para quem acompanha o mercado, costuma anteceder uma reavaliação de preços. O modernismo deixou de ter um único centro, e a Europa começa a pagar por isso.
O design também falou português
Na PAD London, em Berkeley Square, a estreante Bessa Pereira levou The Ways of Seating, cadeiras, banquetas e sofás modernistas de Joaquim Tenreiro, José Zanine Caldas e Carlo Hauner. Fernando Jorge mostrou a nova alta joalheria High Swirl, diamantes coloridos sobre jaspe verde e quartzo fumê. A JCRD Design trouxe o mobiliário de Oscar e Anna Maria Niemeyer. O modernismo brasileiro, que por anos circulou como curiosidade de colecionador, chegou à feira de design mais refinada de Londres como cânone.

A Londres latina
A semana teve ainda uma estreia que diz respeito ao continente inteiro. A Paraíso, primeira feira dedicada à arte latino-americana em Londres desde o fim da edição londrina da Pinta, em 2015, ocupou o Ambika P3, em Marylebone, com 22 expositores, foco no México e uma aposta clara em descoberta, mais do que em escala. Entre os expositores, a Astéri Contemporary levou artistas do Reino Unido e do Brasil.
No parque, a Frieze Sculpture, em cartaz até 1º de novembro, inclui a uruguaia Carolina Aguirre e o porto-riquenho Angel Otero. Na Frieze Masters, o fundo de aquisições da Tate comprou o colombiano Luis Fernando Zapata. A América Latina, em Londres, deixou de ser seção à parte.
O que isso diz sobre o mercado
Foi uma semana de prudência. A maior venda, uma natureza-morta de Jan Brueghel, o Velho, saiu por cerca de 5 milhões de libras na Hauser & Wirth. Nos leilões, a Christie’s somou 218,6 milhões de libras, a Sotheby’s ficou abaixo da estimativa e a Phillips vendeu todos os lotes da noite, mas com o Richter abaixo do esperado. “Os colecionadores não estão dispostos a correr grandes riscos”, resumiu o marchand Thomas Stauffer. Parte do dinheiro sério, diziam os consultores, já seguia para Paris, onde a Art Basel abre nesta semana.
É nesse cenário que o resultado brasileiro ganha peso. O país vendeu com consistência onde os outros hesitaram, entrou nas listas de melhores estandes e voltou à conversa dos consultores. Não por exotismo. Por pintura, por design e por um modernismo que a Europa ainda está aprendendo a ler.
Os navios britânicos de 1917 não se escondiam. Pintados em listras impossíveis, ficavam à vista de todos, e ainda assim ninguém conseguia dizer para onde iam. Em Londres, cem anos depois, as mulheres de Márcia Falcão fizeram o mesmo na porta da feira: foram vistas por todos, vendidas no primeiro dia, e continuaram inteiras. Talvez seja essa a lição da semana. O Brasil não precisou se explicar em Regent’s Park. Bastou estar na porta.
Onde ver agora
Mira Schendel, Journey to the End of Language: Luxembourg + Co, 2 Savile Row, Londres, até 12 de dezembro
Maxwell Alexandre: Carlos/Ishikawa, Mile End, Londres, até 28 de novembro
Light and Magic: The Birth of Art Photography: Tate Modern, até 21 de fevereiro de 2027
Frieze Sculpture: Regent’s Park, entrada gratuita, até 1º de novembro
Dalton Paula, Dupla Cura: Instituto Inhotim, Brumadinho
Para quem pensa em viver a Frieze Week de 2027 de dentro, com hospedagem, acessos e agenda montados com antecedência, a WAYFARER Agency, nossa divisão de viagens, organiza a semana sob medida.
Hospedagem e acesso em Londres: WAYFARER Agency
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.


