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As casas de verão dos grandes playboys do século XX

Villa La Leopolda, a ilha de Niarchos, o castelo de Dado Ruspoli e o Château de l’Horizon: cinco endereços onde riqueza, escândalo e bom gosto dividiram o mesmo verão.

WAYFARER · Casas | Riviera

“Você nunca trabalhou?”, perguntou certa vez um intrometido a Dado Ruspoli. “Não”, respondeu o príncipe. “Nunca tive tempo.” A frase resume uma geração inteira. Ser ocioso, naquele mundo, exigia dedicação integral: o avião para Nice, o barco para as ilhas gregas, o carro para Gstaad, e uma casa à espera em cada parada.

Com o verão se aproximando, é difícil não invejar os milionários errantes daquelas décadas, sobretudo pelo talento que tinham para desaparecer por completo. Os endereços que escolhiam diziam quem eram melhor do que qualquer biografia. Estes são cinco deles, entre a Riviera, o Egeu e o interior de Roma: casas onde a fortuna, o escândalo e o bom gosto dividiram o mesmo verão.

Os cinco endereços

  • Gianni Agnelli: Villa La Leopolda, Villefranche-sur-Mer
  • Gunter Sachs: Saint-Tropez
  • Stavros Niarchos: a ilha de Spetsopoula, Grécia
  • Dado Ruspoli: Castello Ruspoli, Vignanello
  • Aly Khan: Château de l’Horizon, Golfe-Juan

I. Gianni Agnelli

Villa La Leopolda, Villefranche-sur-Mer

O nome vem de um rei. Leopoldo II da Bélgica comprou as terras no começo do século XX e deu a propriedade à amante, Blanche Delacroix. A casa que existe hoje, porém, é obra posterior: entre 1929 e 1931, o arquiteto americano Ogden Codman Jr. comprou e fundiu uma dúzia de construções e ergueu ali a villa neoclássica que se tornaria a mais cobiçada da Riviera, cercada por cerca de sete hectares de jardins, oliveiras, limoeiros e laranjeiras. Alfred Hitchcock filmou ali cenas de Ladrão de Casaca, com Grace Kelly e Cary Grant.

Gianni e Marella Agnelli compraram a Leopolda no fim dos anos 1950 e a revenderam em 1963. Conta-se que o Avvocato, dono de uma coleção de carros e barcos que contava sua vida, preferia chegar de helicóptero, pousar perto da costa e terminar o trajeto a nado. Nos anos 1980 a casa passou a Edmond e Lily Safra, e aqui a história ganha sotaque brasileiro: Lily, nascida Lily Watkins em Canoas, no Rio Grande do Sul, recebeu ali Ronald Reagan, Frank Sinatra e o príncipe Charles. Numa festa de 1988, Sérgio Mendes voou da Califórnia para tocar.

Fachada da Villa La Leopolda em Villefranche-sur-Mer, na Riviera Francesa
O endereço que nem 370 milhões de euros conseguiram comprar. Imagem: reprodução

Em 2008, o bilionário russo Mikhail Prokhorov fechou a compra da villa por 370 milhões de euros, mais os móveis, e desistiu do negócio. A Justiça francesa decidiu a favor de Lily Safra, que ficou com o sinal de 39 milhões de euros e anunciou que o destinaria à caridade. Ela morreu em 2022, e a Leopolda segue com a família. Não abre para visitas.

II. Gunter Sachs

Saint-Tropez, sob uma chuva de rosas

No verão de 1966, um dia depois de conhecer Brigitte Bardot, o herdeiro alemão Gunter Sachs mandou um helicóptero sobrevoar La Madrague, a casa dela em Saint-Tropez, e despejar centenas de rosas vermelhas no jardim. A Paris Match fala em cerca de 1.200. Bardot escreveria depois que não é todo dia que um homem joga uma tonelada de rosas no seu quintal. Casaram-se em Las Vegas em julho daquele ano e se separaram em 1969.

Sachs tinha a própria casa na península, e ela funcionava como extensão de sua coleção. Financiada, segundo ele, com ganhos no jogo de cartas em Paris, a coleção reunia Dalí, Magritte, Yves Klein, Lichtenstein, Tinguely e Andy Warhol. Foi Sachs quem deu a Warhol sua primeira grande exposição europeia, em Hamburgo, em 1972, e quem, diante das vendas fracas, comprou discretamente metade das obras. Dois anos depois, encomendou ao artista os retratos de Bardot. Em 2012, um ano após sua morte, a Sotheby’s vendeu a coleção por 36,5 milhões de libras.

Villa provençal com jardim em Saint-Tropez
Saint-Tropez, quando a vila ainda era segredo de poucos. Imagem: reprodução

III. Stavros Niarchos

Spetsopoula, a ilha da rivalidade

Toda rivalidade precisa de território. A de Stavros Niarchos e Aristóteles Onassis, os dois maiores armadores gregos do século, se espalhou por navios, refinarias e casamentos, e chegou ao mar Egeu quando ambos compraram ilhas particulares no começo dos anos 1960: Onassis ficou com Skorpios, Niarchos com Spetsopoula, cerca de dois quilômetros quadrados de pinheiros diante de Spetses. Antes dele, havia ali poucas casas, um armazém e uma capela. Niarchos construiu a villa principal e uma praia protegida por rede contra tubarões, para onde o almoço descia em pequenos carrinhos.

A ilha guarda também a página mais sombria da família. Em maio de 1970, Eugenia Livanos, mulher de Niarchos, foi encontrada morta na villa, depois de uma discussão com o marido. A causa oficial foi overdose de barbitúricos, e o caso foi encerrado como suicídio meses depois. No ano seguinte, Niarchos se casou com a irmã dela, Tina, ex-mulher de Onassis. Spetsopoula continua com os filhos dele e só pode ser vista de longe, a partir de Spetses.

Vista aérea da ilha particular de Spetsopoula, na Grécia
Dois quilômetros quadrados de pinheiros e silêncio. Imagem: reprodução

IV. Dado Ruspoli

Castello Ruspoli, Vignanello

Alessandro Ruspoli, o Dado, nono príncipe de Cerveteri, andava pela Via Veneto com um papagaio no ombro e é apontado como uma das inspirações de A Doce Vida. Tinha três tatuagens feitas no Laos, aprendeu mágica e hipnose com Orson Welles, apoiou os balés de Roland Petit e fez uma ponta em O Poderoso Chefão III. Também tinha, por parte de mãe, um elo com o Brasil: Claudia Matarazzo, herdeira da família paulistana. Foi preso na Ásia por posse de ópio em 1953, e Jean Cocteau, segundo a revista The Rake, o teria ajudado a largar outro vício.

O cenário de suas festas era o castelo da família em Vignanello, a cerca de uma hora ao norte de Roma, erguido sobre uma fortaleza de monges beneditinos do século IX e ligado há séculos à corte papal. O tesouro está do lado de fora. Em 1610, Ottavia Orsini, filha do criador do parque de Bomarzo, desenhou ali um parterre de doze quadrados de buxo, com as iniciais dela e dos filhos bordadas nas sebes. A historiadora Georgina Masson o considerava o mais magnífico da Itália. Picasso, Fellini, Dalí e os Rolling Stones passaram pelo círculo de Dado. Quando ele morreu, em 2005, uma festa para 600 pessoas aconteceu horas depois do enterro, por instrução dele: nada deveria ser cancelado.

Jardim renascentista de buxo do Castello Ruspoli, em Vignanello
Quatro séculos de buxo, podados com a mesma paciência. Imagem: reprodução

V. Aly Khan

Château de l’Horizon, Golfe-Juan

A casa branca à beira d’água foi construída em 1932 para a atriz americana Maxine Elliott, com projeto de Barry Dierks. Nos anos 1930, recebeu o duque e a duquesa de Windsor, Noël Coward, Greta Garbo e, com assiduidade, Winston Churchill, que descia de escorregador da piscina direto para o mar. Foi o tipo de lugar que Somerset Maugham, vizinho na Riviera, tinha em mente ao escrever sobre a região.

“A Riviera não é só um lugar ensolarado para gente sombria.”

W. Somerset Maugham, em 1941

Aly Khan comprou o château em 1948, e em 27 de maio de 1949 se casou com Rita Hayworth na prefeitura de Vallauris, com recepção na casa. Cerca de cem seguranças e uma patrulha marítima tentaram afastar a imprensa, sem muito sucesso. A piscina foi perfumada com centenas de litros de água-de-colônia, e as iniciais do casal flutuavam em flores sobre a água. Os convidados teriam consumido cerca de 22 quilos de caviar, o que levou o Aga Khan, pai do noivo, a reclamar, segundo a lenda: “Caviar demais, Rita, caviar demais”. Desde 1979, a casa pertence à família real saudita e só pode ser vista do mar.

Château de l'Horizon à beira-mar em Golfe-Juan
Um palácio branco pousado sobre a água. Imagem: reprodução

Dado Ruspoli nunca teve tempo para trabalhar, e talvez esse fosse o verdadeiro privilégio daquelas casas. Não o mármore, não as rosas lançadas do céu, não o caviar em excesso, mas verões inteiros que cabiam dentro delas, sem pressa de terminar.

Para ver de perto

Das cinco, só uma abre as portas. O Castello Ruspoli, em Vignanello, recebe visitas guiadas com reserva às sextas, sábados, domingos e feriados, de fevereiro a dezembro, exceto em julho, por 15 euros, em castelloruspoli.com. A Villa La Leopolda é propriedade privada e não se visita. Spetsopoula pode ser vista de Spetses, e o Château de l’Horizon, apenas do mar.

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
Imagens: reprodução

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