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Goiânia em cinco mesas: os endereços que explicam a cidade que aprendeu a receber pela comida

Do menu autoral do Íz à pamonha de terceira geração, da trattoria eleita a melhor italiana do Brasil ao boteco que atravessa gerações no Setor Sul: cinco endereços para entender por que Goiânia virou destino de quem viaja para comer, e o que essas mesas movimentam na economia da cidade.
Prédios e arborização de Goiânia sob céu azul Prédios e arborização de Goiânia sob céu azul
Imagem: Boaventuravinicius/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

WAYFARER · Gastronomia | Goiânia

Goiânia nasceu no papel, em 1933, como capital planejada no meio do Cerrado. Noventa e três anos depois, a cidade que foi desenhada para governar descobriu outra vocação: receber. E quem melhor conta essa história não são os prédios do centro art déco, e sim as mesas.

A virada tem data e números. Em janeiro, uma lei municipal reconheceu Goiânia como Capital da Boa Mesa e declarou a gastronomia patrimônio cultural da cidade. Em março, a MotoGP voltou ao autódromo com a expectativa de 100 mil a 150 mil visitantes num só fim de semana, e bares e restaurantes foram tratados pelo setor como um dos pilares econômicos do evento. No meio disso, uma geração de cozinheiros goianos que passou pelas melhores cozinhas do Brasil e da Europa decidiu voltar para casa e cozinhar o Cerrado. Estes são os cinco endereços que, juntos, explicam essa Goiânia.

Goiânia à mesa em números

  • R$ 89 milhões: o faturamento de 2025 do Grupo Íz, de Ian Baiocchi e Domingos Ávila, com meta de R$ 115 milhões em 2026
  • 445: funcionários do grupo, que serve cerca de 50 mil clientes por mês
  • 100 mil a 150 mil: visitantes esperados na MotoGP de março, com perto de 60 mil reservas antecipadas na hotelaria
  • 200 a 1.000: os endereços do guia digital do Sindibares no lançamento, em março, e a meta para o fim do ano
Prédios iluminados do Setor Marista, em Goiânia, ao anoitecer
O Setor Marista, onde se concentra a nova cozinha da cidade. Imagem: Laczkowski/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

1. Íz Restaurante · Setor Marista

O Cerrado servido como alta cozinha, e com quartos para dormir

Tudo começa aqui. Ian Baiocchi passou pelo D.O.M., de Alex Atala, pelo Maní, de Helena Rizzo, e por duas das cozinhas mais influentes da Espanha, o El Celler de Can Roca e o Mugaritz. Podia ter ficado em São Paulo. Voltou para Goiânia e, em 2015, abriu o Íz, a mais autoral das suas casas e a que mostrou à cidade que alta gastronomia também podia ter sotaque do Cerrado. Ao longo dos anos, a cozinha trabalhou com baunilha do cerrado, castanha de baru, cajuzinho do cerrado e com queijos e marmelada da comunidade quilombola de Santa Luzia. O chef também foi escolhido pelo Itamaraty para apresentar a cozinha do Cerrado na Expo Dubai.

O Íz hoje ocupa uma casa modernista no Setor Marista, que também abriga o Íz Hotel Conceito, apresentado pelo grupo como o primeiro “restaurante com quartos” do Brasil: são três suítes, com café da manhã à la carte e diárias a partir de R$ 2.500. É a primeira mesa da lista porque é a mais completa. Aqui, comer em Goiânia vira motivo de viagem.

Pequi aberto na palma da mão, com a polpa amarela à mostra
O pequi, fruto-símbolo do Cerrado e da cozinha goiana. Imagem: Arley da Cruz/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

2. 1929 Trattoria Moderna · Setor Marista

A melhor italiana do Brasil fica no Centro-Oeste

Em junho, a premiação Melhores da Gastronomia, da revista Prazeres da Mesa, elegeu a 1929 Trattoria Moderna o melhor restaurante italiano do Brasil, numa disputa com mais de 500 especialistas na fase de indicação e cerca de 43 mil votos. A casa abriu em 2017 como homenagem de Ian Baiocchi à avó, dona Colombina, e junta receitas italianas de família, massas feitas à mão e produtos do Cerrado, uma ênfase reforçada na mudança recente do cardápio. O pato é um dos fios da casa, do confit ao agnolotti com castanha-do-pará que já passou pelo menu.

A 1929 também é a melhor porta para entender o lado empresarial dessa cozinha. Com o sócio Domingos Ávila, amigo de infância e engenheiro civil de formação, Baiocchi montou o Grupo Íz, que hoje soma sete operações, entre elas, além do Íz e da trattoria, o bistrô francês Grá, no rooftop do prédio mais alto do Centro-Oeste, a sorveteria artesanal Alata e o Fulles Kitchen, dedicado à cozinha de fogo. Em 2025, o grupo faturou R$ 89 milhões, com 445 funcionários e cerca de 50 mil clientes por mês.

A cidade desenhada para governar descobriu, à mesa, a vocação de receber.

3. Famu · Setor Marista

A Ásia que passou pela América e pousou no Cerrado

O Famu começou em 2022 num lugar improvável, o estande de vendas de um empreendimento no Setor Bueno, e virou a cozinha autoral mais votada do Prêmio Curta Mais 2026. O nome é a palavra japonesa para “fazenda”. Na cozinha, o chef Lucas Duarte; na confeitaria, Giulia Duarte. A proposta é uma cozinha asiático-americana, inspirada no que os imigrantes asiáticos cozinharam na América do Norte, com sotaque local.

As guiozas artesanais são o cartão de visita da casa, hoje instalada na Avenida D, no Setor Marista, onde o desenho do salão faz parte da experiência. A sobremesa que melhor resume o Famu é uma panacota de baunilha com pera assada no mel, sorbet de amora, chocolate branco e queijo foguin da Serra do Bálsamo: técnica de fora, ingrediente daqui.

4. Pamonharia Frutos da Terra · Nova Suíça e Setor Bueno

Quarenta anos de milho verde e uma receita de família que virou negócio

Nenhum guia de Goiânia está completo sem pamonha, e a Frutos da Terra é das casas mais citadas da capital há mais de quatro décadas. Começou com uma família apaixonada por milho e cozinha regional e está hoje na terceira geração, sob a gestão de Isadora Lobo. O milho chega da roça todos os dias e vira até cinco fornadas diárias.

No balcão, a pamonha aparece doce, salgada com queijo e na versão à moda da casa, a preferida da clientela. Ao lado dela, o empadão goiano de massa feita à mão, recheado de frango desfiado, linguiça, queijo, milho, ervilha, azeitona, palmito e guariroba, o palmito amargo que é assinatura do estado. É aqui que o goianiense leva quem vem de fora, e é aqui que a comida de casa mostra que também sustenta uma economia.

Pamonhas embrulhadas na palha do milho, sobre um prato
A pamonha, embrulhada na palha do milho verde. Imagem: Isalinky/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

5. Glória Bar e Restaurante · Setor Sul

O boteco que atravessa gerações no bairro mais antigo do plano

Toda cidade tem o bar onde pais e filhos já beberam no mesmo balcão. Em Goiânia, um dos mais lembrados é o Glória, no Setor Sul, um dos bairros desenhados no plano original da capital. Aparece entre os botecos mais tradicionais da cidade e entre os melhores gastrobares de 2026 do Curta Mais, com o mesmo argumento de sempre: petiscos clássicos, chope bem tirado e um ambiente descontraído que reúne várias gerações.

Fecha a lista porque mostra o outro lado da vocação goiana de receber. Antes do menu-degustação e da trattoria premiada, a hospitalidade da cidade já existia em mesas de bar, e é nelas que o visitante entende o ritmo de Goiânia depois que o sol do Cerrado baixa.

O que essas mesas movimentam

Do quilombo ao rooftop, uma cadeia inteira

Lidos juntos, os cinco endereços desenham a economia que existe por trás de um prato em Goiânia. Há o grupo que saiu de um restaurante e chegou a quase R$ 90 milhões por ano, e a pamonharia de família que já está na terceira geração. Há o produtor de queijo da Serra do Bálsamo, a comunidade quilombola que fornece marmelada, o milho que chega da roça toda manhã. E há o emprego: o setor de bares e restaurantes da capital abre vagas em série ao longo do ano, segundo o Sindibares, e grandes eventos como a MotoGP mostram a capacidade da cidade de absorver picos de demanda.

O sindicato está por trás do programa Goiânia, Capital da Boa Mesa, que quer posicionar a cidade como destino nacional e internacional de turismo gastronômico. Dentro dele, lançou em março um guia digital gratuito em três idiomas para orientar o visitante, com QR codes em hotéis e pontos turísticos, e quer chegar a mil endereços até o fim do ano. É a aposta de que a comida pode ser a porta de entrada da cidade para quem vem de fora. As cinco mesas desta lista mostram que a porta já está aberta.

Empadão goiano servido em cumbuca de barro, ao lado de potes de pequi em conserva
O empadão goiano, com o pequi em conserva ao lado. Imagem: Pablo Regino/MTur Destinos, via Wikimedia Commons

Goiânia foi desenhada no papel para ser capital. Ninguém escreveu, naquele plano de 1933, que um dia a cidade seria conhecida pelo que serve. Mas está ali, no pequi, na pamonha da terceira geração, na trattoria da avó e no balcão do Setor Sul: a cidade que aprendeu a receber pela comida.

Onde comer

Íz Restaurante e Íz Hotel Conceito: Setor Marista. Reserva antecipada; suítes a partir de R$ 2.500.

1929 Trattoria Moderna: Setor Marista. Eleita o melhor restaurante italiano do Brasil pela Prazeres da Mesa em 2026.

Famu: Avenida D, Qd. D12, Lt. 8 e 9, Setor Marista.

Pamonharia Frutos da Terra: Rua C-234, 969, Nova Suíça, (62) 3281-4049; e Avenida T-11, 411, Setor Bueno, (62) 3015-1507. Todos os dias, das 10h30 às 22h.

Glória Bar e Restaurante: Setor Sul.

Horários e preços mudam: confirme com cada casa antes de ir.

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
Imagens: Wikimedia Commons (Boaventuravinicius, Laczkowski, Arley da Cruz, Isalinky, Pablo Regino/MTur Destinos)

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