Em pleno inverno europeu, Berlim se torna palco de um encontro raro entre luz, ritmo e identidade. Até 26 de fevereiro de 2026, a KORNFELD Galerie e seus espaços satélites propõem um programa expositivo que articula Brasil e Alemanha a partir de uma mesma pulsação sensível. Inspiradas pelo imaginário do Carnaval como metáfora cultural e política, três exposições simultâneas constroem um diálogo sofisticado entre percepção, corpo e memória, colocando em ressonância a obra do mestre da holografia artística Dieter Jung e a potência plural da arte contemporânea brasileira.

Sob curadoria da historiadora da arte Tereza de Arruda, o conjunto das mostras cria uma trama conceitual onde ritmo não é apenas som ou movimento, mas um princípio universal que atravessa luz, cor, gesto e experiência coletiva. Enquanto no Brasil o período carnavalesco ocupa as ruas com festa e corporeidade, em Berlim essa energia se transforma em reflexão visual e crítica, revelando camadas sociais, espirituais e políticas que estruturam a cultura brasileira contemporânea. O Carnaval surge como ponto de partida simbólico, um espaço onde vozes historicamente silenciadas ganham visibilidade e onde o popular se afirma como campo de disputa e afirmação identitária.


Na KORNFELD Galerie, a individual Life of Colors apresenta um mergulho na trajetória de Dieter Jung, um dos pioneiros da holografia artística desde os anos 1970. Suas obras transformam a cor em luz viva e vibrante, criando campos perceptivos que oscilam entre superfície e profundidade. Interferências ópticas, refrações e sutis impulsos de movimento convidam o espectador a um olhar ativo, quase meditativo, no qual ver se torna uma experiência física e sensorial. Pintura e holografia se entrelaçam em uma investigação contínua sobre o invisível contido no visível, em trabalhos que expandem os limites da imagem e da percepção.


Já no 68projects by KORNFELD, a coletiva Rhythm & Soul – Arte Contemporânea Brasileira reúne artistas de diferentes gerações e regiões do Brasil para traduzir, em múltiplas linguagens, o pulso cultural do país. Pinturas, desenhos, objetos e gravuras revelam um Brasil marcado por contrastes, onde alegria e resistência, tradição e futurismo coexistem. O ritmo aparece como forma de estar no mundo, presente tanto nos tambores do Carnaval quanto nos gestos cotidianos, nos rituais espirituais, nas paisagens urbanas e nas lutas sociais. As obras constroem um panorama complexo e coerente de identidades em constante transformação, atravessadas por heranças indígenas, afro-diaspóricas e pelas tensões do presente.



No 69salon by KORNFELD, o artista OBastardo apresenta sua primeira exposição individual na Europa, Rhythm & Skin. Resultado de uma residência artística em Berlim, a mostra reúne retratos que refletem uma sociedade fragmentada e viva, onde o corpo é entendido como território de memória e resistência. Com uma linguagem pictórica que combina gestualidade, estrutura gráfica intensa e referências à visualidade urbana, OBastardo constrói imagens carregadas de força estética e política. Cores, padrões e símbolos oriundos da cultura afro-brasileira atravessam as composições, criando uma poesia visual que denuncia desigualdades ao mesmo tempo em que celebra a dignidade, a espiritualidade e o direito de existir.

O conjunto das três exposições forma um percurso curatorial que entrelaça o coletivo e o individual, o material e o imaterial, o brasileiro e o global. Com o apoio da Embaixada do Brasil em Berlim e do Instituto Guimarães Rosa, a KORNFELD reafirma sua atuação como uma plataforma expandida de pesquisa, experimentação e circulação artística. Em Charlottenburg, um dos eixos históricos do circuito cultural berlinense, o programa revela como a arte pode operar como espaço de diálogo, memória e transformação, fazendo do ritmo uma linguagem capaz de atravessar fronteiras e tempos.