Dark Mode Light Mode

Cenários que contam histórias nos filmes indicados ao Oscar

Os cenários de um filme possuem a rara capacidade de transportar o espectador para qualquer realidade imaginável. Podem conduzir a plateia milhares de anos ao passado ou situá-la em universos onde o impossível ganha forma, como mundos em que os mortos retornam à vida. Nesse processo, a direção de arte torna-se uma peça fundamental para que a ficção pareça convincente. Interiores sedutores, paisagens amplas e exteriores meticulosamente construídos não apenas sustentam a narrativa como frequentemente despertam inspiração estética.

Às vésperas da 98ª edição do Oscar, marcada para 15 de março, os profissionais indicados na categoria de direção de arte em 2026 compartilharam detalhes sobre a construção visual de seus filmes. Entre os títulos reconhecidos estão Sinners, Frankenstein, Hamnet, Marty Supreme e One Battle After Another. Independentemente de quem leve a estatueta para casa, cada um desses projetos evidencia como a criação de ambientes cinematográficos é um dos elementos mais fascinantes da magia do cinema.

Sinners

Dirigido por Ryan Coogler, o terror vampírico Sinners acompanha a jornada de irmãos gêmeos interpretados por Michael B. Jordan que retornam ao Mississippi para abrir um juke joint e acabam confrontando uma ameaça sombria que paira sobre a comunidade local. Para construir esse universo ficcional profundamente ancorado na realidade do sul dos Estados Unidos durante a era das leis de segregação racial, a diretora de arte Hannah Beachler buscou uma combinação entre precisão histórica e liberdade estética.

Segundo Beachler, o objetivo era retratar o período com fidelidade, mas também conduzir esses ambientes a um território artístico em que o sobrenatural pudesse ser percebido e sentido. Os cenários foram construídos na Louisiana, onde paisagens como extensos campos de cana-de-açúcar reforçavam a atmosfera da narrativa. Desde a antiga serraria transformada em casa de música até a igreja e as residências dos personagens, cada espaço foi pensado para compor um universo visual coerente.

A equipe também experimentou linhas arquitetônicas e reutilizou elementos decorativos entre diferentes cenários, criando continuidade visual. Cores e acabamentos foram aplicados de maneira inesperada, inclusive com sombras pintadas nas estruturas exatamente onde naturalmente surgiriam. O recurso acrescenta profundidade e reforça a sensação de que, embora o mundo pareça real, nele coexistem magia e forças sobrenaturais.

Frankenstein

Para a adaptação dirigida por Guillermo del Toro do clássico de Mary Shelley, os cenários foram concebidos como uma colagem de ambientes detalhados e locações grandiosas. O filme revisita a história do cientista Victor Frankenstein, interpretado por Oscar Isaac, e da criatura que ele cria, vivida por Jacob Elordi, explorando os limites entre humanidade e monstruosidade.

A diretora de arte Tamara Deverell explica que Del Toro desejava um universo operístico e profundamente artesanal, guiado por uma paleta cromática cuidadosamente codificada. Seu processo de criação assumiu um caráter mais teatral do que em trabalhos anteriores, com forte ênfase em elementos esculpidos e superfícies ricamente texturizadas.

Entre os cenários mais marcantes está o laboratório de Frankenstein, instalado em uma antiga torre de água abandonada coberta por pátina. Motivos circulares aparecem em diversos elementos, como uma imensa janela e uma cabeça esculpida de Medusa, símbolos que evocam o ciclo da vida. Outro ambiente crucial é o navio de exploração no Ártico, construído integralmente em estúdio em vez de depender de efeitos visuais.

Em contraste com esses espaços dramáticos, a propriedade ancestral da família Frankenstein apresenta interiores opulentos revestidos de mármore e ouro. Diversas mansões históricas da Inglaterra e da Escócia foram combinadas para compor a residência palaciana, incluindo Wilton House, Burghley House, Gosford House e Dunecht House. Para Deverell, cada cenário resultou de pesquisa intensa, referências visuais rigorosas e da determinação criativa do diretor.

Hamnet

Em Hamnet, dirigido por Chloé Zhao, a direção de arte assume papel central na recriação do contexto histórico que inspirou Hamlet, de William Shakespeare. O filme aborda a tragédia familiar que teria motivado o dramaturgo a escrever uma de suas obras mais célebres, oferecendo um retrato sensível de amor, perda e memória.

A diretora de arte Fiona Crombie, em parceria com a decoradora Alice Felton, reinterpretou ambientes da era Tudor para criar cenários que se tornam protagonistas silenciosos da narrativa. Um dos elementos mais notáveis é a reconstrução do Globe Theatre de Londres. Diferentemente da versão histórica monumental, a equipe concebeu um teatro mais íntimo e austero.

O interior, revestido de madeira reaproveitada e com atmosfera que remete ao interior de uma árvore, inclui um camarim situado no nível do palco. A alteração permite que William, interpretado por Paul Mescal, mantenha uma conexão visual direta com sua esposa Agnes, vivida por Jessie Buckley, presente na plateia.

Crombie descreve o processo como uma combinação entre pesquisa histórica e liberdade interpretativa. Após compreender profundamente o contexto, a equipe extraiu os elementos essenciais e os adaptou para servir à emoção da narrativa. Além do teatro, a casa da família Shakespeare no interior da Inglaterra e a floresta ao redor refletem tensões distintas. O lar, com paredes claras e vigas robustas, transmite sensação de confinamento, enquanto a floresta simboliza liberdade e a conexão espiritual de Agnes com a natureza.

Marty Supreme

Ambientado na Nova York dos anos 1950, Marty Supreme acompanha um prodígio do tênis de mesa, interpretado por Timothée Chalamet, determinado a se tornar o maior jogador do mundo. O diretor de arte Jack Fisk, ao lado do decorador Adam Willis, buscou criar um universo imersivo que transmitisse absoluta autenticidade.

Inspirado pela abordagem realista do diretor Josh Safdie, Fisk adotou uma estética quase documental. A equipe transformou completamente a Orchard Street, no Lower East Side, recriando fachadas de prédios e lojas típicas da época, incluindo uma sapataria e uma loja de animais.

Para representar a luxuosa residência do casal Milton Rockwell e Kay Stone, interpretados por Kevin O’Leary e Gwyneth Paltrow, foi utilizada uma mansão avaliada em cerca de 38 milhões de dólares localizada em frente ao Metropolitan Museum of Art. Diversos outros ambientes foram adaptados para o filme, entre eles um salão de tênis de mesa, uma fazenda rural, um teatro da Broadway e um hotel em Londres.

Fisk destaca que o maior orgulho do projeto está no trabalho coletivo da equipe formada por decoradores, diretores de arte, pintores, carpinteiros e artistas gráficos. Em meio a uma cidade com milhões de habitantes e ruas sempre movimentadas, o desafio foi fazer Nova York retroceder 75 anos sem interromper a vida cotidiana. Para ele, a direção de arte atinge seu ápice quando permanece invisível para o espectador.

One Battle After Another

No thriller de ação One Battle After Another, dirigido por Paul Thomas Anderson, a narrativa percorre diferentes cenários da Califórnia raramente retratados no cinema. A história acompanha um revolucionário paranoico interpretado por Leonardo DiCaprio que inicia uma busca desesperada por sua filha desaparecida, vivida por Chase Infiniti.

A diretora de arte Florencia Martin explica que a principal orientação do projeto foi explorar o máximo possível de locações reais para construir uma espécie de tapeçaria visual que situasse os personagens dentro de circunstâncias verossímeis. Entre as paisagens escolhidas estão as florestas de sequoias no norte da Califórnia, onde foi criada uma casa isolada da rede elétrica com um túnel que leva a uma latrina externa.

Próximo a Santa Barbara, no parque histórico La Purísima Mission, a equipe encontrou a base para o complexo de um grupo feminino retratado no filme. Já na região próxima à fronteira com Tijuana, foram recriados campos de detenção. As filmagens também se estenderam até El Paso, no Texas, onde o apartamento do personagem de Benicio Del Toro foi construído no andar vazio acima de uma perfumaria real.

Após conduzir o público por esconderijos secretos, sociedades clandestinas e explosões, o filme culmina em uma perseguição automobilística no deserto a leste de San Diego. A região, apelidada pela equipe de River of Hills, possui estradas sinuosas que transformam a sequência final em uma corrida vertiginosa digna de montanha-russa cinematográfica.

No conjunto, os indicados deste ano revelam diferentes abordagens para a mesma missão. Criar mundos convincentes capazes de envolver o espectador sem que ele perceba o trabalho meticuloso por trás de cada parede, paisagem ou objeto. Quando isso acontece, a direção de arte cumpre seu papel com perfeição.

Previous Post

Moda no Oscar: os looks que marcaram os anos 1990

Next Post

Em Singapura, um antigo cofre bancário abriga o izakaya Barrel Story of Hibiki