CINEMA · Arquitetura | Cine Tutu
Com 114 lugares, poltronas floridas e um café-bar na entrada, a sala de Paulo Velasco abriu em 2 de outubro na Rua Girassol e já estreia no circuito da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Havia uma lacuna óbvia no repertório de Isay Weinfeld, e ela tinha a forma de uma sala de cinema. O arquiteto paulistano é reconhecido por edifícios, interiores e móveis espalhados pelo mundo, mas poucos sabem que o cinema ocupa um lugar equivalente em seus interesses. Em 1988, codirigiu o longa “Fogo e Paixão” ao lado do então sócio, Marcio Kogan, e hoje leciona expressão cinética na Fundação Armando Álvares Penteado. Quem convive com Weinfeld reconhece o brilho quase infantil em seus olhos sempre que o assunto é filme. No Cine Tutu, esse brilho está em cada detalhe.

Uma sala de bairro com roteiro próprio
Inaugurado em 2 de outubro, o cinema independente é a primeira sala de rua da Vila Madalena, bairro onde o próprio Weinfeld mantém seu escritório e assinou alguns de seus edifícios mais conhecidos. Instalado na Rua Girassol, o prédio nasceu com vocação de teatro, mas permaneceu inacabado e vazio por anos. Coube ao empresário Paulo Velasco, que desde 2014 comanda o Cinesala, na vizinha Pinheiros, devolver o imóvel à vocação cultural. Weinfeld, por sua vez, organizou a experiência como uma sequência de cenas: cada ambiente reinterpreta, à sua maneira, o ritual de ir ao cinema, longe de qualquer semelhança com o multiplex de shopping.
Barouche, o primeiro ato
A narrativa começa no nível da rua, no Barouche, café-bar de Velasco aberto a quem tem ingresso e a quem não tem. Há cafés especiais brasileiros, sanduíches, saladas, chope, vinhos e coquetelaria autoral, além de pipoca feita em pipoqueiras de balcão vintage, com um toque nostálgico e levemente amanteigado. O contraste entre aço inoxidável e madeira nativa de tom quente define a atmosfera, enquanto a vegetação tropical atrás da fachada de vidro compõe seu próprio espetáculo.

A espera como parte do espetáculo
No andar inferior, a área de espera lembra mais um lounge de coquetéis do que uma antessala. As paredes exibem pôsteres emoldurados de clássicos do cinema, e bancadas estofadas em verde-oliva se agrupam ao redor de uma coluna central. Acima, um lustre escultural, desenhado especialmente para o projeto, estende braços esguios e projeta no teto poças de luz quente. É um ambiente do qual é difícil se despedir, mesmo quando a sessão está prestes a começar.

Dentro da sala
Na sala de projeção, uma estampa floral bem-humorada, desenvolvida com a Entreposto, cobre fileiras de poltronas e chaises prototipadas à exaustão pelo estúdio de Weinfeld, conhecido pela obsessão com detalhes. Cortinas de veludo verde revestem as paredes, escondem as caixas de som e ajudam no isolamento acústico. A tecnologia, discreta ao olhar, entrega outro nível de experiência: tela de 8,9 metros de largura, projeção Christie em 4K e som Dolby 7.1.

Depois dos créditos
Quando os créditos sobem, o bar volta a ser o centro da cena, pronto para a conversa sobre os méritos, os deslizes e o desfecho do filme. Neste mês, assunto não falta: logo em seu primeiro mês de vida, o Cine Tutu entrou no circuito da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Vale observar a primeira fileira: é provável que Weinfeld esteja lá.

A lacuna no repertório de Isay Weinfeld tinha a forma de uma sala de cinema, e ele a preencheu a poucas quadras de casa. O Cine Tutu não é apenas um projeto a mais na lista do arquiteto: é o lugar onde o diretor de 1988 e o arquiteto de hoje finalmente dividem a mesma poltrona.
Serviço · Cine Tutu
- Endereço: Rua Girassol, 555, Vila Madalena, São Paulo, perto das estações Fradique Coutinho e Vila Madalena do metrô
- Sala: 114 lugares, com programação de cinema de arte, lançamentos nacionais e internacionais e mostras temáticas
- Funcionamento: todos os dias, com horários conforme a programação
- Barouche: café-bar aberto também a quem não vai à sessão
- Ingressos: no site e no aplicativo da Ingresso.com
Da redação da WAYFARER.


