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Ford desenvolve nova plataforma elétrica com foco em eficiência e acessibilidade

A história da inovação automotiva é marcada por momentos em que a engenharia precisou reinventar suas próprias premissas. Na década de 1970, a crise do petróleo obrigou fabricantes a repensar a lógica dos motores maiores e mais potentes, que consumiam mais combustível e aumentavam o custo e o peso dos veículos. Foi nesse contexto que o turbocompressor deixou de ser apenas uma tecnologia de pista e passou a transformar o mercado de massa, provando que eficiência e desempenho poderiam coexistir em um mesmo projeto.

Mais de meio século depois, a transição para a eletrificação apresenta um desafio semelhante. O foco agora não é o motor, mas a bateria, componente que representa cerca de 40% do custo total de um veículo elétrico e mais de um quarto de seu peso. A resposta tradicional da indústria tem sido aumentar o tamanho das baterias para ampliar a autonomia, mas essa solução traz implicações diretas em custo, massa e eficiência. A Ford decidiu seguir outro caminho, desenvolvendo uma nova Plataforma Universal de Veículos Elétricos baseada na premissa de extrair mais desempenho de sistemas menores, mais leves e integrados.

Segundo Alan Clarke, diretor executivo de Desenvolvimento Avançado de Veículos Elétricos da marca, a estratégia parte de uma obsessão por eficiência estrutural e energética. Em vez de simplesmente ampliar a capacidade das baterias, a engenharia busca maximizar cada quilômetro percorrido por meio da redução de peso, otimização aerodinâmica e simplificação radical dos sistemas. O objetivo é criar uma nova geração de veículos elétricos que possa competir não apenas em tecnologia, mas também em preço com modelos tradicionais a combustão.

Essa abordagem começa pela arquitetura do próprio veículo. A nova plataforma foi concebida para reduzir o número de componentes e integrar funções que, historicamente, eram tratadas como sistemas independentes. Um dos resultados mais visíveis está na redução significativa do chicote elétrico, que se tornou cerca de 1,2 quilômetro mais curto e 10 quilos mais leve em comparação com plataformas elétricas anteriores da marca. O número de módulos eletrônicos principais também caiu drasticamente, passando de mais de 30 unidades de controle para apenas cinco, simplificando a estrutura e reduzindo custos de produção e manutenção.

A eficiência também se constrói nos detalhes. Um redesenho aparentemente discreto, como a redução de mais de 20% no tamanho do corpo do espelho retrovisor, resultou em ganhos mensuráveis de autonomia, com um aumento de aproximadamente 2,4 quilômetros por carga. Essa lógica de otimização se estende a toda a estrutura, onde cada milímetro e cada grama passam a ser avaliados em função de seu impacto direto no consumo de energia e no custo total do veículo.

Para viabilizar essa transformação, a Ford criou um sistema interno conhecido como “recompensas”, uma metodologia que alinha todas as equipes de engenharia em torno de métricas comuns de eficiência e custo. Esse modelo permite que cada decisão técnica seja quantificada com precisão em termos de impacto na autonomia e no custo da bateria. Um exemplo ilustrativo mostra que um aumento de apenas um milímetro na altura do teto pode representar um custo adicional específico na bateria ou uma redução mensurável na autonomia, tornando as escolhas de design muito mais objetivas e integradas.

Outro avanço significativo está no gerenciamento de energia. A empresa passou a desenvolver internamente sua arquitetura eletrônica de potência, incorporando software próprio e sistemas projetados especificamente para maximizar a eficiência energética. Essa integração permite reduzir perdas durante o carregamento e o uso do veículo, além de ampliar a durabilidade da bateria e diminuir o custo total de propriedade ao longo do ciclo de vida do produto.

A introdução de um sistema elétrico de baixa tensão de 48 volts, aliado à capacidade de carregamento bidirecional, representa mais um passo nessa direção. Essa solução permite maior eficiência no fornecimento de energia para os sistemas auxiliares do veículo e abre novas possibilidades de integração com redes elétricas e aplicações externas, ampliando o papel do automóvel dentro do ecossistema energético.

A primeira aplicação dessa nova plataforma será uma picape elétrica de médio porte, concebida desde o início com foco em acessibilidade e eficiência. Mais do que um novo modelo, trata-se da base para uma família completa de veículos elétricos que pretende redefinir o equilíbrio entre tecnologia avançada e viabilidade econômica.

Assim como ocorreu com a introdução dos motores EcoBoost na linha F-150, iniciativa que inicialmente encontrou ceticismo e depois se consolidou como padrão da indústria, a Ford aposta que essa nova arquitetura poderá alterar profundamente o panorama da mobilidade elétrica. Ao priorizar eficiência sistêmica em vez de soluções incrementais, a marca busca acelerar a transição para veículos elétricos mais leves, inteligentes e acessíveis, aproximando a eletrificação de um público significativamente mais amplo e consolidando uma nova fase na evolução do automóvel.

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