Há carros de corrida que transcendem sua função original e se transformam em marcos culturais. O Lotus 98T de 1986 pilotado por Ayrton Senna pertence a essa categoria rara. Mais do que um monoposto competitivo, ele sintetiza uma era da Fórmula 1 em que potência bruta, ousadia técnica e talento humano conviviam no limite. Agora, o chassi 98T-3 surge no mercado com estimativa entre US$ 9,5 milhões e US$ 12 milhões, em leilão conduzido pela RM Sotheby’s.

Considerado um dos maiores pilotos da história da categoria, Senna construiu parte de sua mística justamente na segunda metade dos anos 1980, período em que demonstrava uma combinação quase intuitiva de agressividade e precisão. Em 1986, ao volante do 98T, venceu duas corridas, conquistou cinco pole positions e garantiu três pódios. Resultados que, embora não tenham lhe rendido o título naquela temporada vencida por Alain Prost, consolidaram sua reputação como mestre das voltas rápidas e das condições extremas.
O Lotus 98T ficou marcado também por ser o último Fórmula 1 a ostentar a icônica pintura preta e dourada da John Player Special, estética que se tornou sinônimo de sofisticação e poder nas pistas. Sob a carroceria elegante, um motor V6 turbo de 1,5 litro cuja potência exata permanece envolta em lenda. Estimativas indicam números superiores a 1.000 cavalos em configuração de classificação, com diferenças de até 300 cavalos entre o ajuste de corrida e o de tomada de tempo, algo que ultrapassava os limites de medição dos dinamômetros da época.

O exemplar oferecido é um dos quatro construídos naquele ano e, segundo a casa de leilões, foi conduzido exclusivamente por Senna nas primeiras provas da temporada de 1986. Após ser vendido pela Lotus em 1988, o carro passou por colecionadores de destaque até ser adquirido pelo atual proprietário em 2016. Desde então, foi submetido a uma restauração completa, com documentação detalhada de procedência e intervenção técnica.
Há ainda um detalhe que amplia o fascínio em torno do lote. A RM Sotheby’s afirma que o 98T está pronto para retornar às pistas. A possibilidade de ver novamente em movimento um dos carros mais extremos da era turbo é sedutora, embora improvável diante de sua valorização histórica e financeira.

Mais do que cifras, o leilão coloca em evidência um capítulo decisivo da Fórmula 1. O Lotus 98T simboliza um momento em que não havia limites claros para a engenharia e em que pilotos como Senna exploravam cada centímetro do traçado com intensidade absoluta. Ao cruzar o bloco, ele não carrega apenas potência e carbono, mas a memória de uma geração que redefiniu o que significava correr.