Sabores defumados que saem da grelha ainda crepitando, hospitalidade italiana em sua forma mais clássica e um bistrô britânico de escala intimista definem o ritmo das novas aberturas na capital inglesa. No século 21, Londres consolida sua posição como uma das grandes capitais gastronômicas do mundo, onde chefs locais disputam endereços cobiçados com nomes consagrados do cenário internacional.
Aqui, praticamente todas as cozinhas do planeta encontram representação, muitas vezes ancoradas em ingredientes britânicos sazonais, de carnes orgânicas a peixes de pesca sustentável e vegetais cultivados em sistemas regenerativos. Mas a experiência vai além do prato. Arquitetos e designers trabalham lado a lado com os cozinheiros para criar ambientes que dialogam com o menu, transformando cada novo endereço em um manifesto estético.
A seguir, uma curadoria das aberturas mais instigantes do início de 2026.
Impala
À frente do cultuado Kiln por seis anos, o chef londrino Meedu Saad estreia em voo solo com o Impala, no Soho. O nome é uma referência afetiva ao Chevrolet vermelho-cereja que marcou as férias de família no Egito, memória que ecoa em um cardápio que expande horizontes além da Tailândia e percorre o Norte da África e influências do norte de Londres.

O restaurante ocupa um edifício dos anos 1960 com pilares de concreto e iluminação zenital. A atmosfera ganha sofisticação com um projeto luminotécnico inspirado nas criações de Carlo Mollino na Casa Orengo, em Turim.
Entre os pratos, destaca-se o pato maturado recheado com limões negros e pimentas de Aswan, assado sobre brasas de madeira e finalizado com melaço. Uma síntese intensa e pessoal que reafirma o Soho como território de experiências autorais.
Sale e Pepe Mare no The Langham London
Aberto originalmente em 1974, o Sale e Pepe consolidou-se como um bastião da hospitalidade italiana em Knightsbridge. Agora, surge um desdobramento dedicado aos frutos do mar, instalado na elegante sala envidraçada do The Langham London.

O ambiente preserva a atmosfera clássica, com painéis de madeira, bar de mármore e estofados de textura rica. Há um charme deliberadamente nostálgico no serviço de salão, que inclui salada Caesar preparada à mesa e carrinhos de sobremesa circulando entre as mesas.
No centro da sala, uma vitrine exibe a pesca do dia. Lagosta envolta em linguine com tomate datterino e manjericão ou um linguado inteiro preparado na grelha Josper revelam a confiança de uma casa que acredita na força das tradições.
Teal by Sally Abé
Após comandar cozinhas de destaque como The Pem, no Conrad London St James, e o premiado pub Harwood Arms, Sally Abé inaugura seu primeiro restaurante solo em Hackney. O nome Teal remete à ave de caça britânica e sublinha o compromisso com ingredientes locais e sustentáveis.

O projeto, desenvolvido com a irmã Alice, propõe uma leitura feminina do bistrô britânico, com cadeiras de madeira curvada, banquetas em couro amarelo-mostarda e obras que evocam marchas pelos direitos das mulheres.
No menu, a nostalgia sazonal guia escolhas como perna de veado com nozes em conserva e cavolo nero, além de um sanduíche de sorvete de marmelada. Abé cozinha segundo suas próprias convicções, celebrando a tradição britânica com liberdade e rigor técnico.
Jul’s
Sucesso em Ibiza desde 2018, o Jul’s ocupa agora um antigo banco em St James’s. Sob o comando do chef grego Christos Fotos, a casa traz forte influência helênica tanto na arquitetura quanto na cozinha.

O edifício histórico foi reinterpretado com mármore, mosaicos e madeira queimada, em um jogo dramático de luz e sombra. Uma imponente parede de vinhos percorre o pé-direito, enquanto o bar subterrâneo funciona como laboratório de coquetelaria.
O cardápio percorre o Mediterrâneo com sotaque britânico sazonal, incluindo flatbread giouvetsi com cordeiro cozido lentamente e peixes grelhados no fogo aberto.
Osteria Vibrato
O sommelier Charlie Mellor retorna ao Soho com a Osteria Vibrato, ao lado de Cameron Dewar. O nome evoca a técnica musical que produz um timbre mais rico, referência tanto ao passado lírico de Mellor quanto à herança musical do bairro.

A sala combina toalhas creme, iluminação à vela, banquetas em couro vermelho exclusivo e piso de terrazzo. Lustres de Murano e um sistema de som que toca a coleção pessoal de discos do proprietário criam uma atmosfera envolvente.
Na cozinha, a influência de Gaia Enria se traduz em mozzarella fior di latte preparada diariamente, massas frescas abertas todas as manhãs e amaretti assados sob demanda. Um retorno elegante e afinado ao cenário londrino.
Temaki
Após conquistar o público no Brixton Market, o Temaki muda-se para Mayfair com espaço ampliado. A proposta de A.M. Dupee combina técnica japonesa com sensibilidade californiana.

Distribuído em dois níveis, o restaurante oferece um balcão intimista no andar superior e, abaixo, um ambiente inspirado nos listening bars japoneses.
Os handrolls permanecem centrais, agora acompanhados por arroz crocante com cortes premium de peixe, sliders de wagyu A4 e uma carta de saquês, vinhos e coquetéis precisos.
Tiella
Nascida na Emilia-Romagna e criada na Nova Zelândia, Dara Klein consolida o Tiella em endereço fixo em Bethnal Green, após residência de sucesso em Islington.

O ambiente preserva traços vitorianos combinados a cadeiras G-Plan e mobiliário de designers locais. A cozinha privilegia conforto e memória afetiva, com passatelli in brodo e milanesa de frango com maçã verde e ervas.
DakaDaka
A Geórgia, berço ancestral do vinho, ganha interpretação contemporânea no DakaDaka, próximo à Regent Street. O chef Mitz Vora imprime modernidade à tradição caucasiana.

O projeto valoriza argila artesanal, calcário, madeira entalhada e um grill a carvão em fogo aberto que estrutura boa parte do cardápio. Khachapuri em duas versões, khinkali e carnes defumadas compõem uma experiência que reafirma a força dessa culinária milenar.
Cato
Em Covent Garden, Angelos Bafas resgata a memória de Cato Alexander, ex-escravizado que abriu seu próprio bar em Manhattan no século 19.

O espaço divide-se entre o House of Julep, no térreo, inspirado em tavernas nova-iorquinas, e o bar subterrâneo Cato, onde 14 coquetéis guiados por cores são servidos em ambiente de madeira, veludo e aço.
Os mint juleps preparados com ervas cultivadas no local e petiscos de inspiração americana, como ostras fritas e sanduíche de pastrami, reforçam a atenção aos detalhes.
Em constante reinvenção, Londres reafirma sua vitalidade gastronômica ao combinar tradição e experimentação. Entre brasa, massa fresca, pães recheados e coquetéis elaborados, a cidade confirma que comer bem aqui também é um exercício de estilo e visão.