A temporada de moda mais cara, mais espetacular e menos compreendida do calendário existe há mais de um século, e nunca foi tão relevante.
Em dezembro, as vitrines das melhores lojas do mundo estão tomadas por linho, prints tropicais e sandálias de tiras douradas. É verão em algum lugar do planeta, e no calendário da alta moda, esse algum lugar sempre existiu. Chama-se Resort.
O nome confunde. A temporada não é de verão nem de inverno, não coincide com nenhum equinócio e chega às araras quando o tempo ainda pede casaco em metade do hemisfério norte. Mas isso, paradoxalmente, é exatamente o ponto.
“A coleção Resort não é uma estação do ano. É uma classe social com passaporte vigente.”
Uma história que começa em um navio

No início do século XX, a elite americana tinha um hábito bem documentado: embarcar em cruzeiros ao Mediterrâneo ou se instalar em Palm Beach durante os meses de inverno. Não eram viagens de fim de semana: eram expedições sociais de meses, com agenda de almoços no convés, excursões em portos e jantares que exigiam algo entre o casual e o formal.
O guarda-roupa padrão não dava conta. Gabrielle Coco Chanel costuma ser apontada como a primeira a enxergar a brecha, vestindo com vestidos leves e malhas as mulheres que passavam as férias em Biarritz e na Riviera. Nascia, ali, a ideia que daria origem à Cruise (ou Resort) collection.
Ao longo do século XX, outras maisons adotaram o formato. As coleções chegavam às lojas sem passarela e sem imprensa, apresentadas apenas a compradoras. Só nos anos 2000 o resort ganhou runway: Chanel, Dior e Louis Vuitton transformaram as apresentações em eventos globais com destinos cinematográficos. Hoje, a temporada Cruise rivaliza com as fashion weeks em cobertura e impacto cultural. Alguns a consideram mais importante.
Resort, Cruise, Croisière: tudo a mesma coisa

Os nomes variam conforme a maison e o mercado. Resort é o termo americano. Cruise, o preferido pela imprensa internacional. Croisière, o francês: mais poético, mais Chanel. Holiday collection aparece eventualmente. Pre-Spring também. São intercambiáveis: todos descrevem a coleção que chega às lojas entre novembro e janeiro, preenchendo o intervalo entre o outono-inverno e a primavera-verão.
Para entender de vez, o calendário de moda funciona de forma contraintuitiva: roupas de verão chegam às lojas no inverno, e vice-versa. A coleção Resort (pensada para climas quentes) é entregue entre novembro e janeiro, justamente quando o frio chega ao hemisfério norte. Não é um erro de logística. É a lógica de um mercado que vende antecipação.
Quando a passarela vira destino

A temporada Cruise 2026, apresentada na primavera europeia de 2025, foi quase inteiramente italiana. Chanel abriu as apresentações em 29 de abril, à beira do Lago di Como, na Villa d’Este. Gucci fez seu retorno às origens em Florença, em meados de maio, no Palazzo Settimanni, prédio do século XV que abriga seus arquivos, com uma coleção assinada pelo estúdio interno após a saída de Sabato De Sarno. Louis Vuitton levou o desfile ao Palais des Papes, em Avignon, em 22 de maio, e Dior foi a Roma em 27 de maio. Max Mara encerrou a temporada em 17 de junho, no Palácio Real de Caserta, perto de Nápoles.
Villa d’Este, Lago di Como
CHANEL
Abertura da temporada. A maison pioneira do formato apresentou a coleção à beira do lago mais fotografado da Itália.
Palais des Papes, Avignon
LOUIS VUITTON
Nicolas Ghesquière transformou a antiga sede papal em cenário de maximalismo medieval: paletas rock-glam, malhas coloridas e botas cravejadas.
Villa Albani Torlonia, Roma
DIOR
Maria Grazia Chiuri homenageou sua cidade natal com silhuetas renascentistas em ouro, gaze e veludo, e um curta de Matteo Garrone.
Palácio Real, Caserta
MAX MARA
Encerramento cinematográfico da temporada, em 17 de junho de 2025, em um dos maiores palácios barrocos da Europa. Elegância italiana com a precisão de sempre.
Por que isso importa · e o que vem a seguir

Durante décadas, o Resort foi tratado como apêndice do calendário: coleções menores, apresentadas em showrooms, sem cerimônia. Essa era terminou. Os eventos viram notícia, os destinos viram desejo.
Há também uma lógica comercial difícil de ignorar: as coleções inter-temporada ficam mais tempo nas lojas do que as linhas principais e tendem a ser mais usáveis, mais versáteis, mais vendáveis. O espetáculo da passarela esconde, no fundo, um exercício preciso de gestão de receita.
“O que parece um desfile é, na verdade, uma operação financeira vestida de fantasia.”
Na temporada Cruise 2027, apresentada em 2026, o mapa virou para o oeste. Matthieu Blazy estreou sua primeira coleção Cruise para a Chanel em 28 de abril, no Casino Municipal de Biarritz, devolvendo a maison à cidade onde a ideia de guarda-roupa de férias tomou forma. Dior seguiu em 13 de maio, no Los Angeles County Museum of Art; Gucci desfilou na Times Square em 16 de maio; Louis Vuitton escolheu a Frick Collection, em Nova York, em 20 de maio. Max Mara foi para o leste, ao Long Museum West Bund, em Xangai, em junho.
O que começou como um serviço para mulheres ricas em cruzeiros de inverno tornou-se, ao longo de um século, a temporada mais livre, mais espetacular e, paradoxalmente, mais comercial da moda. Resort não tem regras de calendário nem de localização. Tem apenas um mandato: fazer o mundo parecer um lugar para o qual vale a pena comprar roupas novas.


