
Ramatuelle, oito da manhã. O jardim ainda está molhado, a baía está vazia e a casa que Jean Castel abriu em 1959 continua fazendo o que sempre fez melhor: nada de mais.
Há lugares que visitamos pelo que oferecem e outros que permanecem conosco pela maneira como nos fazem sentir. Na minha última temporada em Saint-Tropez, um desses lugares foi o Épi, refúgio discreto entre a vegetação e o mar de Pampelonne, em Ramatuelle.
A chegada já avisa o que vem pela frente. Não existe portaria monumental, nem alameda de palmeiras encenando importância, nem o momento fotográfico calculado que virou obrigação em quase todo hotel de praia do Mediterrâneo. Existe um caminho de terra batida, pinheiros, o cheiro de resina aquecida pelo sol da tarde e uma placa pequena o suficiente para exigir atenção. Cinco minutos depois de deixar a estrada, a Riviera barulhenta simplesmente deixa de existir. É um truque difícil de executar e ainda mais difícil de sustentar por seis décadas.
Venezianas de madeira, vegetação e a piscina logo adiante: o terraço de um dos bungalows.Uma casa fundada sobre a ideia de liberdade
1959, Jean Castel e a outra Saint-Tropez
Fundado em 1959 por Jean Castel, figura emblemática da noite parisiense, o Épi nasceu com uma filosofia que continua surpreendentemente atual: liberdade. Nos anos 1960, tornou-se refúgio de nomes como Brigitte Bardot, Catherine Deneuve, Alain Delon, Audrey Hepburn e Serge Gainsbourg, que encontravam ali um lugar para escapar dos olhares e das multidões da Riviera.
Vale lembrar o que era Saint-Tropez naquele momento. O vilarejo de pescadores tinha acabado de ser transformado em mito pelo cinema, os fotógrafos já cercavam o porto e a fama chegava mais rápido do que a infraestrutura. Castel entendeu antes de todo mundo que o valor real não estava em ser visto, e sim em ter para onde ir depois de ser visto. O Épi foi construído como esse lugar: uma casa entre a duna e o pinhal, onde ninguém precisava explicar quem era.
O Épi nasceu com uma filosofia que continua surpreendentemente atual: liberdade.
Luísa Rodas
Sob a família McCourt, proprietária desde 2018, a casa passou por uma reforma conduzida pela designer de interiores Monica Damonte e pelo paisagista Madison Cox. O resultado é uma restauração que preserva a linguagem original, madeira, cal e vegetação, em vez de empurrar o endereço na direção de um resort. Mais de seis décadas depois, é justamente essa atmosfera que continua tornando o Épi tão particular.
Reformar um lugar assim é mais arriscado do que construir do zero. A tentação de aumentar o número de quartos, envidraçar o restaurante e transformar a piscina em palco existe em qualquer conta de retorno sobre investimento. O que se vê no Épi é a decisão oposta, tomada de forma consciente: menos volume, mais densidade. A mão de Cox aparece na maneira como o jardim organiza a circulação sem cercas nem sinalização, conduzindo o hóspede por sombra, textura e perfume. A de Damonte aparece na contenção do interior, onde nada compete com a janela.
A cronologia de uma casa que resistiu à própria fama
Jean Castel funda o Épi na Baía de Pampelonne, quando Saint-Tropez ainda descobria a própria lenda.
Bardot, Deneuve, Delon, Hepburn e Gainsbourg adotam a casa como escapatória dos fotógrafos do porto.
A família McCourt assume a propriedade e começa um restauro que decide preservar em vez de ampliar.
Nove bungalows, interiores de Monica Damonte, jardins de Madison Cox e o restaurante aberto a não hóspedes.
Nove bungalows, nenhuma pressa
Madeira clara, tecidos crus, ducha externa
São apenas nove bungalows à beira-mar, cercados por jardins e resolvidos com materiais naturais, madeira clara, tecidos crus e tons de areia. Cada um tem terraço próprio e ducha externa, o que aproxima a experiência muito mais de uma casa de verão bem resolvida do que de um hotel tradicional.
Os tetos em madeira aparente, as venezianas de correr e a luz filtrada pela vegetação fazem o trabalho que decoração nenhuma faz sozinha: devolvem escala humana ao dia. Não há corredores, não há lobby, não há a coreografia habitual de um hotel de praia na Côte d’Azur. A porta abre para fora, não para dentro, e essa inversão muda o comportamento de quem se hospeda. Você passa a viver no terraço, com a mesma naturalidade com que viveria na varanda de uma casa emprestada por um amigo.
Nove quartos também significam nove conversas por dia, no máximo. A equipe aprende seu nome na primeira manhã, o horário do café na segunda e o resto sem que você precise pedir. Em um mercado que confunde serviço com protocolo, essa economia de gestos é o que separa um hotel bom de um hotel memorável. E é o motivo pelo qual endereços dessa escala se sustentam com tarifas altas sem parecer caros: o custo se dilui na sensação de que o lugar é seu.
Os bungalows do Épi 1959 têm teto em madeira aparente e abrem direto para o terraço privativo.A piscina de mosaicos azuis
Para mim, uma das grandes protagonistas do Épi é sua piscina de mosaicos azuis. São duas piscinas de 21 metros de água doce, e a mais emblemática faz parte da própria história do lugar, com as espreguiçadeiras listradas em rosa e branco e os guarda-sóis que viraram assinatura visual da Baía de Pampelonne. Foi a minha piscina favorita desta temporada em Saint-Tropez.
O azul do mosaico tem alguma coisa de pintura, não de arquitetura. Ele muda ao longo do dia, escurece por volta das seis da tarde e devolve à água uma profundidade que os revestimentos claros e contemporâneos eliminaram por completo. Somado ao rosa das listras, forma uma paleta que hoje seria considerada ousada demais para um projeto novo e que, ali, é simplesmente herança. Ninguém precisou inventar uma identidade visual: ela já existia, e teve o bom senso de não ser apagada.
Vinte e um metros também são uma medida honesta. Dá para nadar de verdade, coisa rara em hotel de praia, onde a piscina costuma ser cenário. No fim da manhã, quando quase todo mundo já migrou para a areia, a piscina fica vazia por uma hora inteira. Essa hora é o melhor programa da casa e não está em nenhum material de divulgação.
Espreguiçadeiras e guarda-sóis listrados em rosa e branco, entre as duas piscinas de 21 metros.Pampelonne, vista de dentro
A baía que fez a reputação de Saint-Tropez
Convém situar o Épi no mapa emocional da região. A Baía de Pampelonne é o trecho de areia que fez a reputação de Saint-Tropez, a poucos quilômetros do centro histórico e ainda assim em outro município, Ramatuelle. É ali que se concentram os clubes de praia que definiram o verão europeu por décadas, com seus rosés gelados, suas listas de espera e sua liturgia de ver e ser visto. Nada disso desapareceu, e não há por que fingir o contrário.
O que mudou foi a régua. Depois da regulamentação ambiental que reorganizou as concessões da orla, a baía passou por uma limpeza silenciosa de excessos, e a conversa começou a se deslocar do volume para a qualidade. Nesse novo desenho, o Épi ocupa uma posição estratégica quase invejável: está no centro geográfico do mito e fora do seu centro de gravidade social. Você tem a praia a alguns passos e a opção legítima de nunca sair do jardim.
Para quem viaja com agenda, isso é mais valioso do que parece. Saint-Tropez é um destino que cobra energia. Almoçar em um clube de praia é um evento, jantar no porto é outro, e a soma dos dois consome o dia inteiro. Ter uma base tranquila muda a matemática da viagem e permite escolher em quais dias você entra no jogo e em quais dias você apenas assiste.
Tênis, pilates e o resto do dia
Bem-estar sem programa obrigatório
O bem-estar entra na experiência sem virar programa obrigatório. Há duas quadras de saibro sintético do clube de tênis assinado por John McEnroe, áreas de fitness internas e ao ar livre, Pilates Reformer, spa com tratamentos Biologique Recherche, yoga com vista para o Mediterrâneo, bicicletas elétricas e esportes náuticos.
A parte mais interessante é a que não aparece nas fotos: nada disso é empurrado. Não existe anfitrião de bem-estar circulando com prancheta, nem aquela pressão discreta para preencher a manhã com atividades pagas. As quadras estão ali, o Reformer está ali, e cabe a você decidir. Treinar sob os toldos, com o vento vindo do mar e a estrutura original de vigas de madeira acima da cabeça, é uma experiência bem mais agradável do que qualquer academia envidraçada com vista panorâmica.
Abrir a mesa para fora cria receita, repertório e relevância local. Feito sem controle, custa exatamente aquilo que atrai o hóspede.
Sobre o restaurante de Paolo Amadori
O restaurante, sob comando do chef italiano Paolo Amadori, passou a receber também quem não está hospedado, mediante reserva, o que ampliou a vida social da casa sem comprometer a discrição que a define. É uma decisão comercial inteligente e delicada ao mesmo tempo. Abrir a mesa para fora cria receita, cria repertório e cria relevância local, três coisas que um hotel de nove quartos não conseguiria sustentar sozinho. No Épi, o filtro é a reserva, e a escala do salão faz o resto.
A cozinha acompanha o raciocínio da casa. É italiana de origem, mediterrânea de execução e voltada para produto, com o tipo de simplicidade que só funciona quando o ingrediente é impecável. Não é uma mesa que busca estrelas, é uma mesa que busca ser frequentada.
A hospitalidade se mede nos detalhes
Viajando com a Fluffy
Outro ponto que me conquistou foi a hospitalidade. Viajo muito com a Fluffy e existe uma diferença enorme entre um hotel que simplesmente aceita cachorros e um lugar que realmente os recebe. No Épi, ela foi tratada como hóspede, com menu próprio pensado para os cães e trânsito livre pelos jardins.
Parece um detalhe pequeno e não é. A política de pets é um dos indicadores mais confiáveis da cultura interna de um hotel, porque expõe a distância entre o que está escrito na política comercial e o que a equipe realmente pensa sobre receber. Onde o cachorro é tolerado, o hóspede também é, só que com mais educação. Onde o cachorro é bem-vindo, existe uma casa de verdade por trás da operação.
A casa em sete imagens
Ficha técnica
01Identidade
- Nome
- Épi 1959
- Localização
- Baie de Pampelonne, Ramatuelle, França
- Fundação
- 1959, por Jean Castel
- Proprietários
- Família McCourt, desde 2018
- Projeto
- Monica Damonte (interiores) e Madison Cox (paisagismo)
02Acomodações
- Quartos
- Nove bungalows à beira-mar
- Cada bungalow
- Terraço privativo, ducha externa, teto em madeira aparente e venezianas de correr
- Materiais
- Madeira clara, tecidos crus e tons de areia
- Piscinas
- Duas, de água doce, com 21 metros cada, uma delas em mosaico azul
03Mesa e bem-estar
- Restaurante
- Cozinha italiana sob comando do chef Paolo Amadori, aberta também a não hóspedes mediante reserva
- Spa
- Tratamentos Biologique Recherche
- Movimento
- Pilates Reformer, yoga com vista para o Mediterrâneo, fitness interno e ao ar livre
- Esportes
- Duas quadras de saibro sintético no clube de tênis assinado por John McEnroe, bicicletas elétricas e esportes náuticos
04Bom saber
- Pets
- Cães bem-vindos, com menu próprio e circulação livre pelos jardins
- Perfil
- Casais e famílias pequenas que procuram privacidade em vez de vida de clube de praia
- Site
- epi1959.com
- @epipampelonne
Entre o pinhal de Ramatuelle e a areia de Pampelonne
O Épi fica na Baie de Pampelonne, no município de Ramatuelle, a poucos quilômetros do centro histórico de Saint-Tropez. A praia está a alguns passos do jardim, o porto fica perto o bastante para um jantar e longe o bastante para não interferir na manhã seguinte.
Mapa esquemático, sem escala. Ver no Google Maps
Uma outra Riviera
O veredito
Saint-Tropez sempre terá suas festas, seus barcos e seus endereços icônicos. O Épi propõe outra Riviera: mais íntima, mais lenta, menos interessada em ser vista. Em um destino historicamente associado ao excesso, encontrei ali algo cada vez mais raro de vender e quase impossível de improvisar: privacidade, liberdade e simplicidade.
Há uma leitura de mercado embutida nessa escolha. A hotelaria de luxo europeia passou os últimos anos aumentando o número de pontos de contato, de rituais e de assinaturas, na crença de que sofisticação se acumula. O Épi aposta na direção contrária e acerta, porque entendeu que o hóspede que pode escolher qualquer lugar do mundo já não quer ser impressionado, quer ser deixado em paz com competência.
É o tipo de hotel que não tenta impressionar no check-in e que, exatamente por isso, continua na sua cabeça semanas depois. Talvez seja isso que defina o verdadeiro luxo hoje. Voltaria em julho, no mesmo bungalow, com a mesma cachorra e sem plano nenhum para o dia seguinte.
Épi 1959, Baie de Pampelonne, em Ramatuelle. Mais informações em epi1959.com e no Instagram @epipampelonne.
Texto de Luísa Rodas · Fotos: divulgação Épi 1959


