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Sebastião Salgado, Mirella Ricciardi e o livro que mudou um olhar

Um presente de Lélia levou Sebastião Salgado da economia à fotografia. Em “A Elegância do Olhar”, a Galeria Mario Cohen coloca lado a lado o fotógrafo e a autora do livro que o convenceu, com imagens de Mirella Ricciardi inéditas no Brasil.
Imagens da exposição A Elegância do Olhar, de Sebastião Salgado e Mirella Ricciardi Imagens da exposição A Elegância do Olhar, de Sebastião Salgado e Mirella Ricciardi
Divulgação Galeria Mario Cohen
Mulher Turkana equilibra uma cuia de madeira na cabeça ao caminhar entre camelos, fotografia de Mirella Ricciardi

Arte · Jardim Europa, São Paulo

O livro que mudou um olhar

Na Galeria Mario Cohen, “A Elegância do Olhar” coloca Sebastião Salgado diante da fotógrafa que o fez trocar a economia pela câmera. Mirella Ricciardi chega com imagens inéditas no Brasil.

Texto Redação WAYFARERFotos Galeria Mario Cohen / Divulgação29 de setembro a 11 de novembro

Algumas carreiras começam com um diploma. A de Sebastião Salgado começou com um presente.

No início dos anos 1970, Lélia Wanick Salgado deu ao marido um exemplar de Vanishing Africa, livro da fotógrafa queniano-italiana Mirella Ricciardi. Salgado era economista. Depois daquelas páginas, deixou de ser. Décadas mais tarde, já consagrado, atendeu um telefonema inesperado: do outro lado da linha estava a própria Ricciardi.

Dois livros na mesma sala

É desse encontro que nasce “A Elegância do Olhar”, exposição com curadoria de Lilian Pacce que abre em 29 de setembro na Galeria Mario Cohen, no Jardim Europa. São 17 fotografias que colocam em diálogo dois livros: Amazônia, de Salgado, e Vanishing Africa, de Ricciardi. Parte das imagens dela nunca foi exibida no Brasil.

A montagem aposta nas rimas. A menina Marubo sentada sobre um pote de cerâmica na floresta carrega a mesma majestade da mulher Turkana que atravessa o deserto com uma cuia de madeira equilibrada na cabeça, em busca de água. Nos estúdios improvisados de Salgado na mata, o retratado toma a câmera como espaço de afirmação. Nas imagens de Ricciardi, a intimidade com o território transforma cada gesto em narrativa.

“Embora a linguagem dos dois se aproxime em muitos pontos, a identidade autoral de cada um é evidente”, escreve Pacce no texto curatorial. O que a mostra sublinha é a elegância que já estava ali, no caminhar, no adorno, na relação de cada pessoa com a própria terra. As composições flertam com a gramática do editorial de moda, sem transformar ninguém em modelo.

Ele disse que minhas fotos tinham um toque feminino, em contraste com o toque masculino das suas.

Mirella Ricciardi, sobre Sebastião Salgado

Ricciardi admite que nunca perguntou a Salgado o que exatamente o atraiu em seu trabalho. A exposição, de certa forma, responde por ela. Lado a lado, as duas obras revelam uma afinidade que atravessou meio século e dois continentes sem precisar de muitas palavras.

Vinte e cinco anos, um só tema

A mostra também marca os 25 anos da galeria. Em 2001, Mario Cohen ocupou uma pequena sala no andar de baixo de seu escritório em Copacabana e abriu a Pequena Galeria 18, dedicada à fotografia como expressão artística e guiada por uma ideia simples: moda, antes de tudo, é elegância. Hoje em São Paulo, a galeria segue fiel ao recorte. “Esta mostra representa, de forma plena, aquilo que sempre buscamos: a verdadeira elegância”, diz Cohen.

Poucas galerias escolhem um único tema e o sustentam por um quarto de século. Voltar às origens com Salgado e Ricciardi é a forma mais precisa de comemorar.

Um livro passou de mãos em mãos no começo dos anos 1970 e mudou o destino de um economista. Cinco décadas depois, o fotógrafo e a autora daquelas páginas dividem as mesmas paredes em São Paulo. Há presentes que levam uma vida inteira para serem abertos.

A Elegância do Olhar, de Sebastião Salgado e Mirella Ricciardi. Curadoria de Lilian Pacce.
Galeria Mario Cohen, Rua Capitão Francisco Padilha, 69, Jardim Europa, São Paulo.
De 29 de setembro a 11 de novembro. Terças a quintas, das 14h às 18h. Sextas, das 11h às 18h. Sábados, das 11h às 16h.

Redação WAYFARER

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