WAYFARER · ARTE | Goiânia
Há casas que só revelam quem as habitou depois que todos saíram.
É nesse intervalo que Lilian Camelli trabalha. Em Ruídos do Silêncio, individual que abre em 6 de outubro na Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, a pintora paraguaia radicada em São Paulo reúne interiores domésticos e cenas de aparente banalidade: quartos, corredores, paredes, janelas, um vestido no varal. Nada acontece nessas telas. Tudo parece prestes a acontecer, ou ter acabado de acontecer.

Em El labirinto II, uma porta se abre para outra porta, e a casa parece não terminar. A pintura é plana de propósito. O piso sobe em direção ao olho, as paredes chegam quase sem sombra e o enquadramento corta os móveis pela metade, como se o quadro tivesse sido feito da soleira, sem decidir entrar. As cores são de casa antiga: rosa desbotado com batentes verde-água, azulejo azul-petróleo, vermelho de sala de jantar, o branco amarelado de lençol guardado. A trama da tela aparece sob a tinta e dá às superfícies um aspecto de tecido gasto, mais lembrado do que observado.
Os títulos, quase sempre em espanhol, funcionam como inventário: La silla del fondo, El mueble verde, La cortina III, Papel de pared, El cuarto de María. Nomeiam o objeto e deixam a história de fora. É nessa economia que a exposição encontra seu tema, uma dramaturgia sem atores em que cadeira, cortina e cama carregam o que costumamos atribuir ao corpo: espera, desejo, memória, inquietação.
O curador Danilo Garcia lê a mostra justamente no limiar entre o que está e o que se foi. Para ele, a intimidade de Camelli chega de forma fragmentária e parcialmente inacessível, e quanto menos a imagem explica, mais espaço sobra para o visitante construir a própria leitura. As telas oferecem indícios e preservam as lacunas, e o que fica fora do quadro pesa tanto quanto o que está diante dos olhos.
A individual ocupa a Sala Sebastião Barbosa e integra a programação de outubro da Vila Cultural, que abre três exposições simultâneas, todas com entrada gratuita.
De Ypacaraí a São Paulo
Camelli nasceu em 1958 em Ypacaraí, cidade da região central do Paraguai que divide o nome com o lago vizinho, e vive em São Paulo desde 1983. Chegou à pintura tarde, por volta de 2009, já adulta. A primeira tela foi um retrato da avó, pintado a partir de uma fotografia. Vieram depois os pais, os antepassados, os parentes, um álbum de família refeito à mão, e até hoje fotografia e memória são o ponto de partida do trabalho.
Com os anos, as pessoas saíram de cena e os cômodos ficaram. A mesa, a cadeira encostada na parede, o lavatório, o tapete estampado e a cortina levantada pelo vento compõem uma casa paraguaia que talvez já não exista, reconstruída com a precisão afetiva de quem lembra mais do que viu. Quando a figura volta, é por sugestão: três vestidos brancos num varal noturno, em El vestidito colgado, acesos contra o azul como se ainda guardassem a forma de quem os usou.

Os Fragmentos
O núcleo mais consistente da produção recente está nos Fragmentos, telas de 24 por 18 centímetros que Camelli numera desde a década passada e que já passam de 170. O formato pequeno obriga o visitante a se aproximar, e cada peça funciona como recorte: um canto de parede, um trecho de piso, a quina de um móvel que escapa pela borda. Em Fragmento 165, o verde-água da parede encontra um calçamento de pedras desenhado com traço escuro, e um único volume marrom à direita basta para sugerir que alguém vai sentar ali, ou acabou de levantar.

Dentro da série, os cavalinhos formam um capítulo à parte. São brinquedos de madeira, figuras de carrossel ou de móbile, suspensos por fios sobre campos de cor chapada, e trazem a infância de forma mais direta que um retrato. Vistos em conjunto, os Fragmentos explicam o método da artista melhor do que qualquer tela isolada. A curadora Vera Novis, que assinou a individual Tempos idos e vividos na Galeria Estação, em 2018, foi precisa: “A repetição obsessiva em Lilian é a afirmação da sua busca.”

A renda como linguagem
Nos trabalhos mais recentes, Camelli volta à origem por outro caminho. A série Ñandutí parte da renda tradicional paraguaia, cujo nome em guarani quer dizer teia de aranha, e converte o desenho radial do bordado em matéria pictórica: telas riscadas com caneta branca, ñandutís recortados e sobrepostos, desenhos em pena de prata sobre aquarela. O ofício doméstico da renda, passado entre gerações de mulheres, encontra aqui a mesma economia dos interiores, poucos elementos e muito tempo de trabalho.
Trajetória
Camelli esteve nas Bienais de Asunción de 2015 e 2017 e na Bienal das Artes do Sesc, e expôs em coletivas no Paraguai, no Brasil e na Espanha. Entre as individuais estão Encruzilhada, na Galeria Pilar, em 2023, sua primeira mostra dedicada à abstração; e Soledades, em 2024, no Centro Cultural Manzana de la Rivera, em Asunción. Suas obras integram acervos públicos no Paraguai, no Brasil, no Canadá e em Cuba.
No Paraguai, o pesquisador Fernando Colmán a chamou de “la artesana del silencio”, e o título da mostra goiana conversa diretamente com essa definição. Em São Paulo, Camelli é representada pela Galeria Contempo, na Alameda Gabriel Monteiro da Silva.
Ruídos do Silêncio leva a Goiânia uma pintora que tem circulado sobretudo entre São Paulo e Asunción, e cuja obra ganha força no conjunto. Isolada, uma tela de Camelli pode parecer apenas um quarto bem pintado. Lado a lado, os cômodos começam a conversar, os objetos se repetem, as portas se abrem para outras portas, e a casa inteira se monta na cabeça de quem percorre a sala. Só então se entende que as pessoas nunca saíram dali: a casa guardou cada uma delas, e é ela que agora fala.
Serviço
Exposição: Ruídos do Silêncio, de Lilian Camelli
Curadoria: Danilo Garcia
Visitação: 6 de outubro a 5 de novembro de 2026, das 9h às 16h
Local: Vila Cultural Cora Coralina, Sala Sebastião Barbosa
Endereço: Rua 3, s/n, Setor Central, Goiânia (GO)
Entrada gratuita. Visitas de grupos mediante agendamento pelo e-mail vilacultural.coracoralina@goias.gov.br
Realização: Vila Cultural Cora Coralina, Secretaria de Estado da Cultura de Goiás, Contempo Galeria e Subsolo Produções
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.

