Dark Mode Light Mode

As casas de Vorcaro, de São Paulo a Trancoso

Quatro endereços, um design impecável e o que a Polícia Federal viu lá dentro.
Vista aérea da casa de São Paulo projetada pelo MFMM, com a piscina ao centro Vista aérea da casa de São Paulo projetada pelo MFMM, com a piscina ao centro

WAYFARER · Casa & Design

Uma casa diz quem somos quando ninguém está olhando. As de Daniel Vorcaro foram olhadas, cômodo por cômodo, por quem ele menos esperava. Na manhã de 18 de novembro de 2025, horas depois de o dono do Banco Master ser detido em Guarulhos, agentes da Polícia Federal atravessaram portões em São Paulo, Brasília e Belo Horizonte. Voltaram com cofres, relógios e um Renoir. E com algo que raramente se lê num inquérito: uma crítica de arquitetura.

Os relatórios falam em “altíssimo padrão” e “requinte da arquitetura”. Não é o vocabulário habitual de uma busca e apreensão. É o de quem entrou numa casa e sentiu o peso do projeto.

São Paulo: a casa de revista

A mais usada, e a mais vigiada. Nos Jardins, a residência paulistana tem projeto do escritório MFMM, de Matheus Farah e Manoel Maia, e custou R$ 100 milhões, pagos em três parcelas entre fevereiro e março de 2025, por meio da Viking Participações, empresa administrada pelo banqueiro. Imprensa e mercado a chamam de “casa de revista”: o valor não vem do tamanho, já que são apenas quatro suítes, mas da arquitetura.

Volume revestido de madeira suspenso sobre a piscina, com jardim vertical ao fundo
O volume de madeira suspenso sobre a piscina, centro do projeto · Foto Fran Parente / Divulgação MFMM

O partido é o da casa paulistana contemporânea em sua forma mais bem resolvida. O texto do próprio escritório descreve uma planta integrada que abre espaço para a convivência e, ao mesmo tempo, preserva a intimidade de quem mora. A fotografia da varanda, anexada ao inquérito, confirma a promessa: um deque de madeira escura que avança sem soleira para dentro de uma mata tropical densa, estofados curvos em branco-cru de um lado, sofás verde-sálvia do outro, uma estante de madeira iluminada por dentro como um relicário. Não há um único gesto de ostentação na imagem. O luxo está na continuidade entre sala e jardim.

Sala de jantar integrada, aberta por inteiro para o jardim
O jantar aberto por inteiro para o jardim · Foto Fran Parente / Divulgação MFMM

A suíte principal se abre do piso ao teto para a piscina, visível de quase todos os cômodos, e há um rooftop ajardinado com jacuzzi. O subsolo foi desenhado para a noite: o escritório o chama de redroom, um ambiente com tratamento acústico, neons vermelhos e vista para o fundo da piscina. Foi também ali, nas camadas mais reservadas da casa, que se revelou o que a arquitetura escondia bem: três cofres, um deles arrombado porque os advogados não sabiam a senha; uma adega subterrânea com centenas de garrafas que a PF considerou inviável retirar; um quadro atribuído a Renoir que exigiu horas de espera por uma equipe especializada em embalagem. Numa gaveta-cofre do closet, R$ 290 mil em reais e dólares.

O luxo mais caro de uma casa é o que ela não precisa mostrar.

Brasília: a casa-palco

Se São Paulo era o lugar de viver, o Lago Sul era o lugar de receber. Os agentes anotaram pouquíssimos objetos pessoais, e a vocação da casa estava clara na planta. Chamada Residência Laguna, foi desenhada pelo studioHub para que quase todos os cômodos tenham vista panorâmica do Lago Paranoá. São 1,7 mil m² construídos sobre 4,3 mil m² de área privativa, ocupando dois dos quatro lotes de um condomínio fechado, com projeto de 2012.

Piscina de borda infinita diante do Lago Paranoá ao entardecer
A piscina e o Lago Paranoá ao entardecer · Divulgação / studioHub

A chegada é pura encenação, no melhor sentido do termo: pé-direito duplo e uma passarela de vidro suspensa sobre um espelho d’água, com linhas limpas e materiais nobres. Abaixo, uma adega subterrânea e uma sala de cinema privativa. Do escritório, a vista alcança a Ponte JK, o cartão-postal que Brasília oferece a quem pode pagar por ele.

A Ponte JK vista da casa, sobre o Lago Paranoá
A Ponte JK no horizonte · Divulgação / studioHub

A história da propriedade é menos transparente que o vidro da entrada. A casa foi comprada em maio de 2024 pela Super Empreendimentos e, quase um ano depois, repassada pelo mesmo valor a uma empresa do grupo Prime You, do qual Vorcaro é sócio. Ali ele promovia jantares para autoridades e líderes partidários, e afirmava ser apenas inquilino.

Belo Horizonte: a casa vazia

Na cidade onde nasceu, Vorcaro guardava a casa mais silenciosa das três. No Belvedere, três terrenos contíguos formavam uma só propriedade, com espaço gourmet, bares, academia, spa e quadras, somando 2.697 m².

A escala contrastava com o interior: armários vazios, nenhum bem de valor. A governanta explicou que o lugar servia apenas ao descanso e ao lazer. Há uma melancolia particular numa casa desenhada para o repouso e mantida à espera de um dono que quase nunca vem.

A compra, em 2022, por R$ 30 milhões, foi feita por contrato particular, sem escritura nem registro e com cláusula de sigilo. A PF chegou a pedir ao STF para transformar a casa em base de sua equipe anticorrupção; o ministro André Mendonça negou e determinou o leilão.

Trancoso: a casa-resort

A quarta casa não estava na lista de buscas de novembro, mas é a que melhor resume a escala do personagem. A Villa 21 fica no condomínio Terravista Golf, sobre a Praia dos Nativos, em cerca de 40 mil m², com 150 metros de frente para o mar.

Piscina sinuosa entre palmeiras na Villa 21
A piscina entre palmeiras · Divulgação / Trancoso4U

É menos uma casa que um vilarejo privado. Cinco bangalôs de dois andares, com sala e terraço embaixo e a suíte em cima, e uma Casa Branca com outras cinco suítes. A suíte master tem 400 m², piscina privativa, sala de leitura e um terraço para olhar as estrelas; entre a piscina e a praia, um lounge coberto de 180 m² com cozinha profissional; sob os cajueiros, uma mesa redonda para 24 pessoas. A arquitetura trabalha com poucas paredes e vista permanente para o verde e o mar, numa decoração que mistura o rústico e o contemporâneo, com obras de arte espalhadas pelos ambientes. É o vocabulário de Trancoso levado ao limite: madeira, sombra, brisa e horizonte.

O vínculo com Vorcaro ainda tem versões. A coluna de Lauro Jardim, no O Globo, o descreve como inquilino de uma casa avaliada em R$ 300 milhões; o Metrópoles afirma que ele a comprou por R$ 280 milhões em 2023, que o imóvel está entre os bens apreendidos e deve ir a leilão em caso de condenação. A PF investiga quem frequentou a propriedade a convite dele.

Conter vale mais do que ostentar. Esconder não é a mesma coisa que conter.


Há casas feitas para serem vividas e casas feitas para serem vistas. As de Daniel Vorcaro foram as duas coisas, e nenhuma delas por inteiro. Os arquitetos entregaram o que se espera do melhor design brasileiro: luz, madeira, água, continuidade entre dentro e fora. O que faltou não cabia em planta. No fim, a descrição mais atenta do requinte daquelas salas não saiu de uma revista de arquitetura. Saiu de um inquérito. E o silêncio, que é o luxo que nenhum dinheiro compra, chegou tarde: numa casa vazia em Belo Horizonte, à espera de um leilão.

As casas em números

São Paulo, JardinsProjeto MFMM (Matheus Farah e Manoel Maia) · 1.280 m² construídos, 4 suítes · R$ 100 milhões

Brasília, Lago SulResidência Laguna, projeto studioHub (2012) · 1,7 mil m² construídos · R$ 36 milhões

Belo Horizonte, BelvedereTrês terrenos, 2,7 mil m² · R$ 30 milhões em contrato particular

Trancoso, Villa 2140 mil m² de terreno, 12 suítes · entre R$ 280 e R$ 300 milhões, conforme a fonte

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.

Previous Post
Estudo de conceito do resort da Praxis entre dunas, diante do Rio da Prata

A primeira nação digital do mundo vai morar no Uruguai

Next Post
Imagens da exposição A Elegância do Olhar, de Sebastião Salgado e Mirella Ricciardi

Sebastião Salgado, Mirella Ricciardi e o livro que mudou um olhar