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Frieze Week 2026: a Londres que fica fora dos estandes, em dez programas

De 14 a 18 de outubro, a cidade se reorganiza ao redor da Frieze. Dez programas fora da feira, de Yuko Mohri a Es Devlin, e como a WAYFARER Agency organiza hospedagem e acesso em Londres.

WAYFARER · Cultura | Londres

A Frieze acontece em Regent’s Park. A semana da Frieze acontece no resto da cidade.

Entre 14 e 18 de outubro de 2026, enquanto as feiras ocupam seus estandes e negociações, Londres inteira se reorganiza ao redor do evento. Galerias abrem mostras pensadas para a chegada dos colecionadores, museus antecipam programações e uma vida noturna paralela se instala em espaços improváveis. Dez programas, do teatro experimental à retrospectiva de uma das cenógrafas mais influentes da atualidade, resumem o que vale o deslocamento.

Teatro: a história como sensação

Uma peça não é o item mais óbvio de um roteiro de Frieze, mas The Front, no London Performance Studios, justifica a exceção. O texto é do artista e escritor Sam Cottington, que já expôs na Nir Altman, em Munique, e na Ginny on Frederick, em Londres. A produção fica a cargo do próprio estúdio, com o artista multidisciplinar Middleton Maddocks na coordenação.

Em cartaz por apenas duas noites, 16 e 17 de outubro, em South Bermondsey, a montagem acompanha Carol e Stephen, dois personagens que descobrem, sem entender por quê, que não conseguem morrer. As vidas deles atravessam mais de um século: da Bélgica e da Frente Ocidental, no fim da Segunda Guerra, a uma fazenda isolada na Baviera e aos arredores da Berlim contemporânea. Cottington descreve o trabalho como uma investigação sobre como a história é sentida, e não sobre como ela de fato aconteceu.

Barbican: o concerto dos descartes

Instalação cinética de Yuko Mohri no Barbican durante a Frieze Week
IN CONCERT, DE YUKO MOHRI, OCUPA O ESPAÇO CURVO DO BARBICAN COM MATERIAIS RECOLHIDOS DO PRÓPRIO EDIFÍCIO

Yuko Mohri passou boa parte do ano revirando os bastidores do Barbican. Durante uma residência, a artista japonesa explorou oficinas e depósitos do edifício e recuperou fios antigos, sucata metálica e postes de luz que um dia pertenceram à construção. Parte desse material volta agora como In Concert, instalação para o espaço The Curve.

Mohri, que representou o Japão na Bienal de Veneza de 2024, é conhecida por esculturas cinéticas que combinam objetos cotidianos a forças instáveis como água, ar, gravidade e magnetismo. Aqui, pratos de bateria soam ao ritmo da água bombeada por tubos suspensos, um triângulo preso a uma colher se anuncia de vez em quando, e uma mangueira de incêndio goteja dentro de um abajur. Em outro ponto, a água escorre por uma pilha de pias enquanto ventiladores sopram contra fiações antigas. Nada ali é brutal. Mohri se interessa por vazamentos, falhas, remendos e recomeços, e faz dos descartes do Barbican um concerto desalinhado para um prédio que também está em reforma.

Maureen Paley: quinze anos depois

Escultura em bronze de Rebecca Warren na galeria Maureen Paley
REBECCA WARREN RETORNA A LONDRES COM CORPOS ESCULPIDOS QUE OSCILAM ENTRE O ERÓTICO E O ABSTRATO

Fazem quinze anos desde a última mostra londrina da artista britânica Rebecca Warren. A Maureen Paley a acompanha desde o início: foi a galeria que lhe deu uma exposição em 2000, anos antes da indicação ao Turner Prize, da eleição como membro da Royal Academy e do título de OBE por serviços à arte.

Um quarto de século depois, Warren volta com um corpo de trabalho inteiramente novo, distribuído pelos dois espaços da galeria em Bethnal Green. Conhecida por esculturas em bronze, argila e aço que tratam a figura humana com liberdade, entre o corporal, o erótico, o cômico e o abstrato, ela imaginou uma retrospectiva de si mesma, mas como uma “versão ligeiramente diferente”, em que formas e ideias de períodos anteriores reaparecem em peças novas. No centro está There Will Be Another You (2026), uma figura feminina reclinada em bronze, em tamanho real, cujo corpo parece derreter e se reconfigurar, com tendões e fios expostos, dois braços direitos e nenhum esquerdo.

Cabeça em bronze de escultura de Rebecca Warren
DETALHE DE UMA DAS ESCULTURAS EM BRONZE DA NOVA MOSTRA DE REBECCA WARREN

Herald St: o que o museu esconde de si mesmo

No Acropolis Museum, em Atenas, espaços vazios foram deliberadamente reservados para esculturas hoje sob guarda do British Museum. Essas lacunas se tornaram o ponto de partida de “British Museum”, primeira exposição individual de Esteban Jefferson na Herald St, montada no endereço da galeria em Museum Street, a poucos passos do museu londrino.

Jefferson fotografou os vazios e os moldes de gesso que substituem trechos ausentes do Friso do Partenon, antes de seguir os objetos originais até Londres. No British Museum, o interesse dele se voltou menos para os artefatos e mais para a desordem visual ao redor: purificadores de ar, ventiladores, monitores de temperatura e outros equipamentos de preservação. Esses detalhes aparecem ao lado de objetos antigos numa nova série de pinturas que chama atenção para os sistemas pelos quais museus exibem, preservam e reivindicam suas coleções.

Pintura de Esteban Jefferson com busto antigo e equipamento industrial
ESTEBAN JEFFERSON CRUZA ARTEFATOS CLÁSSICOS E APARATOS DE CONSERVAÇÃO MUSEOLÓGICA

Artist-to-Artist: a indicação como curadoria

Pintura de Paul Robas com técnica de encáustica e óleo sobre linho
FULL CIRCLE, DE PAUL ROBAS, COMBINA ENCÁUSTICA, ÓLEO E ACRÍLICO NUMA SUPERFÍCIE DE TEXTURA ESPECTRAL

Em sua primeira participação na Frieze London, a galeria Alice Amati apresenta um estande individual do pintor romeno radicado em Viena Paul Robas, convidado para a seção Artist-to-Artist. Na quarta edição, a iniciativa pede a sete artistas estabelecidos que indiquem, cada um, um colega que considerem merecedor de maior reconhecimento.

Robas foi indicado pela pintora britânica Louise Giovanelli, cofundadora, ao lado de Amati, da Apollo Painting School. Formado em Cluj-Napoca antes do mestrado em Viena, ele se interessa pelo que acontece a uma imagem ao transitar entre o digital e o físico: parte de fotografias, encontradas ou próprias, que edita, colagia e projeta antes de traduzi-las em pintura. A técnica recorre à encáustica, processo antigo à base de cera que conheceu ao estudar os retratos de múmias de Fayum, do período romano. Combinada a óleo, tinta e acrílico, a cera dá às telas uma qualidade espectral, quase esmaecida. Na mesma seção, vale observar o sul-africano Unathi Mkonto, na Goodman Gallery, indicado por Yinka Shonibare, e Eusung Lee, da Cylinder, de Seul, escolhido por Ayoung Kim.

Cena de festa noturna durante a Frieze Week em Londres
A FESTA ITINERANTE ANAL HOUSE MELTDOWN DESEMBARCA NA BOLDING GALLERY PARA UMA NOITE ÚNICA

É uma noite só, e, a julgar pelo histórico das edições anteriores, vale reorganizar qualquer plano para sexta-feira, 16 de outubro. A Anal House Meltdown (AHMD) chega à Bolding Gallery durante a Frieze Week. A festa queer de culto nasceu em 2011, criada pelos artistas Prem Sahib, Eddie Peake e George Henry Longly, e desde então acumula uma história tão itinerante quanto imprevisível.

Já houve edições de porões em Dalston à ilha vulcânica de Stromboli. Para Prem Sahib, artista britânico-indiano cujo trabalho costuma explorar a arquitetura e a linguagem material dos espaços queer, a festa sempre funcionou como outra forma de ocupação espacial, desta vez sobre a pista de dança. Na Bolding Gallery, em Mayfair, os sets são de Barkley Bandon, Lali, Eddie Peake e Debonair. Sem lista de convidados, com bar barato e portas abertas às 20h.

Frieze Masters: o Soho em gravuras

Gravura satírica de James Gillray exibida na Frieze Masters
THE GOUT, DE JAMES GILLRAY (1799), INTEGRA O ACERVO DE CARICATURAS REUNIDO POR ANDREW EDMUNDS

O falecido Andrew Edmunds deu nome a um dos restaurantes mais queridos do Soho, instituição à luz de velas na Lexington Street. Menos conhecida é a coleção extraordinária que montou em paralelo ao negócio de gastronomia. Ao longo de meio século, Edmunds, também marchand e colecionador, reuniu mais de dez mil caricaturas e gravuras satíricas produzidas entre 1680 e 1850.

Na Frieze Masters, a Daniel Crouch Rare Books, especializada em mapas, atlas e cartas náuticas antigas, apresenta destaques desse acervo, entre eles mais de 1.200 gravuras de James Gillray, 300 obras de William Hogarth e mais de 500 de Thomas Rowlandson. Sexo, comida, moda, política, raça, império e rivalidade nacional atravessam as peças, de The Plumb-pudding in Danger, de Gillray, à única cópia conhecida de uma sátira de 1779 sobre a sex shop de Mrs Phillips. Ferinas e irônicas, as gravuras são ancestrais diretas dos cartuns políticos e dos memes de hoje.

Design Museum: o mundo de Es Devlin

Instalação retrospectiva de Es Devlin no Design Museum de Londres
OTHER WORLDS RECONSTRÓI TRÊS DÉCADAS DE CENOGRAFIA E ESCULTURA CINÉTICA ASSINADAS POR ES DEVLIN

Poucos nomes moldaram tanto a experiência contemporânea do espetáculo ao vivo quanto Es Devlin. Ao longo de três décadas, a artista e designer britânica atravessou teatro, ópera, arte, moda e música, criando palcos e esculturas cinéticas para nomes como Beyoncé, Adele e U2, além dos Jogos Olímpicos.

O Design Museum reúne agora essa trajetória em “Es Devlin: Other Worlds”, a primeira retrospectiva europeia de sua prática. A mostra começa com a reconstrução do estúdio londrino da artista, completo com livros, ferramentas e maquetes, e se abre para Come Home Again, ilustrações iluminadas de 240 espécies de plantas e animais encontrados em Londres. No centro está 30-Year-Desk, onde trinta projetos giram em exibição, incluindo o trabalho em The Lehman Trilogy e no show do intervalo do Super Bowl de 2022, antes de uma passagem vermelha conduzir à Infinite Library, instalação cinética com mais de dois mil livros. Devlin se descreve como uma “everythingist”. “Acho que, hoje em dia, é preciso encontrar uma espécie de permissão para ser uma pessoa de tudo, porque parece haver sempre uma pressão para achar a sua coisa”, diz ela. “E talvez a coisa seja, na verdade, tudo.”

Autorretrato pintado por Issy Wood exposto na National Portrait Gallery
ISSY WOOD INAUGURA O NOVO PROGRAMA DE RETRATO CONTEMPORÂNEO DA NATIONAL PORTRAIT GALLERY

A National Portrait Gallery lança um programa dedicado ao retrato contemporâneo, e Issy Wood abre a série. Nascida na Carolina do Norte e criada no Reino Unido, Wood pinta pessoas, partes do corpo, roupas, animais e outros objetos de seu estúdio, sobre linho e também sobre superfícies pouco convencionais, como veludo e tecido, muitas vezes recortando os temas a ponto de o retrato se confundir com a natureza-morta.

Wood se tornou rapidamente uma das pintoras mais reconhecíveis de sua geração. Foi representada pela galeria londrina Carlos/Ishikawa antes mesmo de se formar na Royal Academy Schools, em 2018, e desde então expandiu a prática para a música e a escrita. Na NPG, o foco se volta para a própria artista: onze autorretratos feitos desde 2020 são exibidos juntos pela primeira vez, sete deles inéditos ao público. Wood os descreve como substitutos de fotografias de si mesma, em que a imagem pintada ocupa o lugar da imagem real. Três desses autorretratos já integram o acervo da NPG, o que faz da instituição a única no Reino Unido a deter uma obra sua.

Thaddaeus Ropac: os heróis quebrados de Baselitz

Pintura expressionista de Georg Baselitz na série Heroes
SPEKULATIUS (1965) INTEGRA A SÉRIE HEROES, REUNIDA PELA PRIMEIRA VEZ NO REINO UNIDO

Georg Baselitz tinha 27 anos quando, em um único ano, produziu cerca de sessenta pinturas, 130 desenhos e 38 gravuras. No centro desse período estão os Heroes: figuras monumentais e maltratadas, descalças, vestidas em farrapos ou uniformes militares rasgados, perdidas em paisagens devastadas.

Pela primeira vez no Reino Unido, uma exposição dedicada exclusivamente à série reúne obras-chave desse período formativo na Thaddaeus Ropac. Depois de deixar a Alemanha Oriental rumo a Berlim Ocidental, Baselitz se viu entre o realismo oficial do Leste e um Oeste tomado pelo otimismo do chamado milagre econômico alemão. Foi no verão de 1965 que começou os Heroes, logo após uma residência na Villa Romana, em Florença, onde se fascinou pelas figuras distorcidas, ou, como preferia dizer, “excessivas”, dos maneiristas do século XVI, entre eles Pontormo e Parmigianino. No pano de fundo da Alemanha do pós-guerra, as figuras dele surgiram como partisans, rebeldes, pintores, pastores e poetas. “Não são heróis erguendo os punhos”, disse Baselitz. “Eles parecem quebrados, destruídos, maltrapilhos. E foi assim que quis que fossem.”


Dentro de Regent’s Park, a arte se vende. Fora dele, ela se encontra: num prédio em reforma que vira instrumento, numa noite sem lista, num museu que olha para os próprios aparelhos. A Frieze tem o ritmo das feiras. A semana da Frieze, o da cidade.

Frieze Week 2026

Datas: de 14 a 18 de outubro de 2026

Feiras: Frieze London e Frieze Masters, em Regent’s Park

The Front: 16 e 17 de outubro, London Performance Studios, South Bermondsey

Reservas e acesso: WAYFARER Agency, wayfareragency.com

Anal House Meltdown: sexta-feira, 16 de outubro, Bolding Gallery, Mayfair, portas às 20h

Para quem vai a Londres na semana da feira, a logística pesa tanto quanto o roteiro: hotel bem localizado entre Mayfair, Bloomsbury e Regent’s Park, e acesso aos programas de data fechada, como as duas noites de The Front e a festa de sexta-feira. A WAYFARER Agency, nossa divisão de viagens, organiza hospedagem e acesso para clientes que querem viver a Frieze Week além dos estandes.

Hospedagem e acesso em Londres: WAYFARER Agency

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.

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