WAYFARER · Estilo | SPFW N61
No sertão, ninguém reclama da chuva. Quando o céu fecha sobre a caatinga, o que vem é festa: o chão bebe, o mato verde volta, os açudes enchem. Celina Hissa partiu dessa alegria para desenhar a coleção mais leve que a Catarina Mina já levou à passarela.
Na tarde de quinta-feira, 15 de outubro, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Ibirapuera, a marca cearense apresentou Bonito pra Chover. O título vem de uma expressão do interior nordestino, dita quando o tempo anuncia água, e resume a proposta: transformar em roupa a relação particular entre o semiárido e a chuva, com o repertório de técnicas manuais que fez da Catarina Mina uma das vozes mais consistentes do artesanato brasileiro na moda.
O desfile em 30 segundos
- A coleção: Bonito pra Chover, de Celina Hissa
- O tema: a chuva no sertão, dos primeiros pingos à caatinga que renasce
- As novidades: rede de travessa, renda tramoia, palha de agave e o primeiro upcycling da marca
- O território: artesãs do Ceará, agora com o Rio Grande do Norte e o Piauí
- O espírito: peças sofisticadas, usadas com tênis e trança solta

I. A água
Pingos, rios e um chão que volta a ficar verde
A chuva aparece na coleção de forma literal e delicada ao mesmo tempo. Os colares têm formato de gota, envolvidos em macramê. Bordados de canutilhos, nos vestidos e nos brincos, desenham pingos que brilham sob a luz. O crochê corre em linhas sinuosas, como o curso de um rio, e o jacquard de algodão ganha uma textura que lembra a superfície da água. A vegetação que rebrota depois da seca entra nas palhas e nas tramas.
As quatro primeiras entradas trazem a novidade mais significativa da temporada. São peças de crochê feitas por artesãs de Caicó e Acari, no Seridó potiguar, a partir de resíduos têxteis da fábrica da Riachuelo em Natal, numa parceria com o Instituto Riachuelo. É a estreia do upcycling no processo da Catarina Mina, e as franjas que abrem o desfile foram pensadas justamente para lembrar a água deslizando pelo corpo num dia de chuva.


II. As mãos
Três técnicas novas, e um mapa que cresce
Celina Hissa ampliou o repertório e o território. A marca nasceu trabalhando com artesãs do Ceará e, nesta coleção, estende a rede ao Rio Grande do Norte e ao Piauí. Três tipologias manuais entram pela primeira vez no vocabulário da etiqueta.
A rede de travessa é um tear típico de Itarema, no litoral norte do Ceará, que aproxima saberes indígenas da trama das redes de pesca, e aparece nos looks de listras coloridas. A renda tramoia, técnica que chegou ao Brasil depois de atravessar a Europa, é feita pelas artesãs do coletivo Mães do Mar, em Acaraú, e veste sobressaias e tops vermelhos. Do Piauí vem a palha de agave de Parnaíba, que ornamenta vestidos longos. Ao lado delas seguem as técnicas que a marca ajudou a manter vivas: a renda de bilro, o richelieu de agave e o bordado richelieu.


O trabalho vai além da passarela. Desde 2020, quando começou a produzir com a renda de bilro, Celina profissionalizou a cadeia e viu crescer o número de rendeiras envolvidas. A intenção, agora, é repetir esse caminho com as técnicas recém-incorporadas, o que dá à coleção uma dimensão que nenhuma foto de desfile mostra: cada novo ponto na roupa é também uma nova fonte de renda numa comunidade do interior.


III. A roupa
Muita técnica, nenhum peso
O mérito maior da coleção está no equilíbrio. Com tantas manualidades em cena, o risco seria a roupa virar vitrine de técnicas. Não virou. As silhuetas são fluidas e fáceis: vestidos tomara que caia ou de alcinhas finas, túnicas alongadas, calças balão, saias midi e robes amplos. A transparência das organzas de seda deixa tudo mais aéreo, e a paleta transita dos crus e marfins para os azuis e, depois, para os vermelhos e terrosos.
Há também um investimento claro em roupa de festa, com vestidos longos de seda que levam flores aplicadas no busto e peças em jacquard de algodão azul-escuro. E, mesmo assim, a proposta de uso é casual: as modelos desfilaram de tênis, com o cabelo preso numa trança solta. É a sofisticação sem cerimônia que a Catarina Mina vem construindo temporada após temporada.



A direção do desfile foi de Ed Benini, o styling de Dani Ueda e a trilha sonora de Max Bloom.

Na fila final, as modelos atravessaram a passarela juntas, do marfim ao vermelho, como um céu que muda de cor antes do temporal. No sertão, a chuva demora, mas quando vem transforma tudo. Celina Hissa mostrou que o mesmo vale para o trabalho de mãos que ela costura há anos: devagar, ponto a ponto, até o chão inteiro ficar verde.

Para ver de perto
A marca está em @catarinamina. A galeria completa do desfile está no site da SPFW.
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER. São Paulo.
Fotos: Zé Takahashi / @agfotosite / SPFW


