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Gianni Agnelli e a coleção que contou sua vida: os carros e barcos do Avvocato

Da Ferrari 166 MM de 1950 ao veleiro negro Stealth, de 1996: doze máquinas, em ordem cronológica, que explicam como o presidente da Fiat transformou velocidade em assinatura pessoal.

DRIVE · Coleção | Turim

Gianni Agnelli usava botas de caminhada com ternos impecáveis de alfaiataria. O hábito, que o mundo copiou como capricho de estilo, tinha uma origem menos glamorosa: no verão de 1952, um acidente de carro na Côte d’Azur quase lhe custou a perna direita. A velocidade cobrou seu preço. Ele nunca deixou de pagá-lo.

Nas cinco décadas seguintes, o homem que presidiu a Fiat a partir de 1966 encomendou Ferraris que só existiam para ele, dirigiu utilitários com o mesmo prazer, comprou veleiros clássicos e mandou construir barcos de corrida. Ninguém o via num carro vermelho: Agnelli preferia prata, cinza e azul, e jamais teve uma Ferrari na cor da marca. Contada em ordem, sua coleção funciona como biografia. Cada máquina marca uma fase.

A coleção em 30 segundos

  • Período: de 1950 a 1996
  • Na garagem: Ferrari, Lancia e Fiat, quase sempre sob encomenda
  • No mar: dois veleiros clássicos, uma lancha de corrida e dois maxi iates
  • Paleta: prata, cinza e azul; nenhuma Ferrari vermelha
  • Regra: se não existia, ele mandava fazer

I. Anos 1950

O herdeiro aprende a correr

1950 · Ferrari 166 MM Barchetta

Ferrari 166 MM Barchetta que pertenceu a Gianni Agnelli
Verde e azul, a pedido do dono. Imagem: reprodução

Agnelli comprou este exemplar zero quilômetro em julho de 1950. Era o 24º de apenas 25 construídos, com carroceria Touring, e saiu da fábrica com duas exigências dele: pintura em dois tons, verde e azul, e lanternas em forma de gota. A própria Ferrari credita a Agnelli o apelido “barchetta”, pequeno barco, que acabou batizando o modelo. O pedigree esportivo era sério: em 1949, a 166 MM venceu a Mille Miglia, as 24 Horas de Le Mans e as 24 Horas de Spa. Depois do acidente de 1952, ele vendeu o carro. Foi também a década da Villa La Leopolda, sua casa de verão na Riviera. Em 2015, já com outro dono, o mesmo chassi venceu a Coppa d’Oro do Concorso d’Eleganza Villa d’Este.

1956 · Tomahawk, veleiro da classe 12 Metros

Veleiro clássico Tomahawk, da classe 12 Metros
Um desafiante da America’s Cup como primeiro barco. Imagem: reprodução

O primeiro veleiro de Agnelli tinha linhagem de America’s Cup. Projetado por Charles E. Nicholson e construído pela Camper & Nicholsons em 1939 para T.O.M. Sopwith, desafiante britânico da copa, o Tomahawk foi o 12 Metros mais vitorioso da Inglaterra naquele ano. “12 Metros” é o nome da classe, não o tamanho: o barco tem pouco mais de 21 metros. Agnelli o teve de 1956 a 1962, quando o vendeu à irmã, Susanna. Ainda hoje compete em regatas de clássicos, a partir de La Spezia.

1959 · Agneta, iole de 25 metros

Veleiro Agneta navegando com velas cor de vinho
As velas cor de vinho do porto, reconhecíveis à distância. Imagem: reprodução

Desenhado pelo sueco Knud Reimers, que o batizou com o nome da filha, e lançado em 1951 pelo estaleiro Plym, em Estocolmo, o Agneta é uma iole de 25 metros, com dois mastros. Agnelli o comprou do primeiro dono por volta de 1959. A assinatura do barco são as velas cor de vinho do porto, raras e inconfundíveis em qualquer marina do Mediterrâneo.

1959 · Ferrari 400 Superamerica Pininfarina

Ferrari 400 Superamerica Pininfarina de Gianni Agnelli
Quatro faróis para quem voltava para casa ao amanhecer. Imagem: reprodução

O primeiro 400 Superamerica da história foi dele. Apresentado no Salão de Turim em novembro de 1959, o cupê da Pininfarina vinha em prata, com interior de couro vermelho, grade quadrada no lugar da tradicional, nenhum emblema e teto de vidro. Os quatro faróis tinham explicação pessoal: Agnelli dizia que dirigia ao amanhecer, quando os outros iam trabalhar e ele voltava para casa. Era sua quinta Ferrari, e ele a vendeu em 1962.

II. Anos 1960 e 1970

O presidente encomenda o impossível

1966 · Ferrari 365 P Berlinetta Speciale “Tre Posti”

Ferrari 365 P Berlinetta Speciale com três lugares e volante central
O volante no centro, como num carro de corrida. Imagem: reprodução

No ano em que assumiu a presidência da Fiat, Agnelli viu no Salão de Paris um protótipo da Pininfarina com três lugares lado a lado e o motorista no centro. Encomendou o seu. Só dois exemplares foram feitos, ambos em 1966, e o dele, cinza metálico, com carroceria desenhada por Aldo Brovarone, levava um V12 central de 4,4 litros e 380 cv. Os dois passageiros sentavam ligeiramente atrás do condutor. Era, de fato, um carro de corrida para a estrada.

1968 · G. Cinquanta, lancha de 11 metros

Lancha G. Cinquanta projetada por Sonny Levi para Agnelli
Quatro V8 e um casco que cortava o mar a 55 nós. Imagem: reprodução

Projetada por Renato “Sonny” Levi e construída pelo Cantiere Delta, em Anzio, a G. Cinquanta tem 11,28 metros e o casco em “V” profundo que tornou Levi famoso. Embaixo, quatro motores V8 BPM Vulcano somavam cerca de 1.280 cv, o bastante para chegar a 55 nós. O cockpit e a cabine foram desenhados por Sergio Pininfarina. Em 2020, a lancha foi vendida pela RM Sotheby’s por 450 mil euros, com apenas dois donos na história.

1974 · Fiat 130 Familiare “Villa d’Este”

Fiat 130 Familiare com acabamento lateral imitando madeira
Madeira de mentira e um cesto de vime para os esquis. Imagem: reprodução

O Fiat 130 era o carro mais importante da marca, e a família Agnelli encomendou quatro peruas sobre ele, desenhadas pelo Centro Stile Fiat e construídas pela Officina Introzzi, perto do lago de Como. A dele, de 1974, foi a única com acabamento imitando madeira nas laterais e no teto, aceno direto às station wagons americanas, e um cesto de vime no bagageiro de teto para levar os esquis a St. Moritz. Debaixo do capô, um V6 de 3,2 litros com câmbio automático.

III. Anos 1980

Vinte anos de Fiat, e um utilitário

1986 · Ferrari Testarossa Spider

Ferrari Testarossa Spider prata encomendada por Gianni Agnelli
Prata, porque Ag é o símbolo químico do metal. Imagem: reprodução

Para celebrar duas décadas na presidência da Fiat, Agnelli se deu a única Testarossa conversível feita oficialmente pela Ferrari. A obra começou em fevereiro de 1986 e levou quatro meses. A cor foi prata, argento, com detalhes azuis, um trocadilho com Ag, o símbolo químico do metal e as iniciais do dono, e o cavalinho do emblema era de prata maciça. O câmbio, feito sob medida pela Valeo, funcionava como manual ou automático, e no modo automático o pedal de embreagem se recolhia, uma concessão discreta à perna ferida em 1952. Em 2016, foi vendida num leilão da Artcurial por mais de 1 milhão de libras.

1986 · Fiat Panda 4×4

Fiat Panda 4x4 usado por Gianni Agnelli
Na neve de St. Moritz, o carro mais modesto da garagem. Imagem: reprodução

No mesmo ano da Testarossa, Agnelli comprou um Panda 4×4 zero e passou cerca de quinze anos subindo e descendo as ruas nevadas de St. Moritz com ele. Ter Ferraris únicas e um utilitário de mil cilindradas na mesma garagem não era contradição: era a prova de que o gosto dele pelos carros não dependia de exclusividade. Dependia de uso.

Uma Ferrari única e um Panda na mesma garagem: o gosto dele dependia de uso, não de exclusividade.

1988 · Extra Beat, maxi iate de 36 metros

Maxi iate Extra Beat construído pela Abeking & Rasmussen
Grande demais para a pressa dele. Imagem: reprodução

O primeiro iate inteiramente sob medida de Agnelli foi desenhado por Germán Frers e construído em alumínio pela Abeking & Rasmussen em onze meses: quase 36 metros de casco e um mastro de 49. Era imponente, mas não rápido o bastante para a ambição do dono, que sonhava com recordes de travessia do Atlântico. Agnelli nunca o levou a uma regata.

IV. Anos 1990

O último ato, em preto e cinza

1992 · Lancia Delta Integrale Spider

Lancia Delta Integrale Spider conversível feito para Gianni Agnelli
Um campeão de rali, sem teto, para o verão na Engadina. Imagem: reprodução

“Quero um Delta conversível para ir a St. Moritz.” O pedido virou carro em cerca de seis meses. Sobre a base do Delta Integrale Evoluzione, campeão mundial de rali, a Lancia fez para ele um conversível de quatro lugares, com tração integral, o motor 2.0 turbo de 250 cv, carroceria cinza, capota de tecido azul e interior de couro. Foi usado por pouco tempo e exposto em 2013 no Museo Nazionale dell’Automobile, em Turim, na mostra dedicada aos carros de Agnelli.

1996 · Stealth, veleiro de 28 metros

Veleiro Stealth em fibra de carbono projetado por Germán Frers
Tudo preto, do casco às velas. Imagem: reprodução

A resposta ao Extra Beat veio oito anos depois, de novo com Germán Frers. O Stealth, lançado em junho de 1996 pela Green Marine, em Lymington, tem 28 metros e foi construído inteiramente em fibra de carbono. Agnelli o queria todo preto, casco incluído, e pediu que ficasse pronto em seis meses. As velas de Kevlar e carbono completavam o efeito. O barco bateu o recorde Marselha-Cartago em 1998 e cruzou a linha em primeiro entre os monocascos no Fastnet de 2001. Segundo a imprensa náutica italiana, segue com os netos dele.


Agnelli morreu em janeiro de 2003, aos 81 anos. Ficaram as máquinas, espalhadas por museus, leilões e marinas, e ficou o par de botas de caminhada sob o terno. Um lembrete de que a velocidade, para ele, nunca foi um capricho. Foi uma forma de pagar adiantado pela vida que queria ter.

Para ver de perto

O Museo Nazionale dell’Automobile (MAUTO), em Turim, dedicou em 2013 uma mostra aos carros pessoais de Agnelli; programação em museoauto.com. O Concorso d’Eleganza Villa d’Este, em Cernobbio, onde a 166 MM foi premiada, acontece todos os anos na primavera, às margens do lago de Como.

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
Imagens: reprodução

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