DRIVE · Ensaio | Ayrton Senna e Interlagos
Alguns pilotos têm uma pista favorita. Ayrton Senna tinha uma casa.
Ela fica na Zona Sul de São Paulo, entre represas e prédios baixos, e tem nome de outro piloto: Autódromo José Carlos Pace. Mas qualquer paulistano que suba a arquibancada do S, numa sexta-feira de novembro, sabe de quem é aquele chão. Senna aprendeu a correr ali, voltou ali como campeão do mundo e ali viveu as duas tardes que o Brasil guarda como se fossem suas. Na semana em que a Fórmula 1 volta a Interlagos, vale lembrar que esta é, antes de tudo, uma história de amor.

O menino do kartódromo
Ayrton Senna da Silva nasceu em São Paulo, em 21 de março de 1960. Em julho de 1973, aos treze anos, venceu a sua primeira corrida oficial de kart, em Interlagos. No ano seguinte, no mesmo lugar, conquistou o seu primeiro título, o Campeonato Paulista na categoria júnior. Dali até a estreia na Fórmula 1, em 1984, não houve temporada sem troféu.
O kartódromo onde tudo começou fica atrás da antiga Reta Oposta do autódromo. Hoje se chama Kartódromo Ayrton Senna.
Senna aprendeu a correr em Interlagos. Depois, ensinou Interlagos a ser a pista dele.
A pista redesenhada
Durante a década de 1980, enquanto Senna se tornava o piloto mais rápido do mundo, o Grande Prêmio do Brasil morava no Rio de Janeiro, em Jacarepaguá, de 1981 a 1989. Quando a corrida voltou a São Paulo, em 25 de março de 1990, o autódromo era outro. Para atender às exigências da época, o traçado encolheu de 7.960 para 4.325 metros, ganhou boxes e torre de controle novos. E, logo depois da reta dos boxes, uma sequência de curvas sugerida pelo próprio Senna, ligando a largada à Curva do Sol.
O Brasil passou a chamá-la de S do Senna. É, até hoje, um dos trechos mais famosos do calendário.

Naquele primeiro fim de semana, Senna fez a pole com a McLaren e liderava com folga quando tocou no retardatário Satoru Nakajima e perdeu o bico do carro. Voltou dos boxes e terminou em terceiro. A casa estava pronta. Faltava a festa.
24 de março de 1991: a marcha que sobrou
Um ano depois, Senna voltou a largar na pole, com 1min16s392, e assumiu a liderança. Era o primeiro ano da McLaren MP4/6 com motor Honda V12, e a Williams de Nigel Mansell e Riccardo Patrese vinha forte. Senna abriu vantagem, até que o câmbio começou a desistir. Primeiro perdeu a quarta marcha. Nas voltas finais, perdeu também a terceira e a quinta. Sobrou a sexta.

Com uma marcha só, com o motor quase morrendo nas curvas lentas, ele segurou Patrese até a bandeirada. A diferença foi de 2,991 segundos. Era a primeira vitória de Senna no Grande Prêmio do Brasil.
O que veio depois virou imagem nacional. Com câimbras e febre, Senna mal conseguia se mexer. Foi tirado do carro, levado ao pódio no carro médico e, diante de um autódromo inteiro, quase não conseguiu levantar o troféu. Levantou.
Ele venceu em casa com uma marcha só. E precisou de ajuda para erguer o troféu que o país esperava há anos.

28 de março de 1993: a chuva e a invasão
Em 1993, a Williams de Alain Prost e Damon Hill era o carro a ser batido, e Senna, agora com a McLaren de motor Ford, largou em terceiro. Por volta da 25ª volta, um temporal desabou sobre Interlagos. Houve acidentes, troca de pneus, entrada do safety car e uma punição que custou a Senna mais de dez segundos nos boxes.
Quando a pista secou, ele passou Hill e não foi mais alcançado. Venceu com 16,6 segundos de vantagem. Depois da bandeirada, o público invadiu a pista. A fotografia que ficou é a de Senna no pódio, o boné numa mão, o troféu e a bandeira do Brasil na outra.

27 de março de 1994: a última volta em casa
No ano seguinte, já na Williams, Senna largou outra vez na pole, com 1min15s962, 0s328 à frente de Michael Schumacher. Liderou até a primeira rodada de paradas, quando o alemão da Benetton passou à frente. Senna foi atrás. Na 55ª volta, com a diferença caindo para cerca de cinco segundos, rodou e abandonou.
Foi a última corrida de Ayrton Senna no Brasil. Cinco semanas depois, em 1º de maio de 1994, ele morreu em Ímola.

O que ficou
Senna venceu duas vezes em Interlagos, como Emerson Fittipaldi e Felipe Massa. Michael Schumacher, com quatro, tem mais vitórias ali. Mas números nunca explicaram a relação entre os dois. O que explica é a geografia afetiva: o kartódromo que leva o seu nome, o S que ele desenhou, a arquibancada que até hoje grita o nome de um piloto que não corre há mais de trinta anos.

Em 3 de novembro de 2024, com a pista molhada, Lewis Hamilton saiu dos boxes de Interlagos ao volante de uma McLaren MP4/5B, o carro de Senna em 1990. Parou para pegar uma bandeira do Brasil com um fiscal de pista e seguiu com ela ao vento, para fora do cockpit. Chamou aquilo de “a maior honra da minha carreira”.

Alguns pilotos têm uma pista favorita. Ayrton Senna tinha uma casa, e as casas não esquecem quem morou nelas. Quando os carros frearem no fim da reta em novembro e mergulharem no S, vão atravessar uma curva que o menino do kartódromo, já campeão do mundo, imaginou para a cidade dele. Interlagos ainda faz a curva como Senna pediu.
Serviço
Onde: Autódromo José Carlos Pace, Interlagos, Zona Sul de São Paulo.
Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1 2026: de 6 a 8 de novembro.
Para ver de perto: o S do Senna, logo depois da reta dos boxes, e o Kartódromo Ayrton Senna, atrás da antiga Reta Oposta.
A semana completa: o guia WAYFARER do Grande Prêmio de São Paulo.
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.

