WAYFARER · Estilo | Guarda-roupa
Poucas peças carregam tanta ambiguidade quanto a camisa polo. Versátil o bastante para atravessar um século, ela também é terreno fértil para deslizes. A diferença entre o acerto e o erro, como quase sempre, está no detalhe e em quem veste.
Três nomes resolvem essa equação melhor do que qualquer manual: James Dean, Paul Newman e Steve McQueen. Cada um à sua maneira provou que a polo pode ser casual sem parecer descuidada e arrumada sem perder a leveza. Antes deles, porém, vale entender de onde a peça veio, porque a história explica boa parte das regras.
As regras em 30 segundos
- Gola: com pé e entretela, para ficar de pé sozinha
- Caimento: costura no ombro, manga no meio do bíceps
- Para dentro ou para fora: decide o comprimento
- Botões: um ou dois abertos
- Com blazer: tons que contrastam, nunca iguais
I. A origem
Da quadra para a cidade
O nome engana. A polo de malha que conhecemos nasceu no tênis: no fim dos anos 1920, René Lacoste trocou as camisas de manga longa engomadas por uma peça de manga curta em malha piquê, leve e respirável. Em 1933 ele fundou, com o industrial André Gillier, a empresa que passou a vendê-la, já com o crocodilo bordado no peito. O termo “polo” vem de outro lugar: em 1896, a Brooks Brothers lançou a camisa com gola abotoada inspirada nos jogadores de polo ingleses, que prendiam as pontas para que não batessem no rosto. A Fred Perry estreou sua versão em Wimbledon em 1952, e a Polo Ralph Lauren, a sua em 1972.
II. James Dean
A malha como segunda pele

Nas fotos que Sanford Roth fez em Los Angeles no verão de 1955, meses antes da morte do ator, Dean aparece numa polo de malha listrada azul-marinho e branca, de manga longa, gola grande e carcela curta, com jeans, cinto de couro trabalhado e relógio de ouro. Não há esforço aparente, e é justamente isso que funciona. A lição está na disciplina: cores clássicas, uma peça com personalidade e o resto do visual limpo e contido.
Para quem quer o espírito sem o figurino, o caminho passa pela malha mais encorpada, como o atoalhado, e pelo azul-marinho, a escolha que conversa com praticamente tudo.



III. Paul Newman
Aberta no peito, nunca relaxada

Em 1967, no set de Rachel, Rachel, sua estreia como diretor, Newman foi fotografado numa polo de linho com listras largas, aberta no peito. Em Ausência de Malícia, de 1981, usa uma polo amarela de jersey com bolso, carcela toda aberta e para fora da calça, com jeans e dockside. Nas duas, a mesma ideia: a peça parece vivida, nunca descuidada.
O passo seguinte é levar a polo para ocasiões em que a camisa social seria rígida demais. Sob um blazer, ela resolve almoços de verão e escritórios menos formais. O cuidado está na cor: se o blazer é azul-marinho, a polo deve ser branca, creme ou cinza-claro, para que o conjunto pareça intencional. E aqui a gola pesa mais do que nunca: precisa ter pé e entretela para não desabar sob o paletó.



IV. Steve McQueen
A roupa nunca veste o homem

Por volta de 1970, entre Bullitt e As 24 Horas de Le Mans, McQueen foi fotografado com uma polo escura por baixo de um suéter de gola careca cor de cogumelo, a gola da polo para fora. É talvez a lição mais útil das três: a polo funciona como camada, e a combinação de escuro por baixo e claro por cima é das mais elegantes do guarda-roupa masculino.
McQueen vestia quase qualquer coisa e fazia tudo parecer certo, porque nunca deixou a roupa tomar a frente. É o princípio de quem vira referência: usar os clássicos com segurança e esquecer que está vestido.
A polo diz menos sobre a peça do que sobre quem a veste.



V. O manual
O que separa o acerto do deslize
A gola. Golas de ribana, comuns nas versões esportivas, tendem a enrolar com o tempo. Para usar sob blazer ou suéter, prefira gola de camisa, com pé e entretela, que se sustenta sozinha. E deixe-a abaixada: a gola levantada raramente envelhece bem.
O comprimento. Polos mais longas, com fralda de tênis, foram feitas para entrar na calça, com cinto fino, como fazia Dean. As de barra reta e curta podem ficar para fora, como as de Newman em 1981. Uma polo comprida para fora alonga o tronco do jeito errado.
O caimento. Melhor justa do que folgada. A costura deve cair no ombro, e a manga terminar no meio do bíceps. Como a modelagem varia muito de marca para marca, vale provar.
O tecido. O piquê respira e disfarça o suor, ideal para o calor e para o esporte. As polos de tricô se comportam como malharia fina e ficam melhores sob um paletó. O atoalhado pede praia e fim de semana.
Entre a listra de Dean, a carcela aberta de Newman e o suéter por cima de McQueen, a polo revela sua natureza. Um século depois de sair da quadra de René Lacoste, continua sendo menos sobre a peça e mais sobre quem a veste. E, de preferência, com a gola abaixada.
Onde encontrar
Love Brand & Co. Powell, 135 libras, em lovebrand.com. New & Lingwood, tricô trançado, 225 libras, em newandlingwood.com. Mr Marvis, The Airy Knit Polo, 129 euros, em mrmarvis.com. Sunspel, Riviera em malha telada, 140 libras, em sunspel.com. Preços consultados em outubro de 2026; confira o envio para o Brasil no site de cada marca.
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
Imagens: reprodução e divulgação


