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Foz pega a estrada de volta para casa na SPFW N61

Em Expresso Maravilha, Antônio Castro transforma cortinas, namoradeiras, capas de sofá e panos de prato em roupa, estreia a corsetaria, traz renda de Sergipe e bordado do Rio Grande do Norte e fecha o desfile com uma noiva segurando a Constituição.
Desfile Expresso Maravilha, da Foz, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, SPFW N61 Desfile Expresso Maravilha, da Foz, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, SPFW N61
Foto: Marcelo Soubhia / @agfotosite / SPFW

WAYFARER · Estilo | SPFW N61

No fim do ano passado, Antônio Castro pôs o carro na estrada em São Paulo e só parou no Ceará. Procurava a própria casa. Pelo caminho, encontrou todas as outras: as janelas com cortina, os sofás com capa, a namoradeira no canto da sala.

Essa viagem virou Expresso Maravilha, a coleção que a Foz apresentou no domingo, 18 de outubro, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Ibirapuera. O estilista alagoano, que vive em São Paulo, transformou a passarela numa rodovia de volta para a terra natal e fez dela um retrato do Brasil visto de dentro das casas, com tudo o que acontece lá dentro.

O desfile em 30 segundos

  • A coleção: Expresso Maravilha, de Antônio Castro
  • O ponto de partida: uma viagem de carro de São Paulo ao Ceará
  • A matéria: cortinas, almofadas, capas de sofá, mosquiteiros, colchas e chita
  • As estreias: corsetaria interna, renda irlandesa de Sergipe e bordados de pedraria do Rio Grande do Norte
  • O final: uma noiva com a Constituição de 1988 no lugar do buquê

I. A casa

O que mora dentro de uma sala brasileira

Antônio construiu a coleção com símbolos comuns, quase banais, das casas que encontrou pelo país: cortinas, namoradeiras, almofadas, galinheiros, capas de sofá, mosquiteiros e colchas. Em vez de citá-los de longe, ele os vestiu. Num look, aparece a imagem de uma namoradeira emoldurada por uma cortina. Em outro, almofadas foram aplicadas sobre um vestido. Os franzidos das capas de sofá viraram tops justos ao corpo, e os desenhos em ponto cruz dos panos de prato passaram para as blusas.

As saias em camadas são de chita, o tecido que veste as festas juninas do Nordeste. O patchwork organiza tudo em composições muito coloridas, com predomínio dos vermelhos. Na primeira fila, os convidados receberam livros, um gesto que reforçou o tom de memória da apresentação.

II. O desejo

A casa também tem quarto

A grande mudança de tom desta temporada é a sensualidade, que a Foz nunca tinha assumido tão abertamente. Os modelos masculinos aparecem com sungas, camisas abertas, cardigãs de patchwork e shorts mínimos, mostrando bem mais pele do que nas coleções anteriores. Nas peças femininas, os bordados vão além das paisagens domésticas: há duas mulheres se beijando e um casal se amando numa janela. O próprio estilista brincou com a virada, como quem admite que a marca, enfim, cresceu.

O gesto completa o retrato. Uma casa brasileira não é só a sala arrumada para a visita. É também o quarto, o afeto e o desejo que acontecem atrás da cortina, e Antônio decidiu bordar essa parte também.

III. A técnica

Alta-costura brasileira

Conhecido por roupas fluidas, Antônio usou pela primeira vez crinolina, barbatanas e corsetaria interna para estruturar as peças. O resultado aparece nos volumes arredondados de uma saia e de um vestido em jacquard, que parecem desenhados para ocupar espaço.

Também são inéditos na marca dois saberes do Nordeste: a renda irlandesa de Divina Pastora, em Sergipe, e os bordados de pedrarias e flores em três dimensões de Timbaúba dos Batistas, no Rio Grande do Norte, ambos viabilizados com apoio do Instituto Riachuelo. Antônio chama esse trabalho de alta-costura brasileira, e o termo faz sentido. Ao lado de nomes como Catarina Mina e Marina Bitu, a Foz integra uma geração que pesquisa e mantém vivo o artesanato nordestino a partir da passarela.

IV. A noiva

Um buquê de 1988

Como nos desfiles de alta-costura de Paris, a apresentação terminou com uma noiva. A modelo Mikaela Gomes, porém, não carregava flores. Nas mãos, levava um exemplar da Constituição Brasileira de 1988, cravejado de cristais. Depois de uma viagem inteira em busca de casa, a imagem final aponta para o lar comum a todos: o país, e as regras que o mantêm de pé.


Antônio Castro saiu de São Paulo procurando a própria casa e voltou com milhares delas, costuradas uma a uma. A estrada não resolveu a pergunta, mas deu a ela uma forma: a de uma sala cheia de cor, com a cortina entreaberta e alguém esperando na namoradeira.

Para ver de perto

A marca está em @foz_____. A galeria completa do desfile está no site da SPFW.

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER. São Paulo.
Fotos: Zé Takahashi e Marcelo Soubhia / @agfotosite / SPFW

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