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Ananda Nahú e o segundo capítulo de uma mitologia pintada no Rosewood São Paulo

Há uma diferença entre pendurar arte em um hotel e deixar que ela tome o espaço de assalto. O Rosewood São Paulo escolheu, há anos, o segundo caminho. Instalado na antiga Maternidade Filomena Matarazzo, com uma torre assinada por Jean Nouvel erguida ao lado, o hotel carrega hoje mais de 450 obras em sua coleção permanente, uma quantidade que deixaria de ser hospitalidade e passaria a ser museologia se não fosse pela naturalidade com que tudo isso convive com o cotidiano de quem ali se hospeda. Ananda Nahú já fazia parte dessa coleção, autora da intervenção que cobre o sexto andar do prédio histórico. Agora ela volta, e volta maior: “Encantaria de Iara” abre em 2 de julho na galeria White Box, onde fica até 15 de agosto, com entrada gratuita das 9h às 19h.

A obra é a segunda de uma trilogia batizada “Encantarias”, que Ananda começou com “Encantaria de Jurema”, apresentada no lounge do Rosewood durante a última SP-Arte. Se aquela foi uma introdução, esta é uma imersão completa. Com curadoria de Katia D’Avillez e expografia de Danilo Garcia, a instalação recusa a lógica tradicional de quadro na parede: seis telas de 150 por 110 centímetros, em acrílica, tomam a White Box do chão ao teto, concebidas para funcionar como um organismo único. Não há neutralidade possível dentro daquele espaço. Ou se entra na história ou não se entra.

E a história é a de Iara. Sereia das águas doces, cabocla, senhora do rio que se recusa a ser manso, a figura que Ananda escolheu carrega séculos de folclore brasileiro e uma leitura contemporânea de força feminina, mistério e conexão com a natureza. Na pintura, esse mito ganha corpo através da fusão entre a mulher e a mata: raízes que se tornam veias, rios que se tornam olhares, a onça como símbolo de poder. É uma gramática visual que Ananda constrói com referências ao tropicalismo e ao surrealismo, sem nunca deixar de ser genuinamente brasileira, cores vibrantes e grafismos que dividem espaço com textos poéticos incorporados diretamente às telas.

Essa fluência entre escalas é a marca registrada da artista. Ananda transita com a mesma naturalidade entre o muralismo, que exige pensar em arquitetura, e a pintura de cavalete, que exige pensar em detalhe. “Encantaria de Iara” é onde as duas linguagens se encontram: a obra ocupa fisicamente a sala, mas constrói ali dentro uma mitologia inteira, com a densidade de quem já testou essa história em paredes muito maiores.

A programação cultural do Rosewood São Paulo não para nessa exposição. No Le Jardin Selva, “Impressões da Terra”, de Hugo França, reúne peças esculpidas em madeira de reaproveitamento até 8 de setembro. Na Galeria Filomena, “Gabinete de Curiosidades”, assinada pela Ecoarts Amazônia, coletivo de mulheres do Alto Xingu, permanece até 13 de julho revisitando o conceito histórico dos gabinetes de curiosidades através da floresta amazônica. Três mostras simultâneas, três leituras distintas do Brasil, todas coexistindo dentro do mesmo endereço na Bela Vista. É a evidência mais clara de que o Rosewood São Paulo não está apenas expondo arte brasileira. Está construindo, com método, um dos programas culturais mais consistentes da hotelaria do país.

Vale reservar um horário. Não é preciso ser hóspede para atravessar a White Box, e a experiência não pede pressa: são poucos minutos de percurso, mas o suficiente para sair do outro lado com a sensação de ter mergulhado nas águas de Iara.

Serviço

“Encantaria de Iara”, por Ananda Nahú
Galeria White Box, Rosewood São Paulo
De 2 de julho a 15 de agosto de 2026
Aberto ao público das 9h às 19h, entrada gratuita
Rua Itapeva, 435, Bela Vista, São Paulo

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