O cineasta australiano Baz Luhrmann, conhecido por seu estilo visual exuberante em filmes como Romeo + Juliet e Moulin Rouge!, levou sua sensibilidade cinematográfica para um novo território. Em parceria com sua esposa e colaboradora criativa Catherine Martin, ele assinou o design de um novo vagão para o lendário trem British Pullman, da Belmond. Batizado de Celia, o espaço propõe uma viagem sensorial que mistura o universo de A Midsummer Night’s Dream com o glamour do Jazz Age, criando um ambiente que se aproxima mais de um cenário cinematográfico do que de um vagão ferroviário tradicional.


A proposta do projeto é transportar os passageiros para um refúgio onírico. A ideia de Luhrmann era criar um lugar onde mentes livres pudessem se reunir, viajar com elegância e, sobretudo, viver uma experiência estética completa. O diretor contou que o ponto de partida foram seus próprios esboços e anotações, que depois ganharam forma nas mãos de Catherine Martin. Segundo ele, a parceira tem uma habilidade singular para transformar ideias em ambientes acolhedores e mágicos.
O casal, que trabalha junto há décadas no cinema, desenvolveu ao longo do tempo uma linguagem criativa compartilhada. Essa dinâmica foi essencial para a criação do novo vagão. O processo começou de forma intuitiva, com rabiscos e conceitos narrativos que posteriormente evoluíram para um projeto que mistura cenografia, design e storytelling.

Luhrmann também revela uma relação pessoal com o tema das viagens de trem. Para ele, deslocamentos ferroviários têm um efeito quase hipnótico, capazes de colocar o viajante em um estado de contemplação. O diretor lembra de uma experiência marcante logo após concluir Moulin Rouge!, quando embarcou na lendária Transiberiana. Apesar das condições simples da viagem na época, o trajeto se transformou em um momento de introspecção. Entre uma taça de vinho australiano e a audição de The Great Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, ele observava a paisagem da Sibéria passar pela janela, descrevendo a experiência como profundamente transformadora.
Essa memória ajudou a moldar a concepção do vagão Celia. O projeto também se inspirou em um histórico Pullman dos anos 1970 pertencente ao ator Laurence Olivier, que utilizava o trem para viajar entre Londres e Brighton. A partir dessas referências surgiu a personagem fictícia que dá nome ao vagão.

Na narrativa imaginada por Luhrmann, Celia seria uma atriz estrelando uma montagem de A Midsummer Night’s Dream. Seu amante americano, generoso e extravagante, decide presenteá-la com um vagão de jantar e bar extraordinariamente sofisticado, repleto de recantos secretos e detalhes surpreendentes. Essa história ficcional orienta toda a atmosfera do espaço.
Instalado dentro de um vagão Pullman original de 1932, o interior traz marchetaria elaborada inspirada na flora e na fauna presentes na peça de Shakespeare. O ambiente inclui bar de coquetéis, lounge, sala de jantar e espaço de entretenimento, acomodando grupos de até doze convidados. Cada detalhe foi pensado para criar a sensação de atravessar um portal para outra época.

O bar funciona como um espaço independente, onde a equipe participa da experiência quase como personagens de uma encenação. Ao seguir para o salão principal, um painel eletrônico se abre revelando o chef preparando os pratos. A proposta é que o vagão possa se adaptar a diferentes ocasiões. Pode receber apresentações musicais intimistas, um DJ set, discursos ou até celebrações privadas como casamentos. O teto com iluminação variável permite alterar completamente a atmosfera do ambiente.
Para Luhrmann, no entanto, um dos espaços mais encantadores é o banheiro. Decorado com referências Art Déco e elementos inspirados no universo de Shakespeare, o ambiente lembra um pequeno cofre de joias. O diretor compara o espaço ao trono de Titania cercado por folhagens, como se fosse um pequeno santuário escondido dentro do vagão.

O cineasta também enxerga a arte de receber convidados como algo profundamente sério. Segundo ele, uma festa bem-sucedida não depende apenas do cenário ou do luxo da gastronomia. O verdadeiro segredo está na combinação das pessoas certas no ambiente certo e na trilha sonora adequada para conduzir a noite.
Se dependesse dele, a música ideal para acompanhar a viagem em Celia misturaria jazz clássico com referências contemporâneas. Luhrmann imagina versões inspiradas no Jazz Age para canções modernas, numa lógica semelhante à trilha sonora que produziu para The Great Gatsby, quando convidou Bryan Ferry para reinterpretar sucessos contemporâneos com arranjos orquestrais.

Com lançamento previsto para o início do verão europeu de 2026, o vagão Celia promete se tornar uma das experiências mais exclusivas do British Pullman. Equipado com bar, lounge, espaço gastronômico e área de entretenimento, o ambiente poderá ser reservado por grupos privados.
Para Luhrmann, o objetivo final da experiência é simples. Em um mundo cada vez mais acelerado e carente de delicadeza, ele espera que os convidados saiam do trem levando consigo uma sensação rara de encanto, calor humano e beleza. A ideia é que, ao retornar a Londres após a viagem, os passageiros sintam como se tivessem se afastado do cotidiano por muito mais tempo do que apenas um dia.