Há coleções que documentam um gosto. Outras documentam uma vida inteira de decisões visuais, tomadas primeiro sobre tecidos e portfólios de estampas, depois sobre telas de museu. A que Peter Simon reuniu ao longo de décadas pertence à segunda categoria, e chega agora ao mercado com uma avaliação entre 87 milhões e 127 milhões de libras (118 milhões a 172 milhões de dólares).
A Christie’s anunciou que “Monsoon: The Peter Simon Collection” será leiloada em 14 e 15 de outubro, durante a Frieze Week em Londres. Com quase 200 obras assinadas por nomes como Francis Bacon, Piet Mondrian, Pablo Picasso, Ben Nicholson, Barbara Hepworth e Jeff Koons, a venda está dividida em três formatos: um leilão noturno, um leilão diurno e uma sessão online. É, segundo a casa, a coleção de proprietário único de maior valor já oferecida em sua sede londrina.
Simon é o fundador das marcas de moda Monsoon e Accessorize, e faz questão de traçar a linha entre seu ofício original e o olhar que desenvolveu como colecionador. Em comunicado, descreveu os primeiros anos da empresa como um exercício constante de seleção visual: sentava-se com designers de moda e têxteis “peneirando portfólio atrás de portfólio”, escolhendo o que poderia ser convertido em tecido. Foi esse hábito, segundo ele, que afinou sua capacidade de identificar “a melhor combinação de cor e composição em uma imagem”.
O acervo começou pelos artistas britânicos, com destaque para Bacon, Nicholson e Hepworth. Simon descreve o objetivo desde o início como o de “construir pontes e fomentar diálogo entre mundos diferentes”, e afirma que agora busca uma “nova direção” para colecionar.

Entre os lotes centrais estão duas obras de Bacon: Figure in Movement (1978), estimada entre 14 milhões e 18 milhões de libras (19 milhões a 24,4 milhões de dólares), e Study for a Figure (ca. 1945), avaliada entre 4 milhões e 6 milhões de libras (5,4 milhões a 8 milhões de dólares). O Mondrian Composition A, with Double Line and Yellow (1935) deve ir a leilão por 8 milhões a 12 milhões de libras (11 milhões a 16 milhões de dólares), enquanto Peinture (Les amants, Adam et Eve) (1925), de Joan Miró, tem estimativa entre 7 milhões e 10 milhões de libras (9,5 milhões a 14 milhões de dólares).
A coleção reúne ainda trabalhos de Frank Auerbach, Leon Kossoff, Fernand Léger e Willem de Kooning, além de Diamond Dust Shoe (1980), de Andy Warhol, estimado entre 1,8 milhão e 2,5 milhões de libras (2,4 milhões a 3,4 milhões de dólares). A peça, com mais de dois metros de altura, remete à passagem do artista pela ilustração comercial nos anos 1950, período em que a Women’s Wear Daily o apelidou de “Leonardo da Vinci do calçado”.
Katharine Arnold, vice-presidente da Christie’s para arte dos séculos XX e XXI na Europa, descreveu o acervo de Simon como “dinâmico” e “livre das amarras de geografia e tempo”, uma síntese que talvez explique por que a coleção de um empresário da moda se tornou, também, um retrato de como olhar se aprende primeiro nas mãos.


