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Em Goodwood, a velocidade tem boas maneiras

The Rivals é o tema do ano. Até este sábado, o Festival of Speed já entregou uma semana em crescendo: de um RB17 estreante à volta de Valentino Rossi, do concours no Cartier Lawn ao martelo da Bonhams.

WAYFARER · Despacho · Goodwood Festival of Speed 2026

The Rivals é o tema do ano. Até este sábado, o Festival of Speed já entregou uma semana em crescendo: de um RB17 estreante à volta de Valentino Rossi, do concours no Cartier Lawn ao martelo da Bonhams.

West Sussex · sábado, 11 de julho


Existe uma velocidade que não precisa gritar para ser levada a sério. Ela mora numa colina de West Sussex, no parque da Goodwood House, onde há mais de trinta anos o Duque de Richmond transformou uma subida de pouco mais de um quilômetro no encontro mais cobiçado do automobilismo. Chamam de a grande festa de verão do motorsport. É uma boa definição, desde que se entenda que, aqui, festa combina com compostura.

O tema deste ano é The Rivals, e a semana subiu em crescendo. Na quinta, a colina viu o RB17 de Adrian Newey estrear nas rodas diante do público, enquanto a Ducati abria o seu centenário com uma varanda de campeões que atravessa eras, de Carl Fogarty a Casey Stoner, ao lado da série limitada Collezione 100. Foi também o dia de reverência a Barry Sheene, homenageado o ano inteiro pela casa, com um punhado das suas motos de Grande Prêmio de volta à ativa.

Na sexta veio o momento que o festival guardava. Lando Norris, primeiro título mundial de Fórmula 1 selado por dois pontos sobre Verstappen em Abu Dhabi, dividiu a varanda com Valentino Rossi, de volta a Goodwood pela primeira vez desde 2015. Nove títulos mundiais, uma vida em duas rodas e um segundo capítulo, já sério, sobre quatro: o italiano surgiu de amarelo fluorescente, a mesma cor que Norris herdou, e por um instante duas gerações e duas disciplinas ocuparam o mesmo palco. No mesmo dia, o irlandês John McGuinness foi celebrado, trinta anos depois da sua estreia.

Goodwood não celebra a máquina. Celebra quem a conduz, e o tempo que ela atravessa.

Neste sábado, Norris voltou sozinho. Guiou o McLaren MCL60 morro acima antes de aparecer na varanda da Goodwood House, o ponto alto do fim de semana, com Gerhard Berger por perto para lembrar que carisma também é herança.

Em torno da subida, os fabricantes fizeram o que Goodwood faz melhor: mostraram sem alarde. A Rolls-Royce trouxe um exemplar sob medida cujo forro estrelado alinha 1.307 fibras óticas postas à mão, com coordenadas gravadas nas saídas de ar, uma para a Goodwood House, outra para a fábrica da marca. A Bentley expôs um degradê de pintura aplicado em cinquenta e seis horas de trabalho manual. A tcheca Praga levou o Bohema, menos de mil quilos e setecentos cavalos de vontade. A Ferrari marcou os seus setenta e cinco anos, e a Fórmula E, às vésperas de uma nova era, fez a sua maior presença na colina. Nada disso, porém, foi o que mais disse sobre o que interessa a esta casa.

A sudoeste da mansão, longe do rugido, o Cartier Style et Luxe faz o contraponto exato. É o mais fino dos concours, e este ano reúne sete classes de aniversário: o centenário da Mercedes-Benz em carrocerias pré-guerra, os trinta anos do primeiro Koenigsegg, os cento e dez da Carrozzeria Ghia, e uma classe dedicada ao próprio nascimento do automóvel. Ali, sobre a relva, os carros param de correr e passam a ser lidos como o que também são: objetos de cultura, julgados por um painel que quase nunca vem só do automobilismo.

A colina grita. O gramado responde em voz baixa. As duas dizem a mesma coisa.

Na marquise da Bonhams, trinta e três anos de parceria com a casa, o martelo tem os seus próprios protagonistas. O lote de destaque é um Bugatti Veyron de 2007, um único dono e setecentos quilômetros rodados, oferecido sem reserva. É o tipo de peça que muda de mão poucas vezes numa geração.

Há um fio brasileiro na subida. Bruno Senna, sobrenome que dispensa apresentação, conduz parte do acervo histórico da McLaren, o MP4/8 entre eles. Para o leitor brasileiro, é a linha que liga a colina inglesa a uma memória nossa, sem precisar sublinhar.

O festival ainda tem o seu ato final. No domingo, a varanda da Goodwood House pertence a Damon Hill, trinta anos depois do título de 1996, reunido ao Williams FW18 que o levou lá, antes de a casa entregar o palco ao vencedor do Shootout cronometrado. Até então, fica a impressão que Goodwood repete há mais de três décadas: a de que a pressa é do cronômetro, nunca de quem assiste. A velocidade, aqui, aprendeu boas maneiras.

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
De Goodwood, West Sussex.

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