WAYFARER · BOAT | Fort Lauderdale
Todo salão náutico promete o futuro. Fort Lauderdale prefere apresentar a conta.
A 67ª edição do Fort Lauderdale International Boat Show terminou em 1º de novembro com uma aritmética curiosa. Segundo o levantamento de encerramento da YachtBuyer, a frota de superiates subiu de 170 para 211 embarcações e as estreias saltaram de 86 para 119. No mesmo movimento, o comprimento médio caiu de 35,43 para 32,93 metros e a idade média recuou de 11,34 para 9,58 anos.
Mais barcos. Mais novos. Um pouco menores. O metro deixou de ser o único argumento, e a pergunta que os estaleiros levaram à Flórida é menos ruidosa e mais difícil de responder. Como se mora a bordo?
Para o leitor brasileiro, há uma segunda pergunta: o que daquelas docas chega até aqui? Mais do que parece. Parte dos destaques da semana é construída em Santa Catarina e no Ceará, e outra parte tem representante ou presença regular nos salões do país. Foi esse o filtro desta seleção.
Azimut Grande 30M: o troféu com endereço em Itajaí

O Grande 30M fez sua estreia americana e saiu com o Best of Show na categoria de superiates acima de 60 pés. São 28,69 metros, 7,3 metros de boca, cinco suítes para dez hóspedes e até 25 nós com dois mtu de 1.800 cv e propulsão por PODs. As linhas são de Alberto Mancini, os interiores, do m2atelier. Em nota, a marca lembrou que apresentou em Miami, em 1982, o primeiro iate de fibra acima de 30 metros. Quarenta e quatro anos depois, voltou à mesma costa para receber o prêmio.

O desenho explica o prêmio. O Deck2Deck Terrace liga popa, interior e mar. O Infinity Skydeck soma 105 m², dos quais 35 podem ser fechados e climatizados. A fibra de carbono na parte alta da embarcação baixa o centro de gravidade, e a Azimut atribui ao conjunto reduções de até 30% em consumo e emissões.

No Brasil. A construção da unidade nacional começou em junho em Itajaí, única fábrica própria da marca fora da Itália. O preço estimado parte de R$ 90 milhões, duas unidades já estão reservadas e a primeira deve tocar a água em meados de 2028. Em setembro, o São Paulo Boat Show recebeu uma réplica em tamanho real do flybridge, com 7,5 toneladas, porque o barco não caberia no pavilhão. O ciclo de R$ 120 milhões em investimentos até 2028 leva o complexo a 65 mil m². Quem acompanha a casa conhece a lógica: a Fly 58 integrou a cozinha à praça de popa pensando em como o brasileiro recebe a bordo.

Inace ISY 130 Aventura: Fortaleza apresenta seu explorador

A estreia brasileira de maior escala não ocupava uma doca. Estava em renderização. A Inace Superyachts escolheu a feira para revelar o ISY 130 Aventura, de 39,6 metros, com arquitetura naval e design de Sérgio Cutolo, da Hydro Tec. Casco de aço, superestrutura de alumínio, 235 GT, cinco cabines para dez hóspedes e dois motores de 800 cv, para 13 nós de máxima. Velocidade, aqui, é assunto secundário: o projeto foi pensado para autonomia longe de qualquer apoio em terra, com piscina de borda infinita na popa e spa no convés superior.
No Brasil. Tudo. O estaleiro é de Fortaleza, entregou em 2025 o primeiro Aventura 106 e acaba de vender o primeiro ISY 150 Explora, de 45,7 metros, com entrega prevista para 2029.
Schaefer: cinco barcos na Flórida, 26 metros a caminho

A Schaefer Yachts levou à doca F/G os modelos V44, 660, 380, V34 e V33 SF. O V34, de 10,4 metros, fez ali sua primeira aparição no salão, com cockpit pensado para receber e popa que vira solário. A marca mantém endereço próprio em Fort Lauderdale e trata a Flórida como praça de venda.
No Brasil. Casa própria, em Florianópolis. O próximo capítulo tem 26 metros, foi apresentado no São Paulo Boat Show e já soma três unidades vendidas, duas para o Brasil e uma para os Estados Unidos, com água prevista para abril de 2027. “Os barcos grandes estão fortes”, disse Márcio Schaefer à Forbes Brasil.
Ferretti Yachts 1000, Riva e Pershing: o caminho passa pela Okean

O Ferretti Group reuniu na Flórida o Ferretti Yachts 1000, Riva 82′ Diva, Custom Line Saetta 120′, Pershing 6X, Pershing GTX70, wallywhy100 e wallypower50. A frase da semana veio do novo CEO, Stassi Anastassov, que falou em antecipar o que o dono vai querer em 2030, criticou a indústria que apenas alonga os modelos existentes e resumiu sua posição comercial em três palavras: “I hate discounts”.
No Brasil. O Grupo Okean, de Itajaí, é o único estaleiro fora da Itália autorizado a construir Ferretti Yachts e detém a venda exclusiva de Riva e Pershing no país. O FY 1000, com 30,13 metros, é o maior barco de fibra em série produzido aqui, e o FY 940 já tem duas unidades vendidas. A marca própria também estava na feira: uma Okean 52 no píer de uma corretora, lembrança de que o grupo exporta para os Estados Unidos.
O metro deixou de ser o único argumento. A pergunta agora é como se mora a bordo.
Princess C48 e X90: duas apostas, uma representante

Poucas marcas expuseram tão bem a virada do setor. Em uma ponta, a C48 Open, estreia mundial e primeiro Princess com motores de popa: 14,91 metros, casco de Michael Peters e até 50 nós com três Mercury Verado V12 de 600 cv. É a entrada do estaleiro britânico no mercado de day boats, com opção de motor interno e versão Deck Saloon.

Na outra ponta, o X90, de 27,1 metros, em estreia norte-americana. A popa funciona como beach club, com terraços rebatíveis, e a suíte principal ocupa a proa do convés principal, com vista de 270 graus. Um barco para sair por algumas horas, outro para não voltar por semanas.

No Brasil. A marca é representada pela YB Nautic Group, que expôs X80 e Y72 no Rio Boat Show deste ano. A Princess já tem data para voltar ao salão carioca em 2027.
Sanlorenzo, Bluegame, De Antonio e Williams: a mesma porta de entrada
A YB Nautic concentra outras marcas vistas em Fort Lauderdale. A Sanlorenzo, que fez em abril sua primeira aparição oficial no Rio Boat Show, com o SD90, levou à Flórida o SL120 Asymmetric, de 36,9 metros, cuja assimetria troca um corredor lateral por área interna. A Bluegame, do mesmo grupo, estreou nos Estados Unidos o BGX83, de 25,6 metros, que aproxima os ambientes internos da água. A espanhola De Antonio, presente no São Paulo Boat Show pelo YB Group, mostrou o D36 Cabin, e a Williams apresentou a nova linha de tenders TurboJet MX, de 2,8 e 3,2 metros.
Prestige, Beneteau, Jeanneau e Wellcraft: a frota francesa

O Groupe Beneteau teve uma das semanas mais movimentadas da feira. A Prestige trouxe o F6.7, capitânia da nova geração da linha F, com cerca de 20 metros, além dos catamarãs M6 e M8 EVO, este com 19,82 metros. A Beneteau estreou nos Estados Unidos o Gran Turismo 50, de 15,95 metros, com casco de Bill Dixon e desenho da Andreani, e a Flyer 30, de convés único. A Jeanneau mostrou o TH38, catamarã de 11,82 metros premiado no Yacht Style Awards, e a Wellcraft estreou a 28 T-Top e a 28 Explorer.

No Brasil. A Wellcraft esteve no São Paulo Boat Show de setembro, e Beneteau e Jeanneau são presença recorrente nos salões do Rio, sobretudo com seus veleiros. A motorização também faz a ponte: Mercury, Volvo Penta e Yamaha, que equipam boa parte dos lançamentos da feira, têm operação e estande no mercado brasileiro.
O restante da doca
Alguns dos lançamentos mais comentados ainda não têm caminho claro até a Marina da Glória, mas apontam para onde o mercado vai. A Pearl mostrou a primeira unidade do 100 Hybrid, de 29,43 metros, com sistema híbrido de série e até 12 horas de sistemas de bordo apenas com baterias. O Horizon PC68A, catamarã de 21,34 metros, foi desenhado desde a origem para quem usa cadeira de rodas, com elevador entre os conveses. A Sunseeker estreou a Manhattan 56, de 17 metros, com varandas rebatíveis na popa. A Galeon lançou a 570 Sky, de 17,55 metros, que esconde um flybridge sob o perfil de um hardtop. A Absolute trouxe a Navetta 66, a Oyster revelou o P60, seu primeiro catamarã a motor, e a Westport apresentou o 172 Endeavour, de 52 metros.




O que isso diz ao comprador brasileiro
Na Flórida, a média encolheu. No Brasil, o movimento é o inverso: os estaleiros descrevem um cliente que sobe de categoria e pede mais área de convivência. Daí a coincidência de vocabulário entre as duas feiras: varanda, popa integrada, plataforma, flybridge. Azimut já constrói em Itajaí o modelo que acaba de vencer na Flórida. Inace oferece a partir de Fortaleza um explorador para o mercado global. Schaefer vende 26 metros para os dois lados do Equador. Já não se trata apenas de importar uma tendência. Em alguns casos, ela sai daqui.
No último dia, uma tempestade chegou ao sul da Flórida enquanto as marinas se esvaziavam. As docas ficam em silêncio, e a conta que Fort Lauderdale apresenta passa a ser paga longe dali: nos contratos dos próximos meses, nos estaleiros que trabalham até 2029, em uma fábrica de Santa Catarina onde um casco ainda sem água já tem dono. O futuro, em náutica, costuma chegar assim. Com dois anos de antecedência e sem levantar a voz.
Ficha: os lançamentos e o caminho até o Brasil
| Modelo | Comprimento | Em Fort Lauderdale | No Brasil |
|---|---|---|---|
| Azimut Grande 30M | 28,69 m | Estreia nos EUA; Best of Show | Fábrica em Itajaí; unidade nacional em 2028 |
| Inace ISY 130 Aventura | 39,6 m | Projeto apresentado | Estaleiro em Fortaleza |
| Schaefer V34 | 10,4 m | Primeira aparição no salão | Estaleiro em Florianópolis |
| Ferretti Yachts 1000 | 30,13 m | Em exposição | Construído pelo Grupo Okean, em Itajaí |
| Princess C48 Open | 14,91 m | Estreia mundial | YB Nautic Group |
| Princess X90 | 27,1 m | Estreia na América do Norte | YB Nautic Group |
| Bluegame BGX83 | 25,6 m | Estreia nos EUA | Grupo Sanlorenzo, com YB Nautic no país |
| Prestige M8 EVO | 19,82 m | Estreia nos EUA | Sem revenda oficial listada |
| Beneteau Gran Turismo 50 | 15,95 m | Estreia nos EUA | Marca presente nos salões brasileiros |
| Jeanneau TH38 | 11,82 m | Estreia na feira | Marca presente nos salões brasileiros |
Fort Lauderdale International Boat Show, 67ª edição. De 28 de outubro a 1º de novembro de 2026, Fort Lauderdale, Flórida. Dados de frota: YachtBuyer MarketWatch.
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER. São Paulo.

