VIAGEM · Mediterrâneo de inverno
O Mediterrâneo de verão pertence a todo mundo. O de inverno ainda pertence a quem sabe esperar.
Entre novembro e março, as praias esvaziam, os preços respiram e as cidades voltam a viver para si mesmas. A luz fica mais baixa, as mesas mais fáceis, e o calendário passa a ser feito de festivais, colheitas e festas locais, não de filas. O mercado já percebeu: a La Compagnie, companhia aérea só de classe executiva, estendeu pela primeira vez a rota entre Nova York (Newark) e Nice para a temporada de inverno 2026-2027.
É, em certo sentido, uma volta às origens. Antes de os anos 1920 transformarem a Côte d’Azur em destino de verão, a Riviera era o refúgio de inverno da aristocracia europeia. Os hotéis acompanham a virada: no Lago de Como, o Passalacqua ganhou uma piscina coberta de 18 metros instalada na antiga estufa da villa. Abaixo, quatro endereços e o mês em que cada um mostra o seu melhor lado.
Em 30 segundos
- Novembro: Mônaco, com o Monte-Carlo Jazz Festival de 18 a 29 de novembro de 2026, na Salle Garnier
- Dezembro: Sicília, com a safra de cítricos, neve no Etna e mesas com estrela Michelin
- Janeiro: Maiorca, quando o ciclismo profissional ocupa as estradas da ilha
- Fevereiro e março: Creta, com Chania em ritmo local e o carnaval ortodoxo
I. Novembro
Mônaco: o jazz volta à Salle Garnier
Novembro devolve Monte-Carlo aos moradores. Sem o Grande Prêmio nem os iates de agosto, o principado se organiza em torno do Monte-Carlo Jazz Festival, que em 2026 completa 20 anos e ocupa a Salle Garnier, a ópera de Charles Garnier na Place du Casino, de 18 a 29 de novembro. A programação passa por Gregory Porter (20/11), Melody Gardot (21/11) e The Brand New Heavies (26/11), num teatro de pouco mais de 500 lugares.

A chegada mais elegante continua sendo pelo ar: do aeroporto de Nice, o helicóptero cruza a costa em poucos minutos e evita a estrada litorânea. Para ficar, o Hôtel Hermitage é a escolha de quem prefere a discrição ao palco: Belle Époque, jardim de inverno sob a cúpula de vidro de Gustave Eiffel, e a poucos passos do vizinho mais fotografado, o Hôtel de Paris.

II. Dezembro
Sicília: laranjas, neve e mesas estreladas
Dezembro é o mês em que a Sicília cheira a cítrico. A safra das laranjas sanguíneas da planície de Catânia começa nessa época e muda os cardápios da ilha. Ao fundo, o Etna costuma aparecer branco: com neve suficiente, as estações de Etna Nord, em Piano Provenzana, e Etna Sud funcionam como pistas de esqui com vista para o mar.

A base certa fica entre Catânia e Taormina. Em Santa Venerina, a Rocca delle Tre Contrade, propriedade de 12 suítes reservada pela The Thinking Traveller, ocupa uma antiga vinícola de 1850 numa colina com vista para o Etna e para o mar. Para comer, o I Pupi, em Bagheria, tem estrela Michelin e a cozinha siciliana pessoal do chef Tony Lo Coco. Mais ao sul, Agrigento recompensa a viagem com o Vale dos Templos sem a multidão do verão.

Fora de estação, o Mediterrâneo deixa de ser cenário e volta a ser lugar.
III. Janeiro
Maiorca: a ilha dos ciclistas
Em janeiro, as estradas da Serra de Tramuntana são das equipes profissionais. O clima ameno e as subidas longas fizeram de Maiorca o campo de treino de inverno do ciclismo europeu, e no fim do mês a ilha recebe a Challenge Ciclista Mallorca, série de corridas de um dia conhecidas como trofeus. Dá para assistir das curvas ou percorrer os mesmos trajetos depois, e uma bicicleta elétrica nas subidas mais duras não é motivo de constrangimento.
Para ficar, o Cap Rocat ocupa uma fortaleza militar do século XIX na entrada da Baía de Palma, convertida em hotel com o mar como única vizinhança. Na cidade, o Andana é a mesa da chef maiorquina Maca de Castro, que cozinha com o que vem da própria horta em Sa Pobla.
IV. Fevereiro e março
Creta: Chania antes da Quaresma
O fim do inverno é a estação mais amena de Creta, e Chania é a cidade que não depende do turista para existir. Sem os cruzeiros, o porto veneziano e as ruas da cidade velha voltam ao ritmo de quem mora ali. Uma casa alugada no centro histórico resolve a estada; nas noites de vento, o Fagotto Jazz Bar, na cidade velha, resolve o resto.
O calendário tem o seu ponto alto nas semanas do carnaval ortodoxo. Na Tsiknopempti, a quinta-feira que antecede a Quaresma, as grelhas tomam as ruas. Em 2027, ela cai em 4 de março.
O verão continuará cheio, quente e disputado. O Mediterrâneo de inverno segue esperando quem aceita trocar o sol a pino por uma luz mais baixa, um jazz em teatro pequeno, uma laranja tirada do pé. Pertence a quem sabe esperar, e espera por pouca gente.
Serviço: Monte-Carlo Jazz Festival, de 18 a 29 de novembro de 2026, Salle Garnier, Opéra de Monte-Carlo (montecarlolive.com) · Hôtel Hermitage (hotelhermitagemontecarlo.com) · Rocca delle Tre Contrade (thethinkingtraveller.com) · I Pupi, Bagheria (Guia Michelin) · Cap Rocat (caprocat.com) · La Compagnie, Newark a Nice no inverno (lacompagnie.com) · Tsiknopempti 2027: 4 de março.
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
Fotos: Wikimedia Commons (créditos nas legendas). Abertura: Cayambe, CC BY-SA 4.0


