DRIVE · Salão de Paris 2026
Toda montadora tem um passado. Poucas têm oito, e menos ainda sabem o que fazer com eles. Na véspera do Salão de Paris, a Stellantis apostou que a resposta está justamente aí: em vez de diluir suas marcas numa mesma receita, acentuar o que cada uma tem de próprio.
O cenário foi o Hangar Y, em Meudon, nos arredores de Paris: um antigo hangar de dirigíveis do século XIX, hoje espaço cultural cercado de floresta. Ali, numa noite batizada de “The Night Before”, o grupo apresentou em primeira mão seis protótipos de Citroën, Fiat, Alfa Romeo, DS, Peugeot e Opel, e abriu publicamente a estratégia FaSTLAne 2030, conduzida pelo CEO Antonio Filosa. No Mondial de l’Auto, de 12 a 18 de outubro, o estande da Stellantis, o maior do salão, reúne mais de 60 veículos de oito marcas.
Em 30 segundos
- Seis protótipos revelados no Hangar Y, na noite anterior ao Salão de Paris
- O destaque: um novo Citroën 2CV elétrico, previsto para 2028, por cerca de 15 mil euros
- Fiat, Alfa Romeo, DS, Peugeot e Opel mostram para onde vai o desenho de cada marca
- A tese do grupo: com plataformas compartilhadas, a identidade de marca vira o ativo mais valioso

A montagem emprestou a gramática da moda: passarela central, arquibancadas laterais, trilha quase cinematográfica e cada marca com sua própria luz e seu próprio discurso. A encenação dizia muito sobre o negócio. Quando tantas marcas dividem as mesmas plataformas, o que as separa deixa de ser engenharia e passa a ser caráter. O portfólio da Stellantis quer ser lido como uma caixa de bombons variados, não como um pacote de doces iguais.

Dos seis protótipos, alguns ecoaram mais do que outros. Isso diz menos sobre a qualidade de cada projeto e mais sobre o peso de cada herança, e sobre como cada marca soube cuidar do próprio repertório ao longo das décadas.
I. Citroën
2CV Concept: o carro de todos, de volta

O protótipo mais celebrado da noite foi, sem disputa, o renascimento do 2CV. Pressionada pelo sucesso retrô da Renault com o R5 e o R4, e atenta ao modo como a Fiat explora a própria história, a Citroën demorou a reagir, mas chegou com uma proposta coerente. O novo 2CV será exclusivamente elétrico, com 3,76 metros de comprimento e meta de cerca de uma tonelada. A marca promete revelá-lo em versão de produção em até dois anos e colocá-lo nas lojas até 2028, fabricado na Europa, com preço inicial na casa dos 15 mil euros.


O exercício vai além da homenagem. Cada detalhe, da capota de lona enrolável aos bancos que lembram poltronas de tubo de metal, é também uma decisão de custo. O carro foi pensado para as novas regras europeias de carros elétricos urbanos e acessíveis, num espaço entre o Ami e o C3.

O 2CV original nasceu como um carro para todos, tão à vontade nas estradas de terra do interior francês quanto nos paralelepípedos de Paris. O protótipo recupera esse despojamento. Puxadores, saídas de ar, rádio removível, capô vincado, para-choques, alavanca de câmbio: está tudo lá. Para quem guarda lembrança do modelo, é dia de festa. Para os demais, um desenho que ainda seduz.


Quando tantas marcas dividem as mesmas plataformas, o que as separa deixa de ser engenharia e passa a ser caráter.
II. Fiat
Multiplay: memória afetiva sobre rodas
Em segundo lugar no termômetro da noite ficou o Fiat Multiplay, um exercício tão estranho quanto encantador. Inspirado no Multipla, o de 1956 e o de 1998, ele mistura monovolume, SUV e picape em 4,45 metros. Fechado, leva seis ocupantes mais um. Com o módulo traseiro deslizado, vira uma picape de quatro lugares com caçamba aberta, pronta para bicicletas e equipamento de acampamento.

O sétimo lugar, batizado de “Petsenger seat”, aceita uma cadeirinha infantil, um animal de estimação, uma mesinha ou bagagem. Tudo emoldurado por uma paleta pastel e formas simples, mais próximas do design doméstico italiano do que do automóvel. A Fiat deixa claro que o Multiplay não antecipa um modelo de produção específico. É um manifesto de ideias.


III. Alfa Romeo
Cuorerosso: o coração vermelho

Temperamento é a primeira palavra que o Cuorerosso provoca. O conceito antecipa a próxima família de modelos da Alfa Romeo, com até 4,7 metros e plataformas multienergia, e deixa espaço para versões Quadrifoglio com um V6 2.9 híbrido e tração integral Q4. A marca chama essa linguagem de “Bellezza Necessaria”.
Vestido de vermelho profundo, o carro retoma elementos que qualquer alfista reconhece: rodas no estilo pepper-pot em grande escala, grade frontal iluminada, lanternas traseiras circulares, ancas musculosas e um spoiler que parece varrer o ar à frente. Há ecos recentes do 4C e do 8C Competizione de 2008. Em alguns ângulos, beira o teatral. É espetáculo antes de ser sedução, e a Alfa parece saber disso.


IV. DS Automobiles
F3VER: o compacto como objeto de desejo

A DS talvez ocupe a posição mais delicada do grupo: uma marca de pretensão premium que habita um território pouco confortável entre o luxo e o grande volume. O conceito F3VER aposta no segmento onde a DS nasceu e pode crescer, o dos compactos sofisticados, explorando desejo, personalização e versatilidade.
Os painéis semitranslúcidos e as cores que se cruzam abrem um leque amplo de personalização, estratégia que também favorece a margem. A traseira, com lanternas em forma de infinito, convence. A dianteira divide opiniões, o que num conceito talvez seja o objetivo.

V. Peugeot
RCZ Vision: o cupê que a marca devia a si mesma

O RCZ Vision revive o nome do cupê vendido entre 2009 e 2015, que nasceu para rivalizar com o Audi TT e nunca chegou a decolar. O teto em dupla bolha volta mais fluido e elegante, sobre a plataforma STLA One. É também o protótipo mais técnico da noite: bateria de estado sólido desenvolvida com a Factorial Energy, sistema de 1.000 volts, 368 kW, até 600 km de autonomia e recarga de 10% a 80% em cerca de dez minutos.

Dentro, a Peugeot estreia a direção steer-by-wire com o volante Hypersquare e seu primeiro sistema de freio by-wire. A renovação visual da marca beneficiou hatches e SUVs, mas a Peugeot não faz um cupê verdadeiramente bonito desde o 406 Coupé desenhado pela Pininfarina, em 1997. O RCZ Vision pode ser a resposta a essa lacuna.

VI. Opel
STX: a perua que quer emocionar

Por uma ironia britânica, tudo o que é Opel se chama Vauxhall no Reino Unido, mesmo quando nada mais muda. O STX Concept, sigla de Sports Tourer Experimental, é uma shooting brake de quatro portas que antecipa o desenho das futuras peruas da marca e quer romper com a imagem sóbria e utilitária do segmento.

Da traseira vertical em estilo Kamm à dianteira facetada, com a nova assinatura luminosa Opel Vizor de lâminas animadas e o logotipo Compass mais vertical, o STX aponta para uma Opel mais emotiva. A marca garante que elementos do conceito chegarão aos próximos modelos de série.

No fim, os seis protótipos de Meudon funcionam como um mapa de intenções. Num grupo de oito marcas sob o mesmo teto, a Stellantis aposta que o futuro não está em fazê-las parecidas, mas em lembrar a cada uma quem ela já foi. Às vezes, para seguir em frente, é preciso saber voltar. O 2CV que o diga.
Serviço: Mondial de l’Auto 2026, de 12 a 18 de outubro, Paris Expo Porte de Versailles. mondial-auto.com · stellantis.com
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
Fotos: divulgação Stellantis

