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Mônaco: o último principado da elegância europeia

Encravado entre os Alpes Marítimos e o azul impossível do Mediterrâneo, Mônaco condensa em pouco mais de dois quilômetros quadrados a sofisticação que o resto da Europa levou séculos para construir. Um guia editorial pelo principado mais desejado da Riviera Francesa.
Casino de Monte-Carlo, Mônaco
Casino de Monte-Carlo, projetado por Charles Garnier em 1863. Fotografia: Martino Grua / Unsplash.

Por Gabriel Silveirado

Crônica de uma volta, e mais outra, e mais outra ao principado.

Volto a Mônaco quase todo ano. Em parte por trabalho, em parte porque o Grande Prêmio entrou no meu calendário como um ritual, mas, sendo honesto, o motivo principal é outro — Mônaco é um daqueles lugares que, uma vez compreendidos, exigem que você confirme, ano após ano, que ainda estão lá. E estão.


Há lugares que se visitam, e há lugares que se observam. Mônaco, pra mim, sempre pertenceu à segunda categoria. Quando chego pela Moyenne Corniche — vindo de Èze ou Nice, pela mesma estrada que Hitchcock imortalizou em Ladrão de Casaca —, sei exatamente o que vai acontecer: o principado não se entrega de uma vez. Ele se revela em camadas. Primeiro o brilho dos iates ancorados em Port Hercule. Depois a silhueta do Casino recortada contra o mar. E por fim a sensação difícil de nomear, mesmo depois de tantas voltas, de que ali, naquele recorte minúsculo de Riviera, o tempo segue uma cadência diferente.

Governado pela Casa de Grimaldi desde 1297, Mônaco resistiu a guerras, revoluções e à banalização que tomou conta de boa parte do Mediterrâneo. Aqui, o luxo não é um espetáculo recente. É um patrimônio.

Vista panorâmica de Monte-Carlo e da costa monegasca
O recorte do principado ao entardecer, visto da Tête de Chien. Fotografia: Jannis Lucas / Unsplash.

O que visitar

Capítulo I · Os endereços essenciais

Casino de Monte-Carlo

Inaugurado em 1863 e projetado por Charles Garnier — o mesmo arquiteto da Ópera de Paris —, o Casino de Monte-Carlo é, pra mim, menos um espaço de jogo do que um manifesto estético. Os tetos pintados, os candelabros, os mármores: tudo conspira pra te lembrar que apostar, ali, é um gesto cerimonial. Uma dica: vista-se à altura. O dress code é levado a sério, e parte do prazer está em respeitá-lo. Nas minhas primeiras vezes, errei o registro. Hoje sei: paletó, sapato fechado, e a calma de quem não está com pressa.

Place du Casino, Monte-Carlo
Place du Casino: a praça-cerimônia do principado. Fotografia: Diane Picchiottino / Unsplash.

Le Rocher e o Palácio do Príncipe

O bairro histórico, suspenso sobre um promontório de 60 metros de altura, é a Mônaco anterior aos arranha-céus — e, confesso, a minha favorita. Ruas estreitas de pedra, fachadas em tons pastel, vistas que cortam o Mediterrâneo em duas. O Palais Princier, residência oficial dos Grimaldi, abre seus salões oficiais ao público em determinadas épocas do ano. A troca da guarda, ao meio-dia, mantém viva a coreografia que poucos principados ainda preservam. Vá cedo, antes do calor e dos cruzeiristas, e suba a pé.

Museu Oceanográfico

Fundado pelo Príncipe Albert I em 1910 e dirigido durante décadas por Jacques Cousteau, o museu é uma joia improvável. Suspenso sobre o penhasco, abriga aquários monumentais, esqueletos de baleias e uma sala dedicada às expedições oceanográficas que tornaram Mônaco uma referência mundial em ciência marinha. Vá no fim da tarde — a luz que entra pelos terraços é cinematográfica. É um dos meus lugares preferidos pra desacelerar quando a semana do GP fica intensa demais.

Jardim Exótico e Jardim Japonês

Pra quem quer escapar do glamour por algumas horas, dois oásis. O Jardim Exótico, escavado na rocha, abriga centenas de espécies de cactos e suculentas com vista panorâmica para o porto. Já o Jardim Japonês, à beira-mar, é um exercício de silêncio em meio à intensidade do principado — projetado por um paisagista de Quioto, segue rigorosamente os princípios do karesansui. Costumo passar nele todo ano, mesmo que por meia hora. É o lugar de Mônaco onde finalmente se ouve o mar.

Port Hercule e o Grande Prêmio

Existem duas Mônacos: a do calendário comum e a da última semana de maio, quando o circuito da Fórmula 1 toma as ruas. Já vi as duas, várias vezes — e prefiro não escolher. O Grande Prêmio é o evento mais cobiçado do automobilismo mundial, e os iates ancorados em Port Hercule transformam-se em camarotes flutuantes da elite global. Uma observação prática, pra quem está pensando em ir pela primeira vez: reserve hotel com pelo menos um ano de antecedência, e considere séria, mas seriamente mesmo, alugar um iate amarrado no porto. É outro evento. Pra quem visita fora da temporada, o porto continua sendo um dos cenários mais fotogênicos da Riviera — especialmente ao entardecer, quando as luzes começam a se acender sobre as embarcações.

Iates ancorados em Port Hercule, Mônaco
A coreografia silenciosa de Port Hercule ao final do dia. Fotografia: Philip Myrtorp / Unsplash.

Gastronomia

Capítulo II · Onde a tradição francesa encontra o Mediterrâneo

A cozinha monegasca é um diálogo permanente entre a tradição mediterrânea e o rigor técnico francês. Em pouco mais de dois quilômetros quadrados, o principado concentra uma das maiores densidades de estrelas Michelin do mundo. Esses são os endereços que mantenho na agenda — e os que sempre recomendo a quem está indo pela primeira vez.

Le Louis XV — Alain Ducasse à l’Hôtel de Paris. Três estrelas Michelin desde 1990. O templo de Ducasse no principado é menos um restaurante e mais uma instituição: o primeiro estabelecimento hoteleiro do mundo a conquistar a tríade Michelin. A cozinha é uma celebração da Provença e da Ligúria, executada com precisão cirúrgica em um salão de espelhos e dourados que parece ter sido transportado direto de Versalhes. Reserve com semanas de antecedência. Sempre.

Le Grill — Hôtel de Paris. No último andar do hotel, com teto retrátil e vista panorâmica para o mar, o Le Grill é a contraparte mais descontraída do Louis XV. Peixes inteiros assados na brasa, suflês clássicos, uma carta de vinhos que está entre as mais celebradas da Europa. Quando estou em Mônaco com tempo de jantar fora do circuito, é aqui que eu vou.

Yoshi — Hôtel Métropole. A interpretação japonesa de Joël Robuchon — um dos chefs mais condecorados da história — em um espaço minimalista cercado por jardim zen. Sushi, sashimi e pratos quentes que dialogam com a sazonalidade mediterrânea. Almoço perfeito quando o calor da Riviera começa a apertar.

Café de Paris Monte-Carlo. Inaugurado em 1868, recém-renovado, é o ponto de encontro clássico do principado. Brasserie no melhor sentido francês — frutos do mar, steak tartare, profiteroles. As mesas externas oferecem um dos melhores camarotes pra observar quem entra e sai do Casino. É o meu lugar de café da manhã quando estou hospedado por ali.

Maya Bay. Pra quem busca uma noite mais contemporânea, este endereço duplo (tailandês e japonês) é frequentado por uma clientela jovem e internacional. A decoração, inspirada no sudeste asiático, contrasta deliciosamente com a formalidade do entorno. Uma alternativa bem-vinda quando a semana já teve formalidade demais.

Em Mônaco, hospedar-se é menos uma decisão logística do que uma declaração estética.

Onde ficar

Capítulo III · A hotelaria que define o gesto

Arquitetura Belle Époque do principado de Mônaco
A arquitetura Belle Époque que ainda dá o tom ao principado. Fotografia: Florian K. / Unsplash.

Hôtel de Paris Monte-Carlo. O endereço definitivo. Inaugurado em 1864 e reaberto em 2019 após uma reforma de quatro anos conduzida por Richard Martinet e Pierre-Yves Rochon, o Hôtel de Paris é o coração simbólico do principado. As suítes Princière e Diamant oferecem terraços privativos com vista pra Place du Casino e o mar. A adega, escavada na rocha em 1874, abriga mais de 350 mil garrafas — uma das maiores coleções privadas do mundo.

Hôtel Hermitage Monte-Carlo. A irmã Belle Époque do Hôtel de Paris, com a célebre cúpula de vidro assinada por Gustave Eiffel sobre o salão Winter Garden. Mais íntimo, mais romântico, com um spa termal — o Thermes Marins — que está entre os melhores da Europa. Pra quem viaja a dois, é a escolha mais elegante.

Hôtel Métropole Monte-Carlo. Joia da hotelaria europeia desde 1889, redesenhado por Jacques Garcia em parceria com Karl Lagerfeld pra piscina. Oferece uma experiência mais discreta do que os endereços da Place du Casino — perfeito pra viajantes que preferem privacidade à exibição.

Monte-Carlo Bay Hotel & Resort. Pra famílias e estadias mais longas, o Monte-Carlo Bay oferece uma experiência mais resort, com lagoa de areia e jardins extensos, sem abrir mão do padrão da Société des Bains de Mer.

Dicas práticas

Capítulo IV · O essencial antes de partir

Quando ir. A primavera (abril a junho) e o início do outono (setembro) oferecem o clima mais agradável e menos turistas. Maio concentra dois eventos imperdíveis: o Festival de Cannes (a 50 km) e o Grande Prêmio de Mônaco. É a minha janela favorita do ano — sempre estou por lá. Julho e agosto são intensos demais pelo calor e pela quantidade de visitantes; eu evito.

Como chegar. O Aeroporto de Nice (NCE) é o ponto de entrada natural — a 30 km do principado. Os mais práticos optam pelo helitransfer (sete minutos de voo, com vista panorâmica da costa). De carro, a estrada pela Basse Corniche é a mais cênica. Eu, sempre que posso, faço o trajeto dirigindo — vale cada minuto.

Vestuário. Mônaco é, acima de tudo, um exercício de elegância. Pro casino, jantares formais e eventos noturnos: traje social rigoroso. Pro dia, o estilo Riviera — linho, tons neutros, tecidos leves — funciona melhor do que qualquer tentativa de ostentação. A discrição, aqui, é o verdadeiro código. Brasileiro que tenta competir com a sobriedade europeia perde sempre.

Idioma e moeda. O francês é o idioma oficial, mas inglês e italiano são amplamente falados. A moeda é o euro. Cartões internacionais são aceitos em praticamente todos os estabelecimentos.

Mobilidade. O principado é compacto o suficiente pra ser percorrido a pé — ainda que o relevo acidentado torne os elevadores públicos (gratuitos, e mais numerosos do que se imagina) uma cortesia bem-vinda. Pra distâncias maiores, táxis ou transfers privativos.

Vizinhanças

Capítulo V · A Riviera ao redor

Vila medieval de Èze, na Riviera Francesa
As ruelas medievais de Èze, a 400 metros sobre o Mediterrâneo. Fotografia: Thomas Konings / Unsplash.

Reserve ao menos um dia pros arredores. Èze, vila medieval suspensa a 400 metros de altitude, é uma das vistas mais bonitas da Riviera — foi ali, em meio aos jardins exóticos do alto da colina, que Nietzsche escreveu parte de Assim Falou Zaratustra. Sempre que volto pro GP, reservo uma manhã pra subir até lá, almoçar no Château Eza e voltar pro principado no fim da tarde. Saint-Paul-de-Vence, a uma hora de carro, foi refúgio de Chagall, Matisse e Picasso, e ainda preserva o circuito de galerias e ateliês que atraiu uma geração inteira de artistas. E Cap-Ferrat, na rota pra Nice, abriga algumas das villas mais cobiçadas do Mediterrâneo — entre elas a Villa Ephrussi de Rothschild, com seus nove jardins temáticos sobre o promontório.


Coda

Mônaco não é um destino pra quem busca descobrir. É um destino pra quem busca confirmar — e talvez seja por isso que eu volte tantas vezes. Confirmar que ainda existe, em algum canto da Europa, um lugar onde o luxo não precisa se justificar nem se reinventar. Onde a tradição é levada a sério, mas nunca com solenidade. Onde o mar, os jardins e os mármores conversam entre si há mais de um século sem que ninguém precise interromper.

O principado é pequeno o suficiente pra ser percorrido em três dias e denso o suficiente pra justificar três décadas. A escolha — como tudo em Mônaco — é uma questão de cadência. E de saber que, em alguns lugares, voltar é tão importante quanto chegar. Eu já entendi isso. E volto.

Gabriel Silveirado

Publisher · WAYFARER

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