Tinha algo no ar diferente daquelas festas que prometem o mundo e entregam barulho. O D-Edge Festival 2026 começou antes mesmo do pôr do sol e não parou, mais de quinze horas contínuas, cinco palcos com identidades distintas, mais de cinquenta artistas, e uma ideia obstinada de que música eletrônica não precisa gritar para dominar um espaço.
Do palco Defected ao D-Edge, cada ambiente tinha seu próprio vocabulário. O Defected falou em house sofisticado, Coppola b2b Nocapz, Aline Rocha, KiNK, Carl Craig e Moodymann dividindo a cabine como velhos cúmplices, até o momento em que Renato Ratier entrou no b2b com Beltran e a noite encontrou seu eixo. O Moving pulsou numa cadência mais dinâmica: Gui Boratto, Mishell b2b Cour T., Ed Lopes b2b Waltervelt desenhando uma progressão que só quem ficou até o fim conseguiu ouvir completa.

O Nave foi o palco da intensidade direta. ARBR abriu caminho, Anderson Noise b2b DJ Murphy manteve a temperatura, Nastia e Len Faki empurraram até o limite, e Daria Kolosova com Acid Asian entregaram o clímax antes do encerramento com Bervon b2b HNGT. No espaço de DJ Marky & Friends, o drum and bass mostrou sua elasticidade global, Makoto, DJ Hazard, L-Side e o próprio Marky conectando diferentes continentes sonoros numa só pista. E o D-Edge rs serviu de linha de chegada e de recomeço ao mesmo tempo: Junior C b2b Julio Torres, Adnan Sharif b2b N.A.S.S.I., até o amanhecer com From House to Disco b2b Leo Janeiro e Cactunes b2b Fel C.
Entre luzes, arquitetura e som, o festival construiu uma narrativa que ultrapassa a música. Mais do que uma sequência de apresentações, foi uma afirmação, de que existe um projeto com DNA próprio, conduzido com consistência há 26 anos.

Entrevista exclusiva com Renato Ratier:
A D-Edge sempre teve uma assinatura muito própria. O que é absolutamente inegociável nessa identidade, e o que precisou evoluir?
Na verdade, a gente busca estar sempre em movimento, principalmente através da curadoria, pesquisando novos artistas e acompanhando o que está acontecendo na cena. Ao mesmo tempo, existe um núcleo que é inegociável, que vem desde o início. Nosso conceito artístico, visual e a forma de conduzir o projeto continuam muito alinhados com aquilo que acreditamos lá atrás. O DNA permanece o mesmo. O que evolui é a maneira de traduzir isso no presente, sem abrir concessões que descaracterizem a essência do D-Edge.
Com 30 anos de carreira e mais de 8 mil discos de vinil, o que ainda te dá mais prazer de tocar?
Sempre fui um grande pesquisador de música, de diferentes gêneros. Mas a minha base sempre esteve nas vertentes da house. Existe uma forte influência da música negra como jazz, blues, funk, deep house. O rock também teve um papel importante na minha formação. Eu gosto de explorar diferentes texturas, já passei por fases como o electro house e aprecio a estética mais minimalista, mas no fim, o que me move é essa musicalidade mais orgânica, mais conectada ao groove. É o groove que comanda tudo.

Depois de 26 anos construindo um ecossistema além do clube, qual é o próximo capítulo?
Meu foco agora está em fortalecer a base do que já construímos, os clubes e, principalmente, nosso braço musical, as três gravadoras. Os últimos anos foram desafiadores no âmbito pessoal, então esse momento também é de reorganização e reconexão com o essencial. Estou mais focado em estúdio, produzindo música. Temos um projeto de livro para os próximos meses e a possibilidade de desenvolver algo mais amplo no audiovisual no futuro. E um dos aspectos mais gratificantes desse momento é ver meu filho Guilherme Fetter começando a participar do projeto. Ele tem 22 anos, é muito interessado, e isso traz uma perspectiva muito especial de continuidade para tudo que foi construído até aqui.