Milão se prepara para receber o mundo durante as Olimpíadas de Inverno de 2026, mas, para além das arenas esportivas, a cidade reafirma um papel que domina há séculos: o de capital gastronômica do norte da Itália. Entre provas, deslocamentos e compromissos olímpicos, comer bem deixa de ser um detalhe e passa a ser parte essencial da experiência.

Não por acaso, Milão foi eleita a segunda melhor cidade gastronômica do mundo em 2025 pelo TasteAtlas, um reconhecimento que consolida sua identidade culinária muito além da moda e do design. A cidade combina tradição, precisão técnica e uma elegância silenciosa que se traduz tanto nos restaurantes históricos quanto nos endereços contemporâneos que surgiram recentemente.
Durante os Jogos, a dinâmica urbana muda. As competições acontecem em diferentes pontos da região e até mesmo dentro de Milão os eventos se espalham por vários espaços. Isso faz com que a escolha de onde comer dependa diretamente de onde se está hospedado e da programação do dia. Reservas, que já costumam ser disputadas, tendem a se tornar ainda mais concorridas com a chegada do público internacional.


No centro histórico, a experiência costuma ser marcada por ambientes intimistas e uma cozinha que respeita o tempo. Pequenos restaurantes de clientela fiel seguem oferecendo pratos sazonais, receitas milanesas bem executadas e um ritmo que contrasta com o movimento intenso das ruas. Há também endereços que revisitam o passado com charme, recriando a atmosfera doméstica da Milão dos anos 1960, onde massas clássicas, risotos e vinhos simples ganham protagonismo sem artifícios.
Ainda no coração da cidade, hotéis de luxo recém inaugurados ampliam o repertório gastronômico com propostas autorais que reinterpretam receitas tradicionais. Ossobuco, alcachofras e sobremesas à base de panetone aparecem sob uma nova leitura, sem perder a essência. Cafés históricos e restaurantes instalados em pátios e colunatas oferecem refúgios tranquilos para um espresso bem tirado ou um café da manhã prolongado, mesmo em pleno período olímpico.

À medida que se avança para bairros como Porta Venezia e Casoretto, o cenário se torna menos turístico e mais residencial. Essa mudança se reflete nos restaurantes, que priorizam conforto, hospitalidade e uma cozinha honesta. Sopas bem executadas, pães artesanais feitos na casa e opções consistentes para vegetarianos fazem desses endereços escolhas certeiras para os dias mais frios do inverno italiano. Em algumas trattorias, a sensação é a de estar entrando na casa de alguém, com atendimento próximo e pratos que dispensam tendências.
Na zona leste, algumas casas se mantêm fiéis ao espírito das antigas osterias. A cotoletta alla milanese aparece em versões generosas, servida em ambientes que parecem ter parado no tempo. Já restaurantes clássicos especializados em frutos do mar seguem atraindo um público local, discreto e exigente, reforçando a ideia de que a verdadeira sofisticação em Milão raramente é ostensiva.

Ao sul da cidade, especialmente na região dos Navigli, o clima muda novamente. Restaurantes de perfil mais cosmopolita convivem com endereços históricos escondidos entre canais e ruas tranquilas. É ali que se encontram alguns dos melhores exemplos da culinária milanesa tradicional, com ossobuco cozido lentamente até se desprender do osso e risotos de açafrão cremosos, equilibrados e profundamente aromáticos. Esses lugares costumam ser escolhidos para apresentar a Milão menos óbvia, distante das listas apressadas e mais próxima da vida real da cidade.
Para quem busca experiências mais contemporâneas, há espaços instalados em edifícios históricos que combinam coquetelaria precisa, menus criativos e um ambiente quase contemplativo. Muitos deles dialogam com públicos vegetarianos e pescetarianos, mostrando como a cidade consegue se reinventar sem romper com sua base cultural.

Antes de deixar Milão, uma parada estratégica se impõe. As grandes gastronomias tradicionais da cidade funcionam como verdadeiros templos do sabor italiano, reunindo em poucos andares queijos, massas, vinhos, conservas e doces que sintetizam o país inteiro. Além das prateleiras impecáveis, bistrôs e restaurantes internos oferecem a chance de uma última refeição que encerra a viagem com coerência e memória.
Independentemente do endereço escolhido, alguns pratos são praticamente obrigatórios. O risotto alla milanese, com seu açafrão intenso, a cotoletta empanada e dourada, o ossobuco cozido lentamente, o minestrone preparado com arroz, o gorgonzola em suas versões dolce e picante e sobremesas à base de castanhas fazem parte do repertório que define a identidade local.

Durante as Olimpíadas de 2026, Milão se mostra não apenas como palco esportivo, mas como uma cidade que convida o visitante a sentar à mesa, desacelerar e entender que sua maior tradição talvez esteja justamente no equilíbrio entre rigor, prazer e tempo.