
Arte · Rio de Janeiro · Marina da Glória
Cinco dias em que a arte brasileira se olhou inteira
Entre artistas consagrados, uma geração que amplia seu espaço no mercado e trabalhos que ultrapassaram as paredes dos estandes, a 16ª ArtRio transformou a Baía de Guanabara em um retrato particularmente preciso da produção nacional de agora.
Durante cinco dias, entre 16 e 20 de setembro, a Marina da Glória voltou a ocupar uma posição central no calendário cultural do Rio. A 16ª ArtRio reuniu mais de setenta galerias nacionais e internacionais e dividiu sua programação entre os pavilhões TERRA e MAR, colocando produção moderna, arte contemporânea, projetos experimentais, videoarte e grandes instalações dentro de uma mesma conversa. A localização não é detalhe logístico: entre um estande e outro, a Baía de Guanabara e o horizonte carioca permanecem no campo de visão, e a cidade acaba funcionando como extensão natural da feira.
Feiras de arte costumam ser lidas apenas pelo que vendem. A leitura é legítima, mas insuficiente. O que a edição de 2026 ofereceu de mais interessante foi um diagnóstico de temperatura: quais artistas o mercado brasileiro está disposto a reafirmar, quais está começando a comprar, e que tipo de obra já não cabe fisicamente dentro de um estande de feira.
Um panorama entre gerações
O núcleo principal e a coexistência de décadas
O PANORAMA, principal setor da feira, voltou a concentrar as galerias já estabelecidas nos mercados moderno e contemporâneo. A Gentil Carioca, Almeida & Dale, Fortes D’Aloia & Gabriel, Galatea, Mendes Wood DM, Nara Roesler, Luisa Strina, Casa Triângulo e Galleria Continua estavam entre os participantes. Mais relevante que a lista de nomes, porém, foi o modo como artistas de diferentes gerações apareceram lado a lado, sem hierarquia declarada entre o histórico e o recente.
É aí que esta edição construiu boa parte de sua identidade. A história recente da arte brasileira continua sendo revisitada com método, ao mesmo tempo em que linguagens novas ocupam espaço comercial de verdade, não apenas espaço de curadoria. Era possível atravessar algumas décadas de produção nacional apenas mudando de estande, e esse trajeto curto dizia mais sobre o momento do mercado do que qualquer painel de debate.

Entre os trabalhos que ajudaram a estabelecer esse diálogo estava uma obra de Tomie Ohtake apresentada pela Flexa. A presença da artista reforçava uma característica particularmente interessante da edição: nomes fundamentais da arte brasileira não apareciam isolados como referência histórica, apartados em um canto reverente, mas integrados a uma seleção que colocava períodos e movimentos distintos em contato direto.
A diferença é de postura comercial, não apenas de montagem. Tratar o moderno como acervo intocável produz estande de museu. Tratá-lo como parte viva da conversa produz feira, e a ArtRio escolheu a segunda opção com alguma consistência.

O contemporâneo assume o primeiro plano
Mendes Wood DM, o programa SOLO|DUO e o valor de desacelerar
Na Mendes Wood DM, uma obra de Solange Pessoa condensava outra face da feira. Formas reduzidas a silhuetas quase arqueológicas colocavam corpo, matéria e memória em uma mesma composição, com uma economia de gesto que contrastava com a escala de boa parte do que estava montado ao redor. Funciona como contraponto necessário: depois de uma sequência de trabalhos que pedem distância para serem vistos, essa devolve o olhar para algo mais contido e conceitual.
A presença da galeria no PANORAMA também diz algo sobre circulação. A produção contemporânea brasileira hoje é negociada em um circuito internacional que não depende mais da feira local para existir, e a ArtRio passa a ser menos uma vitrine de descoberta e mais um ponto de confirmação dentro desse circuito.

Essa busca por um olhar mais concentrado também apareceu no SOLO|DUO, programa dedicado a projetos de um ou dois artistas. Um dos nomes foi Alberto Lamback, apresentado pela Central Galeria. Em trabalhos pequenos e de atmosfera intimista, Lamback parte de imagens aparentemente comuns para construir cenas que parecem existir em algum lugar entre lembrança, sonho e fragmento.
O formato do SOLO|DUO é, na prática, o único lugar de uma feira onde o tempo de leitura da obra se aproxima do tempo de uma exposição. Em vez de atravessar uma sucessão de peças reunidas por critério de portfólio, o visitante acompanha uma linguagem inteira, com suas repetições e suas hesitações. É o setor que mais recompensa quem volta duas vezes.

Era possível atravessar algumas décadas de produção nacional apenas mudando de estande, e esse trajeto curto dizia mais sobre o momento do mercado do que qualquer painel de debate.
Quando a obra abandona o estande
Soft Power, sete metros, e o jardim como sala expositiva
A imagem mais reconhecível desta edição veio de Gabriel Massan. Com aproximadamente sete metros de altura, Soft Power alterou a escala da experiência da feira. Apresentada pela Yehudi Hollander-Pappi, a obra inflável abandona de vez a lógica do quadro na parede e da escultura sobre pedestal para ocupar fisicamente o espaço e disputar atenção com a paisagem.
Trabalhos desse porte têm um risco evidente: viram cenário, viram ponto de foto, e a leitura da obra se dissolve na circulação. Aqui isso foi em parte contornado pela escolha de lugar. No Jardim das Esculturas, obras de dezoito artistas dialogaram com os jardins de Burle Marx, o Pão de Açúcar e a Baía de Guanabara, e o entorno da Marina passou a integrar a exposição em vez de apenas emoldurá-la.
Vale registrar o que isso significa comercialmente. Instalações dessa escala raramente se vendem em feira. Elas existem para posicionar o artista, ancorar a imagem do evento e alimentar o repertório visual que circula depois, e a ArtRio vem usando esse recurso com clareza crescente de estratégia.

Beatriz Milhazes e o poder da cor
Açúcar, de 2009, e a permanência de um vocabulário
Entre os nomes brasileiros de projeção internacional, Beatriz Milhazes apareceu com Açúcar, de 2009, apresentada pela Fortes D’Aloia & Gabriel. A xilogravura e serigrafia reúne as características mais reconhecíveis do vocabulário visual da artista: geometrias sobrepostas, círculos concêntricos, camadas que se atravessam e uma combinação cromática que parece permanecer em movimento mesmo em suporte impresso.
A posição de Milhazes na feira é curiosa e diz algo sobre o mercado brasileiro. Institucionalmente consolidada no exterior há décadas, ela já não precisa de uma feira local para validação. Ainda assim, continua sendo referência obrigatória para entender como a cor foi tratada por gerações posteriores, e ver uma obra de 2009 ao lado de produção feita neste ano é um teste de resistência que poucos vocabulários sobrevivem.
Módulo temático · Leitura de cor
A cor como estrutura, não como enfeite
Em Açúcar, a cor não decora a composição: ela organiza a leitura. Cada camada define profundidade, e a sobreposição de círculos cria uma ordem de aproximação que o olho percorre antes de identificar qualquer forma. Abaixo, uma leitura aproximada da faixa cromática que a obra articula, feita a partir da reprodução impressa e não de aferição colorimétrica.

Artistas consolidados tensionando os próprios códigos
Vaso-plano Maria, de Adriana Varejão, na fronteira entre pintura e objeto
Outro dos trabalhos que atravessaram a edição foi Vaso-plano Maria, de Adriana Varejão. Produzido em 2026 e apresentado pela Flexa, o trabalho se instala exatamente na fronteira entre pintura e objeto. A superfície craquelada e a construção que remete à cerâmica transformam algo imediatamente reconhecível em uma peça difícil de classificar no primeiro olhar, e essa hesitação é o ponto.
A obra exemplifica um movimento recorrente na feira, e talvez o mais saudável dela. Artistas com linguagem consolidada e demanda garantida continuam tensionando os próprios códigos em vez de repetir a fórmula que o mercado já aprendeu a comprar. Em um circuito que premia reconhecimento imediato, essa é uma decisão de risco, e ela apareceu com frequência suficiente em 2026 para não ser lida como exceção.

Uma feira que também deixa legado
Emi, de Nádia Taquary, doada ao acervo do MAM Rio
A edição de 2026 produziu movimentos que ultrapassam a duração da própria feira. Emi, de Nádia Taquary, foi doada pela ArtRio ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. O trabalho passa a integrar o acervo do MAM e parte da pesquisa da artista em torno de ancestralidade africana, espiritualidade e referências à joalheria afro-brasileira.
O gesto merece atenção porque desloca o eixo da discussão. Feira é, por definição, um ambiente de compra privada, no qual a obra circula de um acervo fechado para outro e desaparece do campo público. Uma doação institucional inverte esse percurso: faz com que um trabalho visto durante aqueles cinco dias permaneça acessível depois deles, e transforma o evento comercial em agente de formação de patrimônio.
Se o movimento se repetir em edições futuras com regularidade e critério curatorial declarado, deixa de ser gesto simbólico e vira política. Essa é a diferença entre uma feira que acontece e uma feira que constrói alguma coisa.

O que acontece fora dos estandes
MIRA, Brasil Contemporâneo e Conversas ArtRio
A ArtRio 2026 também mostrou que a experiência de uma feira já não termina nos estandes. O programa MIRA levou a videoarte para a programação com curadoria do MAM Rio. O Brasil Contemporâneo reuniu doze galerias e artistas ligados a catorze estados, com atenção particular às práticas manuais e a circuitos que raramente chegam ao eixo Rio e São Paulo. O Conversas ArtRio aproximou arte de moda, música, crítica, carnaval e cultura urbana, ampliando o público que atravessa a Marina sem intenção de comprar nada.
Esses programas cumprem uma função comercial que costuma passar despercebida. Eles sustentam o valor simbólico do evento, dão ao patrocinador algo além de logotipo em banner e criam repertório que circula muito depois do encerramento. Em uma época dominada pela velocidade das imagens digitais, havia algo particularmente atual nessa insistência na matéria, no objeto e na experiência presencial.

Durante alguns dias, mercado, experimentação, colecionismo, instituição e uma cidade particularmente fotogênica dividem o mesmo endereço.
O que ficou de 2026
Veredito
É essa combinação que explica a força da ArtRio, e é também o que a torna difícil de repetir. Nenhuma outra feira brasileira consegue colocar Tomie Ohtake, Solange Pessoa, uma inflável de sete metros e um jardim de Burle Marx dentro do mesmo percurso de trinta minutos. O risco dessa fórmula é conhecido: quando a paisagem é boa demais, ela pode carregar sozinha a memória do evento e deixar a arte em segundo plano.
Não foi o que aconteceu em 2026. A edição sustentou seu próprio conteúdo, e o fez com uma clareza de posição que as anteriores nem sempre tiveram. A ArtRio parou de se apresentar como vitrine de descoberta e assumiu outro papel, o de lugar onde a produção brasileira se confere inteira, do moderno consagrado ao trabalho feito neste ano, e onde o mercado decide o que vai levar adiante. A doação ao MAM foi o gesto mais eloquente dessa mudança de régua.
O que a Marina da Glória mostrou, no fim, foi uma arte brasileira confortável em revisitar a própria história, sem reverência paralisante, e consideravelmente mais interessada no que pode acontecer depois. Para uma feira que chega à décima sexta edição, essa é a leitura mais difícil de conquistar, e a única que importa.

Créditos
Texto: Redação WAYFARER. Fotografia: Bruno Ryfer / O Globo (vistas gerais da feira e quadro de programação), Bravo! / Divulgação (Tomie Ohtake, Solange Pessoa, Alberto Lamback e Gabriel Massan), Veja e Veja Rio / Divulgação (Beatriz Milhazes, Adriana Varejão e Nádia Taquary). Antes de publicar, confirmar os direitos de reprodução de toda imagem que não tenha sido enviada diretamente pela assessoria da ArtRio ou pelas galerias representantes.
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