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À La Garçonne na SPFW N61: depois do fim do mundo, as flores

Fábio Souza apresentou na SPFW N61 uma À La Garçonne pós-apocalíptica e otimista: camuflados, tapeçarias com lurex, a corda naval de sempre e 98% de materiais de reaproveitamento ou menor impacto.
Desfile da À La Garçonne na SPFW N61, Pavilhão das Culturas Brasileiras Desfile da À La Garçonne na SPFW N61, Pavilhão das Culturas Brasileiras
À La Garçonne · SPFW N61. Foto: @agfotosite

WAYFARER · Estilo | SPFW N61

Todo fim de mundo tem um depois. Na tarde de quarta-feira, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, Fábio Souza mostrou o dele: uma terra arrasada onde a natureza volta a crescer por cima da roupa, e as cores das flores retornam antes de qualquer outra coisa.

O desfile em 30 segundos

  • Quando: quarta, 14 de outubro, à tarde
  • Onde: Pavilhão das Culturas Brasileiras, Ibirapuera
  • O tema: um mundo pós-apocalíptico em que a natureza retoma a terra
  • A matéria: 98% de tecidos de reaproveitamento ou de menor impacto
  • A assinatura: a corda naval, agora em alças, cintos e cadarços

Ato 1

O apocalipse de dentro

Na edição que celebra os 30 anos da São Paulo Fashion Week sob o tema Imaginários, Fábio Souza imaginou o fim. Mas o ponto de partida não foi uma catástrofe climática nem um filme de ficção científica. No backstage, o diretor criativo falou de “uma espécie de apocalipse interno”: a experiência de ter saído de casa muito jovem e nunca mais voltado. Desse fim pessoal nasceu uma coleção que olha para trás, para os primeiros moldes e ideias da marca, antes de seguir em frente.

Faz sentido. A À La Garçonne começou há mais de quinze anos com Fábio customizando camisetas vintage, e reaproveitar sempre foi a sua forma de reconstruir. Quando o mundo acaba, quem sabe remontar coisas a partir de restos sai na frente.

Quando o mundo acaba, quem sabe remontar coisas a partir de restos sai na frente.

Ato 2

Guerreiros da terra arrasada

O uniforme de quem sobrevive é o camuflado, e ele apareceu do começo ao fim, em macacões, sobretudos e conjuntos. O desfile abriu com peças de sarja pintadas à mão com paisagens e flores. Xadrezes reaproveitados voltaram mais coloridos, em conjuntos finalizados com golas de pelúcia. A alfaiataria, cada vez mais forte na marca, veio em várias cores e com ombreiras, e os ternos desfilaram com tênis New Balance.

Na passarela, os olhos dos modelos brilhavam em faixas de neon verde e rosa, como sinais de vida num cenário apagado. É o retrato mais exato da ideia: pouca coisa sobrou, mas o que sobrou acende.

Ato 3

A flor que volta

O otimismo da coleção está na vegetação que cresce sobre a roupa. Ela aparece em bordados de lantejoulas sobre tule, no desenho do devorê e nos jacquards de tecidos de tapeçaria trabalhados com fios de lurex. Há jaquetas dos anos 1950 com aplicações de tapeçaria de lã nas costas, vestidos de jacquard rosa usados com sapatos sociais masculinos e uma saia rodada floral combinada a uma regata desfiada. O bruto e o delicado dividem a mesma peça, o tempo todo.

Pouca coisa sobrou. Mas o que sobrou acende.

Ato 4

A corda e o que fica

Toda marca tem um gesto que a identifica de longe. Na À La Garçonne, é a corda naval, que nasceu na estamparia e virou sucesso de vendas desde a estreia na SPFW, há dez anos. Agora ela sai do tecido e ganha volume: vira alça de bolsa, cinto e cadarço.

O que sustenta o discurso, porém, é a matéria. Segundo a marca, 98% da coleção usa tecidos de reaproveitamento, peças vintage, deadstock ou fibras de menor impacto, como um fio elástico com 70% de origem vegetal, feito a partir do amido de milho. Num desfile sobre o fim do mundo, é o detalhe que impede a fantasia de virar só cenário.


Ao final, Fábio Souza tinha mostrado que o fim do mundo também pode ser um recomeço, desde que alguém se lembre de guardar as sementes. A À La Garçonne guardou as dela há quinze anos, numa pilha de camisetas velhas. Agora elas florescem.

Para ver de perto

A marca está no site alagarconne.com.br. No Instagram, @alagarconne.

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER. São Paulo.
Fotos: Zé Takahashi e Marcelo Soubhia / @agfotosite / SPFW

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