WAYFARER · Destino | Londres
A feira dura cinco dias. A semana dura a cidade inteira.
Durante a Frieze Week, entre 14 e 18 de outubro, Londres funcionou como um grande anexo de Regent’s Park. Os pavilhões receberam cerca de 95 mil visitantes, mas boa parte do que importou aconteceu em outro lugar: num carro envelopado por um artista estacionado em Hyde Park Corner, numa suíte de 1953 em Park Lane, numa mesa em que o cardápio foi desenhado por uma artista, numa garagem de hotel que virou festa. “Os colecionadores não vão mais às feiras”, disse à Ocula o marchand James Cope. “Mandam o consultor ou compram na pré-venda, uma semana antes.” Se o colecionador encurtou a visita aos estandes, a cidade se encarregou de estender o resto.
Esta é a Londres da semana: onde se dormiu, onde se comeu, onde a noite terminou e como se planeja a próxima.

Dormir dentro de uma coleção
The Peninsula London. A imagem mais fotogênica da semana não estava em nenhum estande. Para a Frieze, o hotel de Hyde Park Corner transformou seis carros da frota, dois Rolls-Royce Phantom, um Bentley Bentayga, um BMW i7, um táxi Austin eletrificado e um LEVC, em uma única obra contínua do artista nova-iorquino KOZO, conhecido pelo microrrealismo. A World Within, feito em parceria com o CART Department, de Larry Warsh, dono de uma coleção com mais de 60 carros de artista, de Haring a Hirst, levou três meses para ficar pronto. As “páginas Peninsula” se desdobram de um carro para o outro e revelam paisagens pastorais inglesas, estátuas, os leões guardiões e o Wellington Arch, tudo no verde que é a assinatura da casa. “Um carro não é uma tela em branco”, disse KOZO. Os carros circulam por Londres até 31 de outubro, e o hóspede pode reservá-los. Para Warsh, o hotel “pareceu o parceiro natural”: quase nenhum carro de arte, lembrou ele, pode ser usado de verdade.
Um carro não é uma tela em branco.
KOZO
Rosewood London. Parceiro oficial de longa data da Frieze London, o hotel de High Holborn abriu sua primeira exposição coletiva na The Living Gallery, programa rotativo de residências. Groundwork, feita com a galeria e consultoria THE TAGLI, reúne doze obras de James Evans, Minye Yue e Charlie Russell, os três escolhidos entre mais de 350 candidatos, espalhadas pela escadaria de mármore e pelos salões do prédio eduardiano. Tudo está à venda. Evans, que recebeu o prêmio de mentoria de 2026, constrói pinturas sobre estruturas de malha e pinho; Yue, coreana formada no Royal College of Art, borda jardins que resistem às leis da natureza; Russell sobrepõe óleo, cera e pó de mármore em interiores de casas operárias. Para quem prefere a arte servida, o chá da tarde inspirado em Monet, criado pelo chef pâtissier Mark Perkins no ano em que se completam cem anos da morte do pintor, sai a 80 libras, ou 108 libras com champanhe. O pacote Artistic London Getaway incluiu suíte, dois ingressos VIP para a Frieze London, motorista até a feira e champanhe na chegada.


Broadwick Soho. Hotel parceiro oficial da Frieze Masters, o endereço de Noel Hayden no Soho tem uma coleção de cerca de 300 obras, com curadoria de Jonathon Brook, em que Francis Bacon, Bridget Riley e Andy Warhol convivem com nomes emergentes. Os interiores de Martin Brudnizki misturam, nas palavras da casa, o ecletismo do Studio 54 com a intimidade de uma townhouse, e o bar Flute, no terraço, já recebeu Sheryl Crow e Sister Sledge. Durante a semana, o hotel ofereceu 20% de desconto com café da manhã, diárias a partir de 525 libras, e quem reservou suíte ganhou um par de ingressos VIP para as duas feiras. A obra Are you in love? Yes, I’m in London., de Pietro Terzini, segue em exibição até o fim de outubro.

The Dorchester. Patrocinador oficial da feira, o hotel de Park Lane resgatou uma tradição dos anos 1940, quando as anfitriãs londrinas levaram seus salões para as suítes da casa, e lançou a Salon Series, com curadoria da Ackerman Studios e da CURA Art. A primeira conversa, na segunda-feira da Frieze Week, foi com Valeria Napoleone, que há 28 anos coleciona exclusivamente artistas mulheres, na Oliver Messel Suite, desenhada pelo cenógrafo em 1953, recém-restaurada, com terraço reimaginado por Luke Edward Hall. A série segue em 9 de novembro com Christian Levett, fundador do FAMM, museu de artistas mulheres em Mougins, e em 7 de dezembro com Christina Makris, que discute como hotéis podem se tornar lugares de encontro com a arte. Os ingressos são gratuitos e limitados. Ao lado, no 45 Park Lane, a exposição Great Women Photographers, com Nan Goldin e Tacita Dean, fica até meados de novembro.

The Lanesborough. Na esquina de Hyde Park Corner, a casa regencial reaberta em 2015 após a reforma de Alberto Pinto tem 93 quartos e suítes, mordomos dia e noite e a Royal Suite, de sete quartos, a maior de Londres. A adega, de 1719, recebe jantares privados para doze pessoas, e o spa ocupa cerca de 1.700 metros quadrados. A coleção de arte, com visitas guiadas sobre a procedência das peças, segundo a Haute Living, faz do hotel um dos mais discretamente artísticos de Londres. As diárias começam em 890 libras, com café da manhã.

The Goring. Aberto em 1910 por Otto Goring e ainda dirigido pela mesma família, quatro gerações depois, é o hotel cinco estrelas mais próximo do Palácio de Buckingham e o único a ter recebido uma Royal Warrant por serviços de hospitalidade. São apenas 69 quartos e suítes, paredes forradas de seda Gainsborough tecida à mão, footmen de fraque escarlate para os hóspedes das suítes e o Dining Room desenhado por Linley, que recebeu sua estrela Michelin em 2016. O carinhoso apelido da casa, “Baby Grand”, diz tudo sobre a escala.

The Savoy. No Strand, à beira do Tâmisa, o hotel de 137 anos reabriu este ano os quartos Art Deco renovados, depois dos eduardianos em 2025, e prepara para março a conclusão de uma reforma de três anos. Para o fim do ano, a Liberty London ocupa a florista da casa com um pop-up e assina a árvore de Natal do Front Hall, enquanto o American Bar segue como um dos endereços de coquetelaria mais celebrados da cidade e o Restaurant 1890, de Gordon Ramsay, mantém sua estrela.

E ainda. O Mandarin Oriental Mayfair, parceiro oficial da feira, montou uma Frieze Experience com dois ingressos VIP, Ruinart na chegada, coquetéis no Hanover Bar, transfer em Rolls-Royce e acesso a Reflections, a exposição que ocupa o hotel. É o capítulo mais recente da The Living Square, a residência cultural que o Mandarin Oriental mantém o ano inteiro com o Mayfair Design District, com curadoria de Anne-Laure Pingreoun-Lastro: artistas britânicos, o vidro colecionável da Vessel Gallery e, pela plataforma Curated Connections, design polonês contemporâneo, com as esculturas espelhadas Crystal Totem e Crystal Monoliths, do Zieta Studio, transformando os salões. Num endereço de Hanover Square que já iluminou salões à luz de velas no século XVIII, a ideia é tratar reflexo como memória, e o hotel como galeria. O Hotel Café Royal, na esquina de Regent Street, segue como ponte natural entre Mayfair e o Soho, num endereço que já foi de Oscar Wilde. E o Four Seasons Park Lane, com ocupação “extremamente alta” durante toda a semana, segundo a própria casa, abriga o Pavyllon London, a mesa estrelada de Yannick Alléno.

A mesa da semana
Dentro das feiras, a comida virou parte da curadoria. Na Frieze London, Jikoni, Maison François e o Sessions Arts Club dividiram espaço com BAO, Rita’s e a estreante WatchHouse. Na Frieze Masters, Trullo, Ham Yard, Nobu e, pela primeira vez, Pophams. O Sessions Arts Club, no terceiro ano na feira, levou o projeto Pilgrimage, de Jonny Gent, e assinou o Jantar dos Colecionadores, na quinta-feira, com bailarinos de Holly Blakey erguendo uma torre humana que, de propósito, desmoronava.
O bar da Ruinart chegou à Frieze Masters pela primeira vez, com as cabanas e ninhos de madeira de demolição de Tadashi Kawamata, estudos para três obras permanentes em Reims. “Prefiro a poesia à pedagogia”, disse o artista japonês à Ocula, e a frase serve também para a taça.
Na cidade, a temporada teve sua própria lista. O Toklas serviu um menu desenhado pela artista Magali Reus. O Mount St. Restaurant criou o “Palette to Plate”, a partir do livro de receitas de Manuela Wirth, e The Audley, o pub da Hauser & Wirth em Mayfair, recebeu um quiz de arte comandado por David Hoyle. O Aki montou uma mesa de colecionadores na sexta-feira. E o Chelsea Arts Club manteve a regra que o torna precioso: celular proibido.
Depois das dez
A noite da quinta-feira teve dois endereços óbvios. Na garagem da The Peninsula, em 1 Grosvenor Place, a festa de A World Within reuniu, a partir das 19h, gente de arte, design, moda e automóvel em torno dos carros de KOZO. Na Dover Street Market, Marc Quinn, Martine Rose, Michèle Lamy, Tim Walker e Tremaine Emory celebraram o relançamento de Six, a revista lendária da Comme des Garçons.

Em Mayfair, o Annabel’s entregou a semana ao universo pop de Philip Colbert, com as lagostas de Lobsterverse e um cardápio de lagosta e champanhe. Mount Street virou festival de bairro, de 12 a 17 de outubro, com The Row, The Connaught, Scott’s, Simone Rocha e Jessica McCormack. Nas fotos da semana, divulgadas pela própria Frieze, passaram Tilda Swinton, Bianca Jagger, Pedro Pascal, Daniel Craig, Andrew Garfield, Stormzy, Dries Van Noten e Raf Simons. O fotógrafo Miles Aldridge fez Polaroids de Elton John segurando um crânio.
Moda e arte, a mesma conversa
Se houve uma tendência clara, foi a de que a moda tomou a semana. A Stone Island, patrocinadora da seção Focus, levou sua Collector Series para a Selfridges, num espaço de Willo Perron que fica até 6 de novembro. A JW Anderson e a American Express Platinum instalaram em Pimlico os sinos de vento de Cerith Wyn Evans. A Dunhill apresentou as conversas da Frieze Masters, com curadoria de Arturo Galansino, Es Devlin e Grayson Perry entre os convidados. A Alexander McQueen é a patrocinadora de The 90s: Art and Fashion, na Tate Britain. E a De Beers teve estande próprio na Masters. Como resumiu à The Gray Market Emily Glazebrook, diretora comercial da Frieze, o patrocinador hoje quer acesso, não visibilidade: um jantar com artista vale mais do que qualquer placa.
As outras feiras
PAD London. Em Berkeley Square, a feira de design e arte decorativa reuniu 67 galerias, entre elas a Friedman Benda, com uma mesa de ônix de Adam Pendleton, a Gallery FUMI, com a série Armadillo, de Lukas Wegwerth e Corinna Dehn, e Sofie Middernacht, que transformou antigos tanques belgas de óleo de calefação em mobiliário. Glenn Spiro montou uma retrospectiva de joalheria.

London Invitational. Fundada em Dallas pelo galerista britânico James Cope, a feira estreou na Europa no terceiro andar do The Chancery Rosewood, a antiga embaixada americana desenhada por Eero Saarinen em Grosvenor Square. Doze galerias, doze quartos. A franklin parrasch levou Peter Alexander; a Vardaxoglou, Howard Hodgkin, Prunella Clough e Roger Hilton; a James Kelly, Ed Ruscha, Josef Albers, Edmund de Waal e Ken Price; e a Broadway fez a estreia britânica de Victoria Roth. “É um pouco como entrar na sala de estar de alguém”, resumiu a consultora Jessica Nowitzki. Charles Asprey vendeu duas pinturas de Alessandro Raho logo na abertura.
1-54. Na Somerset House, a feira de arte africana contemporânea fez sua 14ª edição londrina e abriu, pela primeira vez, uma vertente histórica, com West Wind, sob curadoria de Nancy Dantas, e a primeira participação da Whitechapel Gallery. Para Touria El Glaoui, fundadora, os africanos são “autores da história da arte moderna e contemporânea”.
Paraíso. Em Marylebone, a primeira feira latino-americana de Londres em mais de uma década estreou no Ambika P3, com 22 expositores e foco no México.
Fora dos pavilhões
A Royal Academy abriu Painting the French Riviera, com mais de 120 obras, dos anos 1870 aos 1960, de Monet e Renoir a Matisse, Bonnard, Picasso e Yves Klein, em cartaz até 31 de janeiro. “Nada-se em ar azul”, escreveu Monet sobre Antibes, e a exposição transforma a frase em percurso.

Na Tate Modern, o artista e compositor Tarek Atoui ocupa o Turbine Hall com a 11ª Hyundai Commission, Hold, instrumentos que funcionam também como escultura, com entrada gratuita até 11 de abril. A crítica se dividiu, e isso também é um bom sinal. No mesmo prédio, Light and Magic conta o nascimento da fotografia artística com mais de 50 artistas. Na Serpentine, Justin Caguiat estreia em instituições britânicas com Change Ringing: pinturas com pigmentos que reagem ao calor e sinos de bronze fundidos em forma de flores e sementes, ao som de uma partitura de Lily Pickett baseada na tradição inglesa do toque de sinos. Na Serpentine North, Amar Kanwar mostra a estreia de The Charcoal Man, e o Pavilion do LANZA atelier fica no parque até 25 de outubro. Na Gagosian de Grosvenor Hill, Magritte, com entrada livre, até 12 de dezembro.

Frieze 2027: como fazer
Reserve antes de tudo. Em 2026, Four Seasons, Peninsula e Mandarin Oriental chegaram à semana com ocupação praticamente completa. Os pacotes que incluem ingressos VIP, como os do Rosewood, do Broadwick e do Mandarin Oriental, são a forma mais simples de garantir hotel e acesso de uma vez.
Ingresso ou VIP. No fim de semana, o ingresso combinado para as duas feiras custou 92 libras, e cada feira, de 48 a 59 libras. Em 2026, a Frieze abriu pela primeira vez horário VIP no sábado, sinal de que o público mais disputado está chegando mais tarde na semana. Lembre que o ingresso geral não permite sair e voltar.
Monte a semana em camadas. Feira de manhã, quando os estandes estão vazios; museus no começo da tarde; um bar de hotel no fim do dia; jantar depois das oito. A PAD e a London Invitational pedem menos tempo e devolvem mais conversa.
Emende o circuito. Em 2026, a Art Basel Paris abre ao público de 23 a 25 de outubro, e a primeira Frieze Abu Dhabi acontece de 19 a 22 de novembro. As datas de 2027 ainda não foram anunciadas, mas a lógica do outono deve se repetir.
Vista-se para andar. A Country & Town House avisou que se anda, literalmente, quilômetros. Sapato baixo de boa forma, camadas para o frio do parque, e a lição da Frieze Masters, onde, segundo a AnOther, plissados, lenços de seda e cashmere davam ao pavilhão ares de clube privado.
No último dia, quando os estandes de Regent’s Park começaram a ser desmontados, os seis carros de KOZO continuaram rodando por Londres. É a melhor imagem da semana: a feira fecha às seis, a cidade não. Quem entende isso não vai a Londres para ver a Frieze. Vai para morar, por uma semana, dentro dela.
O endereço da Frieze Week
The Peninsula London: 1 Grosvenor Place, SW1X 7HJ. A World Within até 31 de outubro
Rosewood London: 252 High Holborn, WC1V 7EN. Groundwork na The Living Gallery; chá Monet a partir de £80
Broadwick Soho: 20 Broadwick Street, W1F 8HT. Diárias a partir de £525
The Dorchester: 53 Park Lane, W1K 1QA. Salon Series em 9/11 e 7/12, ingressos gratuitos
The Lanesborough: Hyde Park Corner, SW1X 7TA. Diárias a partir de £890
The Goring: 15 Beeston Place, SW1W 0JW
The Savoy: Strand, WC2R 0EZ
Painting the French Riviera: Royal Academy, até 31 de janeiro de 2027, a partir de £24
Hyundai Commission, Tarek Atoui: Tate Modern, até 11 de abril de 2027, gratuito
Justin Caguiat, Change Ringing: Serpentine South, até 10 de janeiro de 2027, gratuito
Magritte: Gagosian Grosvenor Hill, até 12 de dezembro, gratuito
Para viver a Frieze Week de 2027 sem depender da sorte, com hotel, ingressos, mesas e agenda montados com meses de antecedência, a WAYFARER Agency, nossa divisão de viagens, organiza a semana sob medida.
Hospedagem e acesso em Londres: WAYFARER Agency
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER. Com gratidão às equipes de The Peninsula London, Rosewood London, Broadwick Soho, The Dorchester, The Lanesborough, The Goring, The Savoy, Mandarin Oriental, Hotel Café Royal e Four Seasons Park Lane.


