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O café que virou destino: o crédito de vizinho que leva o visitante da lavoura à xícara

Da Mantiqueira à Chapada Diamantina, a fazenda de café especial passou a receber visitantes, com degustação, torra e hospedagem. Por trás de boa parte do crédito do café está um tipo de banco que nasceu no interior: a cooperativa de crédito, que responde por 35% do Funcafé 2026/2027.
Fileiras de pés de café até o horizonte numa fazenda do sul de Minas Gerais Fileiras de pés de café até o horizonte numa fazenda do sul de Minas Gerais
Imagem: Volker J. Walpuski (Knase)/Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

WAYFARER · Business | Café

A estrada de terra termina numa porteira aberta. Do outro lado, onde até pouco tempo só entrava o comprador de saca, agora entra o visitante: para caminhar entre os pés de café, ver a torra, provar a xícara e, às vezes, dormir ali. A pergunta que quase ninguém faz é quem financia a fazenda que abre a porteira.

No interior cafeeiro, boa parte da resposta não está num banco da Faria Lima, e sim numa agência pequena na praça da cidade, onde o gerente conhece o produtor pelo nome e o produtor é, ele mesmo, dono de uma parte do negócio. O café especial brasileiro virou destino de viagem na última década. Esta reportagem percorre quatro regiões produtoras, da Serra da Mantiqueira à Chapada Diamantina, para entender o papel de um personagem pouco visto nessa história: a cooperativa de crédito.

O café e o crédito cooperativo em números

  • R$ 7,37 bilhões: o Funcafé, fundo federal do café, na safra 2026/2027
  • 35%: a fatia operada por Sicredi, Sicoob e Cresol, cerca de R$ 2,6 bilhões
  • R$ 499 milhões: o Banco Cooperativo Sicredi, maior credenciado individual entre 36 instituições
  • 21,2 milhões: brasileiros associados a uma cooperativa de crédito, segundo o Banco Central
  • 368: municípios em que a cooperativa era a única opção física de serviço financeiro em 2023

I. O banco do vizinho

Uma ideia de 1902 que chegou ao cafezal

A primeira cooperativa de crédito da América Latina nasceu em 1902, em Nova Petrópolis, na serra gaúcha, inspirada no modelo que agricultores alemães usavam para emprestar dinheiro uns aos outros. Ainda existe, hoje com o nome de Sicredi Pioneira. A lógica continua a mesma: os associados são donos da cooperativa, decidem em assembleia e dividem entre si o resultado do ano, as chamadas sobras.

O modelo cresceu muito além da serra. Pelo Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo, do Banco Central, o país fechou 2025 com 21,2 milhões de cooperados, alta de 10,4% em um ano. Entre as empresas associadas, 96,2% são micro ou pequenas. Em 2023, pela primeira vez, as cooperativas estavam presentes em mais municípios do que os bancos: 3.177 contra 3.094. Em 368 cidades, eram a única porta física para o sistema financeiro.

Vale uma distinção que confunde até quem é do meio. Cooperativa de crédito empresta dinheiro: Sicredi, Sicoob e Cresol são os três grandes sistemas do país. Cooperativa de produção compra, beneficia e vende o café dos associados. As duas costumam andar juntas no interior, mas esta reportagem segue a primeira, a que financia.

Pés de café cobertos de flores brancas durante a florada, em Minas Gerais
A florada, que define a safra seguinte, em Matipó (MG). Imagem: Fernando Rebêlo/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

II. O que o fundo paga

O Funcafé financia a saca. Quem financia a visita?

O Funcafé é o principal instrumento público de crédito do setor. Na safra 2026/2027, são R$ 7,37 bilhões distribuídos por 36 instituições credenciadas, a juros de 11,5% ao ano para custeio, comercialização e recuperação de cafezais e de 13% para aquisição de café e capital de giro de indústrias e cooperativas. As cooperativas de crédito ficaram com cerca de 35% do total. O Sicoob soma perto de R$ 1,53 bilhão, o Sicredi R$ 892 milhões e a Cresol mais de R$ 167 milhões. Sozinho, o Banco Cooperativo Sicredi, com R$ 499 milhões, é o maior credenciado do fundo, à frente de qualquer banco comercial.

As linhas do Funcafé, porém, tratam o café como mercadoria: plantar, colher, comercializar, recuperar o cafezal. A cafeteria na sede da fazenda, o torrador para receber grupos e a casa antiga reformada para hospedar visitantes precisam de outro dinheiro. Uma das portas é o Fungetur, o fundo do Ministério do Turismo, que tem restaurantes, cafés e hospedagem entre os beneficiários e chegou a empreendedores também por meio de cooperativas: a Cresol, por exemplo, anunciou em 2023 que passaria a operar recursos do fundo. Outra é o crédito próprio das cooperativas, decidido no conselho local, por quem conhece a região.

Grãos de café cereja vermelhos num saco de juta depois da colheita
Café cereja recém-colhido: é a saca que o Funcafé financia. Imagem: Ítalo Bruno Araujo Paiva/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Antes de chegar à xícara do visitante, muito café especial passa pela mesa de crédito de uma cooperativa.

III. Mantiqueira de Minas

Carmo de Minas, onde o recorde virou roteiro

Em 2005, um lote de Bourbon Vermelho da Fazenda do Sertão, em Carmo de Minas, alcançou 95,85 pontos no Cup of Excellence, a maior nota da história da competição. No mesmo ano, a fazenda ficou com sete colocações, incluindo as três primeiras. A família planta café ali desde o começo do século 20 e já está na quarta geração.

Hoje, o recorde é também roteiro. A Rota do Café Especial, organizada pela Unique Cafés, leva o visitante de 4×4 pelos mirantes da serra, passa pela torrefação da marca e oferece um dia inteiro de imersão, da colheita seletiva à classificação dos grãos e à prova. É o café de tradição que aprendeu a receber, numa região de Minas onde o crédito rural e o cooperativismo fazem parte da rotina do produtor há gerações.

Cafezal em curvas de nível numa encosta, com montanhas e nuvens ao fundo
Café de montanha em Minas Gerais. Imagem: Fernando Rebêlo/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

IV. Caparaó

O pequeno produtor da montanha abre a porta

Na divisa entre Minas Gerais e o Espírito Santo, aos pés do Pico da Bandeira, o café de montanha é feito por famílias em propriedades pequenas. Foi ali que o turismo do café ganhou um dos seus roteiros mais novos: a Rota Caparaó Mineiro, lançada pelo governo de Minas, com 13 vivências em Alto Caparaó, Alto Jequitibá, Caparaó e Espera Feliz, entre visitas à lavoura, oficinas de torra e degustações guiadas.

Perto da entrada do Parque Nacional do Caparaó fica a Fazenda Ninho da Águia, 55 hectares de cultivo agroecológico conduzidos por Clayton Barrossa Monteiro, primeiro lugar no Coffee of the Year Brasil em 2014 e 2015. A visita é gratuita, com degustação e bolo de banana feito em casa. Do lado capixaba, em Divino de São Lourenço, o Sítio Campo Azul, de Paulo Roberto Alves, premiado no Coffee of the Year 2024, recebe visitantes para provas de cafés especiais, e o Café Cantinho da Floresta é conduzido por uma família que cultiva o mesmo solo há mais de um século.

No Espírito Santo, a presença cooperativa é dominante. O Sicoob reúne 76% dos cooperados do estado, perto de 745 mil pessoas, e foi reconhecido pelo décimo ano seguido como o principal canal do Funcafé no estado, segundo o Anuário do Cooperativismo Capixaba. É esse o crédito que chega às pequenas propriedades de montanha, onde a lavoura cabe em poucos hectares e a visita ajuda a fechar a conta da família.

Montanhas do Caparaó vistas do Pico da Bandeira, na divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo
O Caparaó visto do Pico da Bandeira: café de montanha nas duas encostas. Imagem: Magnifico brasileiro/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

V. Chapada Diamantina

Piatã, o Nordeste no mapa do café e o crédito que ainda chega

Entre 1.260 e 1.400 metros de altitude, Piatã é a única cidade fora do Sudeste entre as pré-selecionadas do Cup of Excellence Brazil 2026: colocou 13 dos 150 lotes. Os cafés da Chapada Diamantina receberam Denominação de Origem do INPI em 2024, e o Sebrae Bahia apresentou uma Rota dos Cafés Especiais por fazendas de Mucugê, Ibicoara e Piatã. Em Ibicoara, a Fazenda Matos, da produtora Tadeane Matos, que faz o Café Igaraçu, recebe grupos aos fins de semana para uma caminhada pelos cafezais, a torra em pequena escala e uma degustação guiada.

A Chapada também mostra o tamanho do caminho pela frente. No Sul do país, 26,3% da população é associada a uma cooperativa de crédito. No Nordeste, a taxa é de 1,6%, a menor do Brasil. Em Piatã, a organização dos pequenos produtores passa por uma cooperativa de produção, a Coopiatã, que divide entre os associados os custos de colheita, secagem e classificação, porque, sozinho, o pequeno produtor gasta mais e chega com mais dificuldade ao mercado. O crédito cooperativo, que no Sul é paisagem, aqui ainda é fronteira.

Serras e vegetação da Chapada Diamantina na região de Piatã, na Bahia
A Chapada Diamantina entre Abaíra, Piatã e Mucugê. Imagem: Valdir Barbosa/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

VI. Cerrado Mineiro

Escala, origem e uma vitrine regenerativa

O Cerrado Mineiro foi a primeira região do país a conquistar Denominação de Origem para café. É o café de escala, de fazendas grandes e planas, e mesmo assim aprendeu a receber. A Rota do Café do Cerrado Mineiro passa por Patrocínio, Patos de Minas, Cruzeiro da Fortaleza e Carmo do Paranaíba. Em Patrocínio, a Fazenda Santa Cruz da Vargem Grande se apresenta como a primeira produtora de café do mundo com certificação de agricultura regenerativa da Regenagri e leva o visitante às plantações, à degustação e ao plantio de árvores. Em Monte Carmelo, a Fazenda Três Meninas pratica cafeicultura regenerativa desde 2016 e recebe grupos com agendamento.

As cooperativas de crédito da região fazem parte do calendário do setor. No Seminário do Café, em Patrocínio, o Sicoob Coopacredi monta agência móvel com condições especiais para os produtores, levando o crédito para dentro do principal encontro técnico da região.

VII. O que fica

Crédito que conhece o terreno

As quatro regiões contam a mesma história de jeitos diferentes. O café especial agrega valor à saca, e o turismo agrega valor à fazenda: a visita vende café direto ao consumidor, ocupa a família fora da safra e ajuda a segurar o jovem no campo. Para isso acontecer, alguém precisa aceitar financiar uma ideia que não cabe no formulário padrão do crédito rural. É aí que pesa a principal diferença da cooperativa: a decisão é tomada perto, por quem conhece a lavoura, o clima e o histórico do vizinho, e o resultado volta para a própria região, dividido entre os associados.

Não é um caminho sem risco. O preço do café oscila, o clima castiga, e dívida feita em ano bom pesa em ano ruim. O crédito cooperativo também cobra juros e exige garantia. A diferença está em quem decide e para onde vai o resultado. Num país em que a cooperativa já está em mais cidades do que o banco, e em que o Nordeste ainda engatinha no modelo, a xícara servida na porteira da fazenda conta uma história maior do que parece.


A estrada de terra termina numa porteira aberta. Do outro lado, alguém serve uma xícara e conta de onde ela veio: o pé, a altitude, a secagem, a família. Raramente conta o resto, o gerente da praça, a assembleia, o vizinho que também é dono do banco. Mas está tudo ali, na mesma xícara.

Onde visitar

Mantiqueira de Minas: Rota do Café Especial, em Carmo de Minas, com passeios de meio dia e de dia inteiro. Datas e valores em uniquecafes.com.br

Caparaó: Fazenda Ninho da Águia, em Alto Caparaó, com visita gratuita e reserva pelo WhatsApp (32) 98431-8230. Do lado capixaba, Sítio Campo Azul e Café Cantinho da Floresta, em Divino de São Lourenço.

Chapada Diamantina: Fazenda Matos, em Ibicoara, aos fins de semana, das 9h às 16h, com agendamento em cafeigaracu.com.br

Cerrado Mineiro: Fazenda Santa Cruz da Vargem Grande, em Patrocínio, e Fazenda Três Meninas, em Monte Carmelo, com agendamento obrigatório.

Horários e valores mudam com a safra: confirme com cada fazenda antes de ir.

Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
Imagens: Wikimedia Commons (Volker J. Walpuski, Fernando Rebêlo, Ítalo Bruno Araujo Paiva, Magnifico brasileiro, Valdir Barbosa)

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